sábado, 18 de fevereiro de 2017

Pelo Direito de Ser Você





A gente demora tanto tempo pra se aceitar do jeitinho que é, né? Quando criança nos apelidam de tudo. Me chamavam de orelhudo, narigudo, mas o que mais doía eram os xingamentos referentes a minha suposta homossexualidade. Suposta, porque quando se é criança não importa o que você seja, basta parecer, e eu parecia, muito. Então bicha, marica, veadinho, gayzinho, mulherzinha eram apelidos pejorativos recorrentes para mim.

Ser 'orelhudo' e 'narigudo' nunca me incomodou, nem criança, nem depois de adulto. As orelhas diminuíram ao redor da cabeça, que cresceu. O nariz grande impõe certa personalidade (Tony Ramos que o diga). Fazer qualquer tipo de cirurgia para reparar orelhas de abano e nariz de tucano, nunca me passou pela cabeça. Talvez, porque além de não me incomodar, os outros, cheios de "boas intenções" nunca me patrulharam com comentários do tipo: "Você iria ficar ótimo se desse uma diminuída no nariz" ou "Só um pequeno reparo e suas orelhas ficariam perfeitas", não, nunca me disseram algo do tipo. O que incomodava mesmo toda a gente que me conhecia era o "jeitinho delicado".

Qualquer gesto ou postura que denunciasse alguma feminilidade era sumariamente repreendido:

Não gesticule tanto ao falar!
Descruze essas pernas!
Não ande rebolando!
Engrosse essa voz ou Fale que nem homem!

Dentro ou fora de casa, tais lembretes dados pelos pais, professores, vizinhos ou o diabo à quatro, sempre machucavam profundamente. Porque quando se diz a uma criança que ela não pode se comportar e agir naturalmente, é o mesmo que afirmar que o que ela é não é bom, que sua maneira de ser é feia e inadequada, que ninguém a aceitará daquela forma. E por que mesmo? O que foi que ela fez de errado? Foi apenas ela mesma. Mas ser ela não é legal. Não daquele jeito. E para que todos a aceitem e gostem dela, terá que ser do jeito que os outros acham melhor. Imaginem o estrago no psicológico dessa criança, o tiro na autoestima dela.

As chances dessa criança virar um veado heteronormativo escroto, que não é e nem curte efeminados e acha que gay e bicha são coisas muito diferentes, sendo que o segundo será sempre um tipo inferior que envergonha e denigre a imagem da classe, é nove entre 10. Então, é o seguinte, essa criança que é podada em seu jeito de ser, se tornará um adulto escroto metido a macho ou cheio de problemas com sua autoestima, caso não aceite sua inerente feminilidade.

Toda essa resenha surgiu por conta de uma conversa que tive com um amigo essa semana. Ele estava enviando alguns áudios via WhatsApp, e aí começou a reclamar da própria voz. Disse que começaria a fazer fono porque detestava sua voz feminina e miada. Fiquei surpreso com o desabafo, pois esse amigo é bastante efeminado, o arquétipo da bicha louca, e sempre me pareceu extremamente seguro de si e feliz consigo mesmo, sem contar que ele já tem 40 anos. Então repliquei, que era uma grande bobagem a essa altura do campeonato ele se incomodar com seu timbre de voz. No que ele acrescentou que essa sua característica sempre o incomodou, ao ser confundido com as irmãs, quando adolescente, e mais tarde sempre ser tratado por 'senhora' ao telefone, antes de se identificar.

Dei risadas, pois passei pelas mesmíssimas coisas. Por um tempo me chateava ser tratado por 'senhora' ao falar no telefone também, mais por passar a impressão de ser uma velha do que uma garota. Depois utilizei-me desse artifício para enganar garotos héteros. Até finalmente assumir que tenho uma voz de travesti sim e tá tudo bem. Mas então veio o X da questão para esse meu amigo que, completamente low profile em termos de redes sociais, só recentemente rendeu-se aos aplicativos de "relacionamento", e a queixa era que dois caras tinham dispensado ele depois de ouvir sua voz por áudio. Aí eu me emputeci, pois pense numa pessoa puta da cara. Com 40 anos nas costas, a pessoa vai querer mudar a voz por causa de macho? Só pra conseguir sexo? Depois de ter dado a cara a tapa e enfrentado tanta coisa pra ser uma bicha louca empoderada? Ah, me poupe, se poupe, nos poupe!

E, por fim, ele tentou me convencer que não era só por isso, que a voz sempre o incomodou, etc e tal. Mas sabemos a verdade, né amores? É por causa de macho sim. Mas se é só um encontro sexual com o escrotinho do aplicativo, que respeita mas não curte quem mia, mas é muito gostoso e te deu mole, faz a dissimulada. Dá uma engrossadinha na voz, e quando o boy aparecer dá o bote antes que ele perceba sua feminilidade ou desmunheque ao cubo, só pra ele deixar de ser besta e morrer de raiva porque perdeu a viagem. Eu já fiz isso e a sensação é ótima. Tá boa que eu vou ficar me privando de ser quem sou ou tentar mudar alguma característica que sofri tanto para impor a uma sociedade machista e preconceituosa, só por uma trepada com alguém tão bicha quanto eu, que pensa que uma voz grossa, um andar duro e tratar os outros por 'mano', é requisito básico pro tesão.

Tem gosto pra tudo, minha gente e tem gente pra todos os gostos. Se alguém sente uma necessidade absoluta de fazer alguma mudança em seu jeito de ser ou esteticamente, de forma imprescindível para sentir-se bem e feliz, nada contra, faça, mas por você, e não porque se sentiu rejeitado por alguém, por conta de alguma característica que nunca o incomodou de fato. Já sofremos demais quando pequeninos, com as regras de normas ditadas pelos mais velhos, que nos educavam equivocadamente para uma sociedade dominada pelo patriarcado machista, a qual tentamos hoje combater a qualquer custo. Não há mais tempo para recuar.

Seja bicha louca, veadinho, maricona, mulherzinha, efeminado, macho, bombado. Desmunheque, cruze as pernas, gesticule, fale grosso, fino. Pode até coçar o saco e cuspir no chão, se for mais forte do que você (é nojento, mas autêntico), mas seja você. Não mude por ninguém.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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