sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O Que Há Por Trás das Canções e Melodias





Quando eu era adolescente, comecei a aprender inglês com a revista Letras Traduzidas, da antiga Bizz, a bíblia do rock oitentista. Foi lá que eu descobri bandas incríveis como o The Cure, o Echo and the Bunnymen, Smiths e Siouxsie and the Banshees, o quarteto divino do rock britânico. Através das edições da revista, e ouvindo as canções na Fluminense FM, que ia aprendendo as entonações corretas e decifrando canções, que antes da publicação eram verdadeiros enigmas para mim. 

Lembro do antigo gravador e do cassete Basf 90 onde eu ia dando play e pause, anotando palavra por palavra para depois tentar compreender com um amigo que entendia inglês bem melhor do que eu e traduzirmos a letra. Obviamente, a versão saía uma cagada só, pois tínhamos 13 para 14 anos. A primeira música que entendemos e traduzimos sozinhos foi Love Vigilants, a dançante canção do New Order. Achávamos a música uma belezura só, mas quando nos demos conta que a letra narrava em primeira pessoa a história de um soldado que lutou na guerra e estava voltando para casa rever a mulher e o filho, a dualidade do tuntz tuntz tuntz com a tristeza da letra me deixou deprê e ainda me chocou ao saber, na última estrofe, que ele já estava morto.

Essa semana fiquei com isso na cabeça quando ouvi na rádio uma antiga canção da Suzanne Veja, que mais fez sucesso nas rádios: a bonitinha Luka (outra que começa narrando em primeira pessoa): “Meu nome é Luka / Eu moro no segundo andar / Bem acima de você / Sim, eu acho que você me viu antes” (ouça aqui!). Apesar da “fofice” da melodia, a letra tratava de um tema pesadíssimo: um menino que sofria abuso pelo pai e que tentava uma forma de pedir ajuda com o silêncio... Ou seja, somente para quem tinha uma sensibilidade em saber compreender o que se passava.

E depois que ouvi Luka, fiquei pensando em várias outras canções que retratavam de alguma forma questões complicadas e delicadas como abuso sexual e violência doméstica e notei que haviam muitas delas por aí e algumas tão disfarçadas que nem conseguíamos ao certo compreender o que estava sendo dito.

Me veio à cabeça a história da cantora norte-americana Tori Amos, que foi vítima de estupro nos anos 1980 quando havia terminado um show e aceitou uma carona de um homem que depois de abusá-la sexualmente ainda a ameaçou com uma faca por horas até que ela conseguisse escapar. Tori, que fundou uma rede nacional de combate ao estupro, retratou o assunto em diversas canções, mas Me And a Gun, de 1992, presente no álbum Little Earthquakes, foi mais fundo, apesar da letra ainda focar o tema de uma maneira implícita, baseada muito mais em seus sentimentos: “era eu e uma arma e um homem atrás de mim / e eu cantei "holy holy" enquanto ele desabotoou suas calças”.

A banda grunge de Seattle, Nirvana, que explodiu mundialmente com o hit Smells Like Teen Spirit também gravou Rape Me, presente no quarto álbum In Utero, de 1993, e incomodou muita gente. A banda quase foi censurada ao vivo quando chegou a tocar a introdução da canção no MTV Video Music Awards. A letra foi escrita como uma resposta de uma vítima de estupro, que busca a vingança; “Estupre-me, estupre-me meu amigo... estupre-me, estupre-me novamente / Eu não sou o único yeah (...) Odeie-me, faça e faça novamente / Desgaste-me, estupre-me meu amigo”. Apesar de ser uma forma de protesto contra a violência contra a mulher, a canção também pode ser entendida como um protesto do próprio Kurt Cobain em relação à própria superexposição da mídia, que colocou a banda em um holofote poderoso enquanto os integrantes somente desejavam o lado obscuro do underground.

No Brasil, Camila Camila, o hit da banda gaúcha Nenhum de Nós, foi uma importante representante, pois fazia um alerta sobre a violência sexual em uma época em que nada se falava sobre abuso sexual de crianças e onde predominavam o estímulo ao sexismo e a deturpação da imagem feminina (semana que vem escreverei mais sobre esse assunto). Camila foi inspirada em fatos reais, envolvendo uma jovem que os integrantes da banda conheciam. Na letra, que se tornou um clássico do rock nacional dos anos 1980, o vocalista Thedy Corrêa revela o constrangimento de uma menina de 17 anos que sofria violência: “A lembrança do silêncio daquelas tardes / Daquelas tardes / A vergonha do espelho naquelas marcas / Naquelas marcas / Havia algo de insano naqueles olhos / Olhos insanos / Os olhos que passavam o dia a me vigiar, a me vigiar...oh... Camila”.

Vale a pena estarmos com os ouvidos um pouco mais antenados para ouvirmos e entendermos algumas canções. Certamente existem por aí muitos Lukas e muitas Camilas que precisam que suas vozes sejam reverberadas.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Marino disse...

Eu não tinha noção da letra "Camila"! Impressionada!! Seguindo essa linha de raciocínio, a letra da música do Toquinho, Aquarela, fala sobre a morte... "...sem pedir licença muda nossa vida e depois convida rir ou chorar... Vamos todos juntos numa Aquarela que um dia enfim... Descolorirá..." a letra é mais ou menos assim... Fiquei chocada qdo descobri...Foi numa aula de interpretação de texto na faculdade de Direito... Eu considero Aquarela um hino para aceitarmos de uma forma mais serena a morte... Lindo texto, meu amigo! ❤