segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Corno





Marco Antônio era corno. Sabia disso e não se importava. Adorava aquela vida e gostava do status que a condição lhe oferecia. Na verdade, nem ele entendia muito bem aquele prazer mórbido. Só sabia que gostava e pronto.

Quando conheceu Adelaide, todos diziam que ela não prestava. Mas ela era tão linda, tão simpática. Era óbvio que gostava dele. O seu carro importado e sua conta bancária eram apenas detalhes. Namoraram, noivaram e casaram num período de dois meses. Pra família era golpe. Pra ele, amor.

O grande golpe (ou a grande surpresa, ele gostava de pensar) aconteceu já durante a lua-de-mel. Encontraram-se com Alfredinho, grande amigo de infância de Marco Antônio, em Aspen. O entrosamento entre Alfredinho e Adelaide era visível. E Marco Antônio ficou muito feliz com isso. Então, no segundo dia, quando Marco Antônio preparava-se para esquiar, Adelaide alegou indisposição. Mas insistiu que o marido deveria aproveitar o dia. 

Ele foi mas, preocupado com Adelaide, voltou mais cedo para o hotel. Foi para o quarto, abriu a porta em silêncio para não acordá-la, caso estivesse dormindo, e foi então que estacou. Ouviu gemidos. Chegou devagar até a porta do quarto e, escondido, ficou observando a cena. Alfredinho e Adelaide, nus, fazendo as mais variadas acrobacias sexuais na cama. 

Mas, ao invés de raiva, Marco Antônio ficou excitado. Ficou observando Adelaide com Alfredinho e adorava o que via. Ficou ali, masturbando-se, enquanto sua esposa e seu amigo de infância se divertiam. Depois, retirou-se do quarto com um sorriso no rosto e voltou a esquiar. E como achou o dia mais bonito, mais feliz…

Daquele dia em diante, Marco Antônio sempre levava seus amigos para visitá-los. Fazia questão de companhias masculinas para alegrar sua esposa. E Adelaide adorava os amigos de Marco Antônio, os presentes que ganhava, os mil amantes que tinha e achava sinceramente que o marido de nada desconfiava. Era um bobo distraído que nunca iria descobrir suas aventuras.

Mas era Marco Antônio quem se fazia de bobo. Era ele quem gostava da situação, quem tudo controlava, pois adorava observar sua esposa com outros. Num determinado fim de semana, fez questão que Adelaide viajasse sozinha com uma amiga e instalou câmeras ocultas em seu quarto e outros cômodos da casa. Tudo para que pudesse observar atentamente cada aventura de Adelaide, cada caso, cada relação sexual de sua mulher com outro homem.

E ele sabia o que todos comentavam por suas costas. Que ele era idiota e estúpido. O corno, o chifrudo. Mas não se importava. Podiam dizer o que quisessem. Ele era feliz assim.

Era corno sim. Com muito orgulho! Com muito amor!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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