domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os Indicados ao Oscar de Melhor Filme e Uma Pequena Análise Sobre Cada Um Deles





O Oscar vem chegando e, como boa curiosa e apaixonada por cinema, fui fazer a maratona pra ver os filmes indicados e poder opinar sobre eles. E é a minha opinião que vocês irão encontrar abaixo, lembrando que opinião é direito e não veredicto.

Seguem então as minhas impressões sobre os nove concorrentes ao prêmio principal:

Um Limite Entre Nós (Fences)

O filme é sobre uma família negra americana ainda na época da segregação (década de 1950), mas os maiores conflitos da trama ocorrem no âmbito familiar. Na verdade, o filme é sobre essas relações familiares, mas não deixa de ser sobre todo o contexto social que impacta nessas relações.

Sem dúvida, é um filme que tem uma importância intrínseca e, de fato, Denzel Washington e Viola Davis entregam belas atuações, o problema do filme – se é que se pode dizer que seja um problema – é que não é um filme que vá ser abraçado por um grande público, porque ele é um filme pra quem gosta de História, de Literatura, mas não tanto pra quem gosta de Cinema. Fazer um filme de época já é complicado por natureza, pela questão da linguagem, do comportamento do outro período que está sendo retratado. Fazer um drama, de época, centrado em conflitos familiares que carregam todo um peso de questões sociais sérias como racismo, pobreza e guerra, é uma ousadia pra poucos. Vale todas as indicações, mas como cinema não acredito que vá ter longo alcance porque passa longe do que a essência primitiva do cinema significa: entretenimento.

É um bom filme, porém, suas questões, embora sejam do interesse de todos, falam mais alto a um público bastante segmentado. Apesar disso, acho que Mr. Washington tem boas chances de levar mais uma estatueta, merecidamente. É praticamente certo que Viola Davis também ganhe, mas, embora ela esteja muito bem, a atuação de Naomie Harris em Moonlight foi mais impactante pra mim.

A Qualquer Custo (Hell or Hight Water)

O filme não é ruim, mas está longe de ser um concorrente de peso. Parece que o bonequinho d’O Globo aplaudiu de pé, o que só me faz suspeitar ainda mais do bonequinho.

O filme é uma espécie de Bonnie & Clyde misturado com Thelma & Louise, só que em vez de amantes ou amigos, a dupla de foras da lei/fugitivos da vez são dois irmãos, que roubam bancos naquela parte mais estéril e empobrecida do território americano – o Texas. O roteiro até que é razoável, usando uma ideia Robin Hoodiana como gatilho, mas nada surpreendente. O papel que deu a Jeff Bridges uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante é praticamente o mesmo papel que deu a Michael Shannon a sua indicação à mesma categoria. O homem da lei do interior, aquela instituição americana, que por vezes faz justiça com as próprias mãos. Tudo bem derivativo.

O filme é bem realizado, bem montado, com uma trilha sonora apropriada, mas não tem nada de extraordinário. Nenhuma atuação que realmente se destaque, nada que a gente já não tenha visto antes e melhor. Os personagens não são desenhados bem o suficiente pra que a gente se importe de fato com qualquer um deles. Achei bem forçada essa indicação.

Lion - Uma Jornada Para Casa (Lion)

É uma das biopics do ano. A história é bem interessante, sobre um garoto indiano que vai parar em Calcutá, sendo que ele fala apenas o dialeto da sua região, e não bengali, a língua oficial em Calcutá. Ele tenta voltar pra casa, mas é muito criança e, além da barreira da língua, ele não tem referências corretas e suficientes da sua cidade de origem ou mesmo da sua família, pra poder ser restituído. Após vários percalços ele acaba sendo adotado por uma família australiana e, muito tempo depois, já adulto, decide procurar sua família biológica.

Praticamente durante a primeira metade do filme o protagonista é criança, e na segunda, adulto. O filme é muito bom, ao estilo de outros filmes como Quem quer ser um milionário?. As atuações são excelentes (o garotinho Sunny Pawar também deveria ter sido indicado, ele é ótimo!) – tanto Dev Patel quanto Nicole Kidman entregam belas performances, na medida certa, sem exageros. Gostei muito desse filme, é realmente um dos melhores do ano.

Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea)

Primeira indicação de uma produção da Amazon a um prêmio da Academia. É um bom filme. É um drama sobre perdas. Me lembrou Ordinary People (Gente Como a Gente, 1980). É um filme que depende muito das atuações e do trabalho da direção, porque é basicamente disso que se trata um drama, especialmente um drama como este, sobre perdas, sobre pessoas quebradas. Os conflitos são essencialmente internos, se passam dentro dos personagens, e o que vemos é apenas o que ultrapassa a superfície, só a ponta do iceberg.

Fizeram toda uma campanha sobre a atuação do Casey Affleck, e sim, ele está bastante bem como o protagonista. Mas me chamou mais atenção a performance de Lucas Hedges, um dos indicados a Melhor Ator Coadjuvante. Já a indicação de Michelle Williams eu achei forçada. Ela está bem, mas não chega a ser caso de indicação.

É um filme bem realizado, mas não é um dos meus preferidos.

Até o Último Homem (Racksaw Ridge)

O filme que está sendo chamado de “a redenção de Mel Gibson”. É o épico de guerra do ano. O filme conta a história de um jovem do interior, Desmond Doss, que tem uma relação conturbada com o pai (que sofre de estresse pós-traumático da Primeira Guerra), e que acaba se alistando para servir na Segunda Guerra. Porém, o rapaz acredita que sua missão na guerra é a de salvar vidas, como um médico de campanha, e enfrenta resistência dentro do seu pelotão por descumprir ordens. Não vou aqui dar mais spoilers do que esses, mas o filme segue o padrão Mel Gibson: um herói/salvador, uma questão religiosa, cenas de combate, exploração visual dos horrores da guerra – ou seja: nada novo.

O que me surpreendeu positivamente foi o Andrew Garfield. Não é um ator que eu colocaria normalmente no primeiro time, mas ele está perfeito no papel do protagonista. No geral, as atuações são muito boas. O roteiro é bem desenvolvido e, embora algumas vezes pareça bem fantasioso, foi baseado numa história real. Tem um furo que eu achei estranho (irmão do protagonista), mas que não chega a comprometer o filme.

E é aquilo, Hacksaw Ridge tem DNA cinematográfico, é um tipo de história que tem cenas pra tela grande, uma jornada do herói bem tradicional. Se é a redenção do Mel Gibson eu não sei, mas que ele fez um bom trabalho dentro do gênero, isso não dá pra negar.

A Chegada (Arrival)


Entra na cota da ficção científica do ano. Também tem um plot bem desenvolvido, a força do filme está justamente na história e na forma como ela é contada, costurando tempos diferentes. Porém, o tom que deram ao filme não colabora com a história. Por mais que eu tenha gostado do enredo, senti falta de alguma coisa, de um pouco mais de emoção. 

Talvez tenha faltado dar um pouco mais para a protagonista. Amy Adams faz um bom trabalho, mas falta alguma coisa pra nos importarmos mais com a sua Louise. A sensação que eu tenho é que ficou blasé. Não que eu ache que toda ficção científica tenha que ser sempre num tom acima, ou num ritmo acelerado. Mas em A Chegada tudo é muito monocórdio, em tons pastéis, etéreo, sem graça. Ok, também é uma história sobre perdas, mas é necessário saber equilibrar isso sutilmente. Talvez na pretensão de fugir dos clichês do gênero, o diretor tenha deixado o filme numa frequência menor do que deveria. Por isso me surpreende bastante a indicação de Denis Villeneuve para Melhor Diretor. 

O filme no conjunto é bom, mas podia ter sido melhor.

Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)

Talvez o filme com o plot mais original do ano. Garoto negro e gay é acolhido por traficante que o trata como filho. Digamos que é o “filme independente” do ano.

Eu gostei muito de Moonlight porque ele não apenas trata do espaço normalmente reservado ao negro na sociedade, seja na americana, seja na brasileira, como também subverte o estereótipo do traficante, do dono de boca, seja dando a ele uma nuance mais sensível e conflitada, no caso do papel de Mahershala Ali, ou sendo usado como uma armadura, no caso do protagonista. Moonlight tem um elenco extremamente competente e afinado: Mahershala Ali, Naomie Harris, Trevante Rhodes (o que é esta criatura linda?), Ashton Sanders, André Holland… É um dos meus filmes preferidos, um trabalho conduzido em sua maior parte com grande sensibilidade.

Apenas uma coisa me incomodou no filme: um pudor excessivo. Eu acho que o filme pedia uma ousadia a mais que tiveram medo de entregar. E isso enfraquece um pouco o resultado final. Inclusive, eu peguei o roteiro disponibilizado pelo estúdio e constatei que aliviaram na filmagem. Uma pena. Mesmo assim, segue um dos melhores candidatos do ano.

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)

Outra biopic, mas aquela que conseguiu me emocionar, me balançar do começo ao fim. A história é incrível, e tudo no filme funciona: roteiro, elenco, trilha sonora… As três atrizes, Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe estão no tom certo, completamente afinadas, maravilhosas. E que delícia ver o Kevin Costner voltar num filme assim, o Jim Parsons fazendo a versão mais antipática do Sheldon Cooper ever, a Kirsten Dunst com aquele ar arrogante que lhe cai tão bem, e o Mahershala Ali sendo gostoso pra variar.

Hidden Figures é inspirador, e tão necessário quanto Fences. Principalmente porque, se Fences mostra uma realidade triste e que precisa ser exposta, Hidden Figures mostra que talento independe de cor da pele, de gênero, e fala sobre resiliência pra enfrentar condições adversas. De certa forma, os dois filmes se complementam. Como eu sou otimista por natureza e adoro narrativas de superação, que influenciam a minha própria vida, achei o filme sensacional. Seria o meu favorito, se meu coração já não estivesse definitivamente ocupado.

La La Land: Cantando Estações (La La Land)

Vou começar dizendo o seguinte: vou fazer descaradamente campanha pró-La La Land. Desde que eu vi o trailer do filme eu fiquei encantada e muito curiosa. Mas eu também tive muito receio que aquela magia do trailer se quebrasse durante o filme, porque isso acontece muito. Até mesmo os piores filmes conseguem juntar algumas boas cenas e fazer um trailer que venda uma impressão de que o filme é bom. Mas tinha alguma coisa ali, já no trailer, uma visão de cinema peculiar. E já tinha o nome do Chazelle, o que ele conseguiu fazer em Whiplash (foi indicado a 5 categorias e ganhou 3 Oscars com o seu primeiro longa, aos 30 anos). Eu li muitas críticas, mas eu sempre leio muitas críticas, e, sinceramente, elas expandem minha capacidade de enxergar coisas nos filmes, mas elas não definem a minha opinião sobre eles. Tem muito mais em jogo aí.

Eu fui ver o filme e, quando acabou, eu sabia que eu tinha acabado de ver alguma coisa que se destacaria na História do Cinema. Porque não tinha como isso não acontecer. E eu vou explicar o que me fez sentir isso. La La Land é uma tapeçaria de referências, e isso ficou bastante claro pra todo mundo que conhece ou que pesquise um pouco sobre cinema. Mas não é só isso. Vários filmes fazem referências, cinema é uma arte cheia de metalinguagem. O diferencial de La La Land são os detalhes. Existe um apuro nos detalhes desse filme que raramente se vê no cinema contemporâneo. E que é muito justificado pela personalidade um tanto obsessiva do diretor. E que também é muito justificado pela capacidade do Chazelle de reunir uma equipe qualificada e de comunicar a essas pessoas exatamente o que ele está construindo. E nisso ele leva vantagem sobre outros diretores porque quando você é o roteirista E o diretor, essa imagem é muito mais clara. O tom que Chazelle quis para o filme está em cada pedacinho, no papel de parede do quarto de Mia, na pintura da parede do lado de fora do restaurante em que Sebastian toca músicas natalinas, até na escolha de atores que podem cantar suficientemente bem, mas que não tem grandes vozes, porque aí você revela fragilidade, humanidade mesmo.

A história de La La Land não é uma grande história, não é A história. Ele não tem um plot forte, não é um filme “High Concept”. Mas, na sua simplicidade, no seu escapismo, como muitos dizem, ele é Cinema com C maiúsculo. Porque ele tem um conjunto impecável da maioria dos aspectos que são avaliados num filme, e tudo coerente dentro da sua proposta. E quando a Academia avalia o Melhor Filme, o que ela está avaliando é isso. O Melhor Filme não é necessariamente o que tem o plot mais forte, ou a melhor atuação do protagonista. Pra isso existem as categorias específicas. O Melhor Filme é o que representa o que todo filme é, por definição: um trabalho de arte construído em equipe. É muito difícil um filme se destacar em tantas categorias, ter uma unidade tão inequívoca, ter tão nítida a coerência de todos os elementos que o compõem. E quando perguntaram ao Chazelle como ele se sentia com tantas indicações, o que ele disse foi que estava muito feliz por toda a equipe, porque eles trabalharam num esquema semelhante ao dos antigos estúdios, em que enquanto alguém ensaiava uma coreografia numa sala, na sala ao lado o outro treinava piano, na sala em frente a figurinista testava as roupas, na outra sala os músicos trabalhavam nas canções. Tudo pertinho, tudo integrado.

Podem discutir muita coisa, mas La La Land é cinema, no sentido de ser um espetáculo visual. Já seria um filme inesquecível apenas pela cena de abertura. E é mais do que uma homenagem aos antigos musicais, mais do que uma ode à Hollywood. La La Land é uma declaração de amor ao Cinema e à toda a sua engrenagem. E se é escapista, bem, foi assim que o cinema surgiu, com pessoas pagando um níquel pra se distrair cem anos atrás. Hoje pagamos mais caro, mas ainda queremos escapar um pouco da realidade. E por que não?

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Ariadny Theodoro  
Lya Quadros está na casa dos trinta, onde deve permanecer pelas próximas quatro décadas (pelo menos). Leonina com ascendente em Capricórnio, imaginem que doce de pessoa. Tem o poder de viajar para universos paralelos, mas sempre acaba voltando. No momento, em um relacionamento sério com o teclado do seu computador.
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Um comentário:

sckol_men disse...

Post tendenciosos nao agregam valor a seu blog. Fik a dika.