sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Olha o Carnaval Aí, Gente!





O certo mesmo seria eu detestar o carnaval. Quando criança, meus pais e tias sempre me fantasiavam com uma roupinha ridícula de havaiano, com aqueles horrendos colares multicoloridos e um saiote de gosto duvidoso. Íamos para o clube de Bonsucesso e ficávamos rodando em círculos pelo salão ao som de marchinhas. Volta e meia eu, tonto, parava de rodar e me entretinha com o emaranhado de serpentinas no chão e a chuva de confetes.

Eu queria mesmo era me fantasiar de “chupetinha”, como chamávamos os “bate-bola” (que eram a pré-história carnavalesca dos atuais Clóvis). Os bate-bolas eram umas figuras bem assustadoras, com umas roupas largas de cetim e uma longa capa feita de cacos de espelhos. Quanto mais colorido e mais espelhado, mais legal ficava. Mas minha mãe e minhas tias nunca deixavam... Entrava ano, saía ano e eu lá com aquela fantasia tenebrosa de havaiano.

Como disse lá no início, era para eu detestar a festa momesca. Mas as escolas de samba me salvaram. A primeira imagem que eu tenho de antigos carnavais é da Beija-Flor. São flashes que vão e vêm na minha memória, relances de “O sol da meia noite”, de 1980. Como a Beija-Flor sempre desfilava de madrugada, pedia para minha mãe me acordar para que eu pudesse ver a escola de Nilópolis. Sonolento, com meus 10 anos de idade, eu logo ficava hipnotizado com as imagens que eu via na pequena televisão. Mulheres sensualizando em cima de um carro alegórico com os seios à mostra eram um escândalo. As esculturas, hoje colossais, na época não passavam de 3 metros de altura. E mesmo assim, eram gigantescas. 

Foi nesse período que me tornei um fã incondicional da agremiação que, já em 1977, causou o primeiro escândalo: ganhar o carnaval com um enredo sobre o jogo do bicho. E lá existia o sensacional Joaosinho Trinta, responsável por verticalizar os desfiles, colocando esplendores nas fantasias de alas, aproximando o olhar do espectador da agremiação e colocando pessoas em carros alegóricos, modificando toda uma estética do Carnaval.


O primeiro desfile que eu assisti na avenida foi também revolucionário. No fim dos anos 1980, os desfiles acabavam quase 1 da tarde e havia uns intervalos imensos entre uma escola e outra e, em média, nove escolas desfilavam a cada dia. Em 1989, com um sol de 40 graus, a Beija-Flor seria a penúltima a desfilar com o enredo “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia”, aquele histórico desfile dos mendigos e do Cristo Redentor coberto. Naquele ano, a Arquidiocese proibiu que a imagem fosse associada ao desfile. Joaosinho Trinta e Laíla então, tiveram a genial sacada de cobrir a alegoria com um plástico preto e a frase “mesmo proibido, olhai por nós”. Obviamente, o efeito foi arrebatador. A escola perdeu para a Imperatriz (com o ótimo “Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós”), mas o que ficou na memória mesmo foi aquele magistral desfile com as alas misturadas, repletas de mendigos e a inesquecível imagem que vale mais que mil palavras, que cruzou a Sapucaí.

Ah, Sapucaí... Este espaço que tem sido o cenário da mais pura energia que qualquer ser humano pode sentir. Envolvimento que eriça os pelos, arrepia e evolui para uma descarga elétrica... O coração acelera com o ritmo dos surdos e das caixas, os repiques entorpecem, os tamborins anestesiam. E, já em lágrimas, o grito de guerra é o ponto de partida para que, em 700 metros de avenida, o componente entre em transe. São luzes, brilhos, apitos, gritos da multidão de pessoas contaminadas pela felicidade, mãos para cima, suor no rosto. O peso da fantasia nem incomoda mais. Ali, naquela pista, olhando o arco da Apoteose como seu ponto focal, o folião canta, exalta, chora, sangra e se liberta.

Todos os anos, a festa recomeça. E novas histórias e imagens se juntam a esse imenso caleidoscópio. O deste ano começou. Aproveitem o máximo, pois todo carnaval tem seu fim. E quarta-feira de cinzas é logo ali.

Chora, cavaco!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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