domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Muro de Trump e o Tratado da Estupidez Humana





A abrangência da palavra "estupidez" não faz jus ao pequenismo de seu significado. De ignorância - no campo do conhecimento ao campo da grosseria - à agressão, a estupidez caminha serelepe destilando um mau resultado do produto final da humanidade. 

Os recentes feitos da estreia de Trump na presidência norte-americana são incrivelmente poéticos e desenhados para entender minha afirmação. Em tempos de informações acessíveis, o melhor mesmo é negar a possibilidade de qualquer discussão que demandem um pouco mais de humanidade. 

E falando de muro, talvez a construção mais simbólica já vista no mundo sobre dividir pessoas, repetir que isso seria mais eficaz do que simplesmente discutir sobre formas de minimizar a imigração ilegal propondo melhorias na vida das pessoas, é repetir o que a gente fala internamente toda noite: como somos idiotas! Pra um povo que já passou pelos crimes mais bárbaros ligados ao tráfico, que cava TÚNEIS para atravessar os países, vamos combinar: um muro é fichinha. Não vai impedir ninguém que realmente esteja disposto a se arriscar por uma chance de vida melhor. 

E não satisfeito, Trump ainda reitera seu discurso xenófobo para banir cidadãos islâmicos dos EUA. Todo aquele burburinho de que "ele é louco, mas nem tanto" não colou, não é mesmo? Não só ele já começou a fazer tudo o que prometeu em campanha, como não parece nem um pouco amedrontado pela intensa resposta negativa da população. 

Não sou especialista em política (até porque vivendo no Brasil a gente sempre está preparado para o pior), e não sou muito de fincar minhas crenças em teorias conspiratórias. Não sei se isso tudo é tática dos republicanos para dar corda até que ele se enforque, seja deposto do cargo, e o vice assuma. Já vimos isso acontecer em terras tupiniquins. Mas, se for, de que adianta? Pelo motivo x ou y, tem muita gente pagando o pato. 

A verdade é que é difícil entender o ser humano. A gente troca figurinha, troca de roupa, de namorado, troca até os dentes, mas somos incapazes de trocar gentilezas com o próximo. 

Recentemente, passei 6 dias em Buenos Aires, capital famosa que eu ainda não conhecia. Dentre minhas expectativas: doce de leite, vinho, carne e calor. A realidade foi doce de leite, coca light, medialunas, frio e grosseria. Não posso culpar a cidade pela minha escolha errada de restaurantes e bares enquanto estive lá, mas confesso que, não fosse a estupidez do povo argentino, eu teria me esforçado mais para deixar minha confortável cama de hotel em busca de novas experiências. Os hermanos já tinham a fama, e eu sabia. Mas nunca levo a sério tudo que me falam sobre o que não conheço, especialmente quando estou a poucos passos de descobrir com meus próprios olhos. 

Ser bem atendido sem precisar repetir seu pedido para, pelo menos, 3 garçons diferentes, deve ser um bônus que algumas pessoas recebem quando visitam a cidade. Eu não fui uma das escolhidas. Informações também parecem ser bens valiosos que eles não estavam dispostos a partilhar comigo. Cidade turística que não gosta de turista é dose. 

Aparentemente, sorrir também não está incluído no pacote da viagem. "Gracias!" - só eu preciso falar? Achei que era convenção universal de bom convívio em sociedade. De nada, de toda forma. Continuo tentando. Dinheiro trocado para comprar água parece ser uma ofensa também, quem diria? Se o prato principal chegar, enquanto eu ainda estiver comendo minha entrada, azar o meu: o garçom vai retirá-lo mesmo assim. Quem mandou eu demorar? Mas nada tira o charme de caminhar por Puerto Madero enquanto o sol baixa ou descobrir antiquários inimagináveis pelas ruelas de San Telmo. 

A grosseria do povo argentino também não me fez ignorar, no último dia, um jornaleiro bem velhinho que fez questão de levantar de sua cadeira para me mostrar onde era o ponto de ônibus que eu deveria ir (mesmo que fosse exatamente ao lado da banca de jornal). Também não esqueço o jovem que me atendeu numa loja de doces argentinos, que perguntou se eu estava com muita pressa ou se poderia esperá-lo trocar o papel da máquina de cartão, para que eu pudesse levar meu recibo. Esperei e ganhei uma deliciosa prova do doce de leite mais gostoso que já provei.

Essa relação de tamanha estupidez gratuita me faz valorizar ainda mais a gentileza de quem parece ser mais evoluído que a maioria aqui nesse planeta. E me faz repensar, também, em como eu devolvi todas essas agressões verbais (por vezes, somente silenciosas) e em como ódio gera ódio, em qualquer instância. 

A Argentina não me mostrou nada diferente do que eu já vi em meu próprio país. Mas a concentração dessa estupidez em tão poucos dias me fez ver sob outra perspectiva, e quem ganhou fui eu. Já no avião, voltando, um pequeno menino oriental, com pouco mais de 1 ano, brincou comigo e alternava entre balbuciar palavras em japonês e espanhol, de forma encantadora. O taxista fez questão de levar minha mala até onde ele podia e nem reclamou quando eu só tinha uma nota de R$50,00. 

E, aos trancos e barrancos, a gente vai se juntando, gritando, tentando fazer diferença. Alguma hora seremos ouvidos. Só não podemos parar. Não podemos ter medo de um muro, nem de tudo que ele carrega. Muro é pedra. E pedra, a gente derruba. 

Como diriam as Spice Girls: gotta keep it strong before the pain turns into fear. 

A estupidez humana é uma praga difícil de exterminar. A gentileza é o que faz florescer, apesar de tudo. O que leva as pessoas a escolherem lados diferentes é o que ainda me intriga mais.

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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