sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Letras e Canções








Na semana passada divaguei um pouco sobre algumas canções que, muitas vezes, não conseguíamos compreender as mensagens. Afinal, o que poderia estar atrás daquelas canções pop, inofensivas e até com refrãos bublegum? No texto, citei algumas canções como Luka, da Suzanne Vega; Rape Me, do Nirvana, e Camila Camila, que narravam situações que iam desde o estupro até violência doméstica e abuso contra menores.

Muita gente me escreveu dizendo que nem tinha noção de como essas canções, escondidas sob uma melodia muitas vezes “fofinha”, retratavam assuntos tão pesados.

Aí, fui lembrando ao longo da semana, de outras músicas que todo mundo cantava mas não tinha noção do que estava sendo dito. A Legião Urbana era campeã neste quesito. Lembro-me bem de uma entrevista no Programa Livre, do Serginho Groissman, onde a Legião estava se apresentando. Em um momento, a platéia urrava para que eles tocassem o clássico Pais e Filhos e Renato Russo, que detestava tocá-la ao vivo, irritado deu um sermão daqueles no público adolescente, questionando se eles sabiam que essa música era sobre o suicídio de uma jovem. Era sempre muito estranho ver aquela galera com mãozinhas pra cima e dançando enquanto ele cantava “estátuas e cofres e paredes pintadas / ninguém sabe o que aconteceu / ela se jogou da janela do 5º andar / nada é fácil de entender... / Dorme agora / é só o vento lá fora...”

Renato também escreveu uma canção chamada Teatro dos Vampiros que dizia assim: “vamos sair, mas estamos sem dinheiro / os meus amigos todos estão procurando emprego / voltamos a viver como há dez anos atrás / e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”. Ninguém entendeu, mas o legionário escreveu essa canção como uma forma de protesto contra o confisco que o então presidente Fernando Collor e a ministra da economia Zélia Cardoso de Melo fizeram nas contas-poupança dos brasileiros, deixando todo mundo na merda.

Outra bem enigmática era a canção Daniel na Cova dos Leões, presente no disco Dois, de 1986: “aquele gosto amargo do seu corpo / ficou na minha boca por mais tempo / de amargo então salgado ficou doce / assim que o teu cheiro forte e lento / fez casa nos meus braços / e ainda leve, forte, cego e tenso / fez saber que ainda era muito e muito pouco”. A música metaforiza o sexo oral e induz que é entre dois homens: “teu corpo é meu espelho e em ti navego”. Mesmo com a questão polêmica, Renato foi bem enfático ao entitulá-la com o nome de uma das mais famosas passagens do Antigo Testamento Bíblico, onde o personagem-título, temente a Deus e um querido súdito do rei Dário, por causa da inveja e difamação, é condenado por traição e jogado às feras para o devorarem. No entanto, Deus enviou os seus anjos e os animais não fizeram absolutamente nada ao jovem Daniel, que no dia seguinte foi retirado da cova pelo próprio rei Dário. A música reflete exatamente essa situação de lidar com algo que não é aceito (no caso, a sexualidade) e de se sentir encurralado.

Nos anos 80, havia também uma certa apologia ao sexismo em letras misóginas, que as pessoas cantarolavam à vontade, inocentemente. O Camisa de Vênus, que emplacou vários hits como Eu Não Matei Joana D´Arc e Deus, Me Dê Grana e Só o Fim também gravou a punk Bete Morreu (no álbum de estreia e censurada) que falava sobre estupro, necrofilia e ocultação de cadáver e ainda teve problemas com a polícia federal, que recolheu as cópias do álbum Viva, voltando às lojas depois do veto de oito músicas, inclusive a de Silvia, aquela mesma que tinha o “piranhaaaaa” no refrão e ainda tinha a incitação à violência com duplo sentido “todo homem que sabe o que quer pega o pau pra bater na mulher”.

Até a bobinha Blitz não tinha nada muito de inocente. Na canção Você Não Soube Me Amar, que deu o pontapé no rock nacional, o carinha da letra convida a menininha para tomar uns chopes e comer umas batatas fritas mas, se repararmos, o que ele queria mesmo era só pegar a menininha: “mas realmente, mas realmente eu preferia que você estivesse nua”... O álbum, lançado em 1982, teve ainda suas duas últimas músicas proibidas pela Censura depois que o disco havia sido prensado. A saída encontrada pela gravadora foi literalmente arranhar 30 mil vinis à mão nas faixas Ela Quer Morar Comigo na Lua e Cruel, Cruel Esquizofrênico Blues.

Já Leo Jaime teve seu disco proibido em 1983 para menores de 18 anos e só era vendido lacrado. A culpada era a versão que ele havia feito para a romântica Sonny, aqui rebatizada de Sônia, uma verdadeira suruba: “Sônia / vamos nessa festa fazer um trenzinho / você na frente e eu atrás / e atrás de mim um outro rapaz (...) Dizem que eu sou um cara legal / eu transo cunnilingus e sexo anal / Sônia, eu vou cair de boca”.

Três anos depois, o Capital Inicial também teve seu primeiro disco censurado por causa de Veraneio Vascaína, um ataque à polícia militar: “Cuidado pessoal / lá vem vindo a veraneio / toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho / com números do lado, dentro dois ou três tarados / assassinos armados, uniformizados / Veraneio vascaína, vem dobrando a esquina”. A proibição acabou rendendo para o grupo uma mídia positiva. Na época, o grupo vendeu mais de 100 mil discos, rendendo seu primeiro disco de ouro. 

Bem, o assunto é longo... Dá pra gente ficar aqui debatendo em centenas de colunas uma quantidade infinita de canções para analisarmos. Mas continuem mandando dicas! 

Ah, e como uma boa dica, hoje à noite, sexta-feira, 17/09, eu e meu companheiro de coluna e de vida, Paulo Henrique Brazão estaremos juntos no Instituto Kreatori recebendo os amigos para autografar os nossos livros-filhos Troco a bituca por duas jujubas e Perversão. Apareçam por lá! 

Bom fim de semana a todos! 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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