sábado, 25 de fevereiro de 2017

Sereia





Fred era o macho-alfa da turma. Olhos azuis, cabelos negros, boca carnuda, todo marombado. Garanhão, pegava todas e não se apegava a nenhuma. No auge de seus 27 anos, com um escritório próprio de advocacia recém aberto, cada vez mais clientes na agenda e a grana entrando solta, ele queria mais era curtir a vida com todas as mulheres que pudesse ter (e ele podia ter muitas), badalar nas praias mais bombadas do mundo, encher a cara com os amigos e zoar muito. E, talvez lá pelos 40 ele, começasse a se preocupar em arranjar uma mulher decente pra casar e formar uma família, que lhe desse o status necessário que todo grande advogado necessita.

Fred ria na cara das garotas que diziam que um dia ele encontraria uma mulher que o faria rastejar e sofrer feito um cachorro sarnento, cada vez que dispensava uma, depois de algumas semanas de pegação. Ele tinha toda a segurança do mundo de que não havia mulher na terra que o fizesse perder a cabeça ou que resistisse ao seu poder de sedução, nunca havia sido rejeitado por nenhuma e isso lhe dava uma tremenda autoconfiança.

Eis que surgiu Morgana. Foi num karaokê na Liberdade que Fred conheceu sua sereia. Na companhia dos amigos, os garotões estavam a fim de variar o cardápio e pegar umas orientais. Em busca das gueixas, escolheram um dos mais badalados recintos da região. Atendidos como reis por belas morenas de olhos puxados, Fred e sua patota se embriagavam com os mais variados tipos de bebida, de saquê a champanhe, de tudo rolou. Eles riam, falavam alto, faziam gracinhas, tentavam cantar, sempre demonstrando uma necessidade absurda de serem o centro das atenções.

A algazarra parou quando a deslumbrante Morgana subiu ao palco e soltou a voz macia e rouca ao som de Folhetim.
"Se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim..."
Embasbacado, Fred não conseguia mais falar. Paralisou e fixou os olhos em Morgana. Sua beleza exuberante e a música provocante embeveceu-o, parecia o verdadeiro canto de sereia. 

Morgana era um mulherão de parar o trânsito. Por mais clones de "capas de Playboy" que Fred já tivesse pegado, nada era como Morgana. Seios fartos, curvas perfeitas, cabelos castanhos com mechas loiras douradas, onduladas e longas emolduravam um rosto de felina com olhos negros de bambi. Morgana tinha uma sensualidade agressiva e doce ao mesmo tempo. Tudo nela desnorteava Fred.

Em contra-partida, Fred era tudo que Morgana detestava num homem. 

No início, Fred tentou tratar sua sereia como todas as outras, mas se deu mal. Morgana o desprezou solenemente. Mas deu seu número de telefone. Por uma semana Fred tentou ligar insistentemente, mas não conseguiu falar, Morgana não atendia. 

Passados os dias que a sereia julgava necessário para deixar o garanhão louquinho, ela finalmente o atendeu. Marcaram um encontro numa confeitaria chique da cidade. Morgana era moça difícil, jamais se exporia à Fred em lugares propícios ao ataque. Comeram uma quiche de alho poró acompanhados de um bordeaux. Morgana contou de sua vida difícil de batalhas, que já havia sofrido muito e não era mulher para brincadeiras. Fred, atento à sua estonteante beleza, fingia prestar atenção. Enquanto Morgana falava, a única coisa que passava em sua mente eram flashes dele a possuindo em uma cama redonda. Sua mente pervertida não parava nem por um segundo.

Já no carro, em frente a portaria do prédio simples onde Morgana morava, no centro, Fred tentou beijá-la. Repelido, insistiu. Morgana foi firme e disse não, mal deixava que ele a tocasse. Usando sua melhor cara de cachorro abandonado, pediu pra subir com sua sereia, Morgana redarguiu. Disse que um dia o convidaria para um café, mas ainda não era o momento. Despediu-se e saiu do carro.

Pela janela do carro, Fred olhou com desprezo o predinho xexelento e se foi rumo ao seu belo duplex em Moema. Pensou: como uma mulher tão incrível podia morar num lugar sem um pingo de charme como aquele? Investiria mais uns dois ou três encontros e se a transa fosse boa até daria uma ajudinha pra ela sair daquela porcaria de lugar. Conhecia bem o tipinho, se fazia de difícil pra valorizar o passe. Já tinha pego várias assim, mas nenhuma era como Morgana, ela tinha algo que o fascinava, o tirava do prumo.

No terceiro encontro Morgana deixou que Fred a beijasse. E foi nesse beijo que a sempre reticente Morgana começou a se entregar aos encantos do rapaz, pois Fred a beijou com tanto fogo e desejo, que estremeceu suas estruturas sempre tão firmes. E Fred também ficou tremendamente mexido com o beijo da moça, era completamente diferente de tudo o que ele já tinha sentido. 

Existia um jogo muito claro entre os dois, que ambos fingiam não perceber, onde Morgana bancava a difícil para transformar o histórico mulherengo e cafajeste de Fred em coisa do passado e ele entrava no jogo até levá-la pra cama e descartá-la em seguida. A pergunta era: quem suportaria mais tempo?

No quinto encontro, Morgana se entregou à uns amassos mais fortes, deixou que Fred tocasse seus seios, mas não deixou que suas mãos descessem abaixo do umbigo, mas acariciou seu pau.

No sexto encontro, Morgana o convidou para um café e, no apartamento xexelento, apresentou seu filho de 5 anos. Fred quase engasgou com a bebida, tamanha surpresa, mas simpatizou com o garotinho de pele morena tão diferente da mãe. E mais do que desejar Morgana, naquele momento passou a admirá-la como pessoa.

Morgana e Fred já se viam há um mês e ainda não haviam transado. Ela ainda não tinha confiança suficiente nele e ele achava que ainda valia a pena esperar. Ela queria que ele desistisse, provando assim que era um canalha. Ele queria que ela cedesse, provando assim que era tudo o que ele esperava, talvez a mulher que ele imaginava encontrar só aos 40, se fosse, poderia começar a rever seus conceitos. 

Surgiu então uma viagem para Ibiza com a turma. Nesse momento, Morgana acreditou que Fred desistiria de continuar vendo-a, mas foi surpreendida com um convite para acompanhá-lo. Decidiu aceitar e resolveu que seria lá, em Ibiza, que tiraria a prova dos nove. Acabaria com o joguinho de sedução e teria a certeza se ele realmente a queria, e estava disposto a assumí-la.

Embarcaram. Na primeira noite em Ibiza, cansados, apenas dormiram. Foi na segunda noite que tudo aconteceu.

Durante o dia, ficaram na praia curtindo o mar, o sol, a sombra dos imensos guarda-sóis e os mais saborosos drinques: cosmopolitans, margaritas, caipirinhas, espumantes... Como se estivessem em uma lua-de-mel, trocaram carícias o tempo todo, beijos, abraços, chamegos, tudo testemunhado pelos amigos de Fred, que nem reconheciam o garanhão da turma, tão envolvido por Morgana parecia estar.

À noite foram à uma festa, mas ficaram pouco. Estavam ansiosos pelo momento tão esperado.

O quarto estava especialmente preparado para uma noite de amor intensa: cortinas brancas, lençóis dourados, velas aromáticas suaves, música sensual baixinha, a champanhe no ponto e o perfume inebriante de Morgana inundando todo o ambiente, transformavam o momento meticulosamente pensado por Fred em algo nada menos que perfeito.

Quando Morgana começou a tirar seu vestido de alça grená de paetês, modelo sereia, Fred com a camisa branca de manga comprida, aberta até a barriga ainda por dentro da calça, ajoelhou-se diante dela com ar de veneração. O coração de Morgana palpitava descompassadamente como uma adolescente virgem, afinal era preciso muita coragem para fazer o que ela estava prestes a fazer. Só de lingerie preta, Morgana começou a ter seus pés beijados por Fred, ainda calçados na sandália de tiras com strass, salto 15. Ele estava em êxtase. Ela afastou-se um passo para trás e tirou o sutiã. Fred soltou um suspiro de prazer ao contemplar os seios de sua sereia. O pau já latejava dentro da calça, Morgana podia ver. Finalmente tirou a calcinha e quando Fred viu o que tanto esperava soltou um ganido de horror. No lugar de uma vagina, um pênis, meio mole, meio amassado, mas com certeza um pênis!

Fred fechou os olhos, esfregou-o com as mãos, tornou a abri-los. Teve náuseas, ânsia de vômito, até conseguir pronunciar:
"mas o que é isso? que porra de caralho é esse?!" 
"é isso mesmo garanhão, por fora eu não sou exatamente como você pensava que eu fosse. Vai encarar ou vai correr?"
Morgana queria que o momento fosse envolto em romantismo e compreensão, mas conhecendo Fred como ele era, não conseguiu evitar um tom irônico e debochado. Homens como Fred mereciam uma lição de vez em quando, por mais dura que fosse e mesmo ela estando quase apaixonada.

Sentindo-se enganado, enojado e revoltado, Fred partiu pra cima de Morgana. O que ele também não sabia é que ela era exímia lutadora de artes marciais. Lhe aplicou um golpe e o deixou no chão, rastejando, arrasado e chorando feito um bebê.

Morgana vestiu-se novamente, pegou sua clutch e quando virou em direção à porta ouviu os lamentos de Fred:
"por que, por que, por que? por que eu? por que você não me contou antes? por que?"
Morgana nem se deu ao trabalho de responder.
"espera. Onde você vai a essa hora? Sozinha?"
"vou alugar um outro quarto pra passar essa noite e você vai pagar, porque se não, seus amiguinhos vão saber tudo o que aconteceu aqui essa noite, e eu tenho certeza que você não quer isso."
"não, por favor não! Pode alugar, aluga o quarto que você quiser!"
Morgana deu às costas e se foi.

Fred ficou ali, caído no chão, em prantos, com vontade de pedir que Morgana ficasse, afinal, ela era sua sereia, ele só não imaginava que a cauda estivesse tão bem escondida.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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