sexta-feira, 31 de março de 2017

Fragmentado





Na semana passada, publiquei aqui um texto chamado Confessionário, que revelava o quanto podemos aparentar ser um outro alguém que pretendemos (ou não) ser. No íntimo de qualquer pessoa, seja eu, seja você, seja o porteiro de seu prédio, seja a beata que vai à igreja todos os dias, seja o caixa simpático da padaria ou o seu colega de trabalho bonachão, há um imenso caleidoscópio de sentimentos e desejos que, cautelosamente, acabamos por desvendar somente uma única faceta, principalmente através das redes sociais que, acredito, tenham sido as responsáveis pela evolução de uma nova cultura comportamental. 

“Tempos líquidos.”, diria o eterno Bauman. 

No Facebook, por exemplo, ninguém (ou quase ninguém) é triste, mau ou está deprimido. Lá, ninguém diz que está com vontade de tomar meia dúzia de Prozacs (ainda existe esse remédio?) ou que gostaria de fuzilar aquela mulher fofoqueira do trabalho que acabou com sua reputação na empresa. Todos nós temos vários ângulos... Mas quem mostra o seu lado “Darth Vader” de ser? O que existe no lado escuro da lua? 

quinta-feira, 30 de março de 2017

Quando Nossos Desejos Não São Mais Os Mesmos





A gente passa a vida toda desejando. Pessoas, coisas, objetivos na vida. Locais de trabalho e até aquele tão sonhado cargo em determinada profissão. Sonhamos e não é pouco. Mas só sonhar não basta. Idealizamos o sonho. Colocamos como objetivo máximo. O mais próximo da felicidade eterna. Só que felicidade eterna não existe, assim como sonhos imutáveis. 

O sonho, para mudar, é preciso que duas coisas aconteçam. Na primeira, ele se realizou, o que o faz com que ele não seja mais caracterizado como sonho. E, na segunda, é uma mudança em nós mesmos. A gente muda e deixa de sonhar por determinada coisa. Determinada posição. Sobre determinada pessoa. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Eu Tenho Um Melhor Amigo?




Desde criança você tem aquele que considera o seu melhor amigo. Sempre que te perguntam quem é, você não tem dúvidas: é ele. Aquela pessoa que não importa quanto tempo passe, quantos acontecimentos se façam, quanta distância haja: vocês sempre ficarão à vontade um com o outro como nos velhos tempos; continuam tendo um humor extremamente parecido; ainda são referência para as suas respectivas famílias de amizade duradoura.

E quando você percebe que, não necessariamente, vocês ainda são melhores amigos?

terça-feira, 28 de março de 2017

Vivemos Em Uma Bolha e Precisamos Sair Dela




Entendemos e vivenciamos o mundo através da nossa perspectiva. Todo e qualquer posicionamento que tomamos é, quase sempre, fruto do que acreditamos ser melhor para nós. Precisamos romper esse padrão.

Gostando ou não, estamos inseridos em uma sociedade, e o que fazemos (ou deixamos de fazer) pode ter influência na coletividade. Muitos problemas acontecem por conta da falta de percepção do outro ocupando o mesmo espaço que eu. E isso vai desde o exemplo mais simples – como sujar um espaço público – até questões mais complexas, quando decisões são tomadas para beneficiar um determinado grupo e ao mesmo tempo causam o sofrimento de outros.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Em Petrópolis, Leandro Diz Ter Sido Confundido com Latino





A internet não tem limites e a gente, é claro, se diverte com o bom humor dos internautas. Afinal, não há crise ou perda de direitos que acabe com a capacidade do brasileiro de zoar qualquer coisa que aconteça. E as redes sociais são um verdadeiro celeiro de bom humor e piadas diversas, com memes que viram sucessos instantâneos, surgindo e desaparecendo com a mesma velocidade. E foi um meme da última semana que acabou me lembrando de um caso real (e trágico, se não fosse cômico) que aconteceu comigo anos atrás.

A manchete "Em Los Angeles, Anitta diz ter sido confundida com Jennifer Lopez.", veiculada por diversos sites, rendeu a brincadeirinha dos últimos dias, onde os bem-humorados anônimos da internet, muitos deles uns queridos do meu Facebook, imaginaram-se na mesma situação da cantora. Alguns deles, inspirados, como os prints abaixo:

domingo, 26 de março de 2017

Marcos





Observava de longe um casal se beijando na pista de dança. Haviam muitos outros se beijando também, mas aquele em particular o chamava a atenção. Havia algo diferente no ar que ele não sabia bem o que era. Há um bom tempo que não saía de casa, que não via gente, mas falaram tanto dessa festa que quis conhecer com seus próprios olhos. Precisava conhecer gente nova, ter gente nova em sua vida, entretanto, viu um rosto conhecido e foi ter com ele. 

- Quanto tempo! Por onde você andava? Viajando?

Marcos pensou no que poderia responder, não estava viajando, isso de certo, mas dizer a verdade seria ter uma conversa que ele sabia que não caberia ali naquele momento. Preferiu ser lacônico.

- Não. Por aí na vida.

sábado, 25 de março de 2017

É Impossível Ser Feliz Sozinho?





Acordou às 7. Tomou dois goles ligeiros de café preto. Fez sua corrida matinal aos arredores do parque que tinha em frente ao seu apartamento. Voltou pra casa suado, como de costume. Tomou uma ducha fria. Preparou uma caprichada mesa para fazer sua primeira refeição: pão fresco, suco natural feito na hora, queijo, patês e morangos. Adorava morangos pela manhã. Antes de pegar no batente, aquele ritual era sagrado. Um pequeno prazer matinal que enchia de satisfação o corpo e a alma.

Enquanto tomava o café e apreciava a belíssima vista verdejante que o parque proporcionava da janela de sua sala, no som ouvia Wave. Adorava a canção de Tom Jobim, mas quando chegava na parte em que ele entoa que "é impossível ser feliz sozinho", emitia um silencioso sorriso de desdém. Era um homem solitário, talvez por opção. Gostava da solidão auto-imposta e não se sentia infeliz em absoluto.

Às 9 trancou-se no escritório. Tinha acabado de ser contratado por uma editora e estava às voltas com um novo romance. Enquanto escrevia, sentiu Barbarella ronronar e enroscar-se em suas pernas pedindo comida. Interrompeu o terceiro capítulo na metade para encher o pote da gata angorá cinza de ração.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Confessionário




Eu já quis matar alguém.  

Pode parecer muito estranho estar revelando isso aqui, em um ambiente onde a grande maioria das pessoas me acha tão bacana.  “Ele é um rapaz muito educado”, “é um amor de pessoa”, “queria ter sua paciência”, “ele é tãããão tranquilo...”

Quem foi que começou isso tudo?  Não faço a mínima ideia.  Acredito que essa imagem de rapaz bonzinho tenha vindo lá de meus primórdios, desde que eu era uma criança.  Naquelas fotos em preto-e-branco do colégio primário sempre estava parecendo um anjinho de candura, mas Deus é que sabe que eu sempre estava mesmo era cuspindo fogo, puto da vida em ter que obrigatoriamente manter uma pose que eu não estava com a menor vontade de fazer.

quinta-feira, 23 de março de 2017

É Preciso Ter Tesão!





Lembro até hoje quando decidi escrever sobre séries. Era um pirralho. Na casa dos vinte e poucos anos, mas um pirralho. Já sabia, porém, que queria ser roteirista. Só que nada sabia do mundo. Da vida. Era um completo sonhador. E acabei por me jogar no mundo das séries. Era um momento em que assistir séries era o ideal. LOST era série queridinha e muitas outras, como Grey’s Anatomy, estavam chegando para fidelizar um enorme público. Alguns sucessos se encontram no ar até hoje e outros estão finalizando sua jornada de mais de quinze temporadas no ar... 

O que sei hoje sobre o assunto séries, sei do tempo que passei assistindo, lendo sobre e conhecendo todos os jornalistas especializados. Sim, existem nomes do jornalismo que são especializados em cobrir o mundo das séries ou eventos em que informações sobre determinada produção ou o início de uma nova, são amplamente divulgados. Michael Ausiello, por exemplo, é um dos que mais respeito lá fora. Ele criou um site (o TVLINE), que cobre basicamente eventos do mundo das séries. E da televisão americana também, mas não só isso. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Bandido Também É Gente




Reconhecer que já tive atitudes erradas no passado e que, com elas, poderia ter me tornado alguém pior foi extremamente importante na última semana. Tive vários retornos, de pessoas conhecidas e de outras que nunca vi na vida, sobre como foi conhecer esse lado que, normalmente, a gente busca esconder e esquece que faz parte da nossa trajetória. Houve quem chorasse, houve quem me agradecesse, houve quem enaltecesse a minha mãe e seu papel de real educadora. 

Mas, e se eu não tivesse passado por isso? E se eu não tivesse alguém para me dar ensinamentos valiosos? Ou mesmo tivesse a disposição ou, mais ainda, a oportunidade de mudar? 

terça-feira, 21 de março de 2017

Conflito de Gerações





Ei, você. Isso mesmo, você, que tem como frase preferida “no meu tempo era melhor” (e outras variações). Sente aqui, vamos ter uma conversinha.

Primeiro de tudo, gostaria de saber: por que você acha isso? O que o(a) faz crer que em seu tempo era tão melhor assim? Aliás, o que você considera como “seu tempo”? Achei que você ainda estivesse vivo(a)...

Ah, as coisas funcionavam melhor? É mesmo? A família era mais valorizada? Nossa, incrível! As crianças obedeciam mais? Uau! Deveria ser o máximo mesmo. Mas, me esclareça uma coisa: esse tempo aí que você está falando por acaso envolve um tal regime militar? É aquela época em que as mulheres ficavam em casa, pois poucas trabalhavam fora? Engraçado, eu não acharia esse “tempo” tão divertido assim. Porém, vamos explorar seu ponto de vista.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Dementadores




Dementador: ser que se alimenta da felicidade humana, causando depressão e desespero para qualquer um que fique perto dele. Também podem consumir a alma de uma pessoa, deixando suas vítimas em um permanente estado vegetativo e, assim, são muitas vezes chamados de "sugadores de alma". São também conhecidos por deixarem uma pessoa com um "vazio". 
Na última semana, em duas conversas com amigos diferentes, ouvi sobre relacionamentos que acabaram e que, depois disso, a pessoa conseguiu enxergar o mal que o antigo parceiro lhe fazia. Eram claramente relações abusivas, com pessoas egoístas e interessadas apenas no próprio bem-estar. Mas, se isso é tão visível visto em retrospecto, por que foi tão difícil para essas pessoas colocarem um ponto final nessas histórias?

domingo, 19 de março de 2017

Paulo





Não tinha vergonha de dançar, gostava de dançar e, quando dançava, o mundo podia acabar à sua volta que nada mais interessava. As cores, as luzes, o som, se uniam ao seu corpo que se tornavam um só. Um ser que sorria sempre, sorria pra dentro como dizia a si mesmo, porque só sorrindo pra dentro podia-se sorrir pra fora. E ele sorria, e sorria muito, para gente que ele nunca vira na vida. Se divertia com a alegria das pessoas em volta, dos amigos que apareciam e o cumprimentavam, ali ele era sempre o rei do salão.

Aquele dia não era diferente dos demais, Paulo só queria dançar a vida inteira. Sabia que, se quisesse, poderia ter tudo que desejasse. Era como se a música o dominasse naquele momento. Ao seu redor viu um casal se beijando, depois outro e depois outro e mais outro. Nesse instante, sentiu uma mão em volta de seu corpo. Ele só queria dançar e o rapaz dançava junto com ele. Um rapaz alto de sorriso maroto e barba por fazer.. Seus olhos fitavam os olhos negros do outro e não demorou muito para que a boca deles se encontrassem e um estranho calor invadisse seu corpo.

sábado, 18 de março de 2017

Aquela Frase Dita Pela Mocinha de Um Filme






Se você assistiu ao drama romântico Um Dia (One Day, 2011), baseado no romance de mesmo nome de David Nicholls e protagonizado por Anne Hathaway, talvez se lembre de uma frase contundente, dita pela mocinha Emma (Anne) ao seu amor/amigo Dexter (Jim Sturgess).

sexta-feira, 17 de março de 2017

As Muitas Vidas de Vovó





Anteontem, minha vó Lourdes fez 90 aninhos. E tal qual uma Mrs. Dalloway, do famoso livro de Virginia Woolf, me preparei para produzir uma festa à noite. Foi aí que lembrei de seu carrancudo pedido para que nunca a surpreendêssemos com surpresas ou parabéns; afinal ela “nunca teve um aniversário” na vida. Obviamente, aquela afirmação era um charminho peculiar, pois repetidas vezes, a família se reuniu para comemorar a data. Mas fiquei matutando e tentando entender o que significava para ela um aniversário.

Minha avó praticamente não teve infância. Desde muito pequena trabalhava em casa de família e, aos 14 anos, já estava casada com meu avô, um militar da Marinha, mulherengo como ele só. Também não teve festa de debutante: aos 15 anos já tinha uma filha para criar. Ao todo, teve cinco filhas que lhe deram 10 netos, 7 bisnetos e muitas histórias para contar. Em muitos momentos de minha vida, foi ela que tomou a frente de minha educação e criação. Por isso, todos os dias, quando ela vai até minha cama me acordar para eu trabalhar e faz questão de preparar minha torrada quentinha, agradeço por ter a oportunidade de tê-la ao meu lado.

quinta-feira, 16 de março de 2017

O Que Fazer Quando a Carência Aparece?





Esse não é um daqueles textos que você vai ler e sentir que o autor quis mostrar que existe muito mais na vida do que estar em uma relação. Na verdade, esse é um texto mais reflexivo. Faz uma semana que saquei que estava vulnerável, carente mesmo! Pensando o tempo que faz da última relação que estive, do beijo que dei e do abraço que recebi. Abraço com vontade, cheio de tesão, se é que vocês me entendem. 

Ontem, por exemplo, durante a minha madrugada boladona, conversava com alguns amigos. A gente falou sobre esse clima de pegação, de ninguém ser mais de ninguém e percebi que continuamos presos dentro de velhos conceitos, que nem sabemos em qual momento de nossa vida adquirimos, mas eles (esses conceitos todos) estão ali e não são fáceis de substituir. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Sim, Eu Já Fui Um Escroto





Houve um momento em minha vida em que boa parte dos pensamentos que hoje eu condeno contava com a minha colaboração ou a minha simpatia. Pensamentos mesquinhos, machistas, sexistas e, pasmem, homofóbicos. Tudo bem, muitos deles ainda na minha infância. Mas duas coisas foram fundamentais para que eu não me tornasse um babaca completo: a interferência dos meus pais na minha educação e a minha disposição a aprender algo e mudar de opinião.

Quando eu era pequeno, lá pelos meus sete anos, eu pegava a Kombi (que depois virou ônibus) escolar a caminho do meu colégio. Como já relatei aqui no passado, o Instituto Abel, em Niterói, era um celeiro pulsante de bullying: parecia uma supernova emanando preconceitos e perseguições de seus alunos. No transporte escolar não era diferente. Eram constantes xingamentos como viadinho, boiola, bichinha e afins. Eu retribuía na mesma moeda. E um dia, ao chegar em casa, comentei com a minha mãe que fulano era “viado”. A minha mãe na mesma hora virou para mim e falou: “Não cospe para cima porque cai na cara”. Era a primeira vez que eu ouvia aquele ditado. E não entendi muito. Ela me explicou: “Meu filho, não sabemos o dia de amanhã. Se você crescer e tiver um filho gay, você não vai gostar de ouvir isso”.

terça-feira, 14 de março de 2017

Por Que Limitamos Nossas Capacidades?





Antes de mais nada, gostaria de agradecer ao querido Glauco Damasceno pelo convite para substituí-lo às terças-feiras aqui no Barba Feita enquanto ele precisar ficar afastado (desconfio que ele está fazendo uma viagem ao redor do mundo e não convidou ninguém). Espero que eu consiga manter a ótima qualidade dos textos que ele compartilha e que ninguém sinta muito essa mudança temporária.

Por falar em mudança, desde que saí do Rio e vim para Salvador, tenho pensado muito no quanto nós somos capazes de desacreditar de nossas capacidades. Principalmente quando tem alguém que possa fazer algo por nós, tendemos a nos acomodar. Até que chega o dia em que não dá para escapar.

Especialmente quando se nasce mulher, parece que nos impõem uma lista de atividades que nós, naturalmente, não conseguimos dar conta. Esse mês, inclusive, já vivenciamos aqueles anúncios ~ótimos~ sobre o Dia da Mulher, comemorado no último 08 de março, que só colocam as mulheres em um cenário de dona de casa. Isso vem muito das bases machistas que formam nossa sociedade, é claro, mas não vou entrar nesse mérito, pois isso é assunto para outro texto. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Levianos




Leviano: adj. que se comporta insensatamente sem reflexão; insensato. Que demonstra ou indica leviandade, falta de seriedade ou insensatez. sm. indivíduo que se comporta de modo irresponsável e insensato: os levianos tendem a ser inconsequentes.
Acredito que uma das vantagens da maturidade (que não tem nada a ver com idade, já que existe gente imatura de 41 anos, e pessoas de 21 que são um poço de sensatez e coerência) é a de conseguir se dar conta dos próprios erros e passar a evitá-los. Porque, para mim, os erros servem para isso, para nos ensinar. E quem não aprende com os próprios erros e continua a repetí-los está na vida a passeio, de maneira inconsequente e leviana.

Eu tô longe de ser perfeito. Erro pra caramba, mas tento corrigir, ajustar, aprender. E, um objetivo de vida é não ser leviano e irresponsável com o sentimento alheio. Porque sim, somos responsáveis pelos nossos atos e por tudo aquilo que acabamos recebendo das pessoas à nossa volta. 

domingo, 12 de março de 2017

Esdras





Nas horas vagas gostava de ir a biblioteca e ler, ler muito. Gostava dos clássicos, de Machado de Assis principalmente e não muito de José de Alencar, mas lia assim mesmo. Sempre sonhou em entrar numa boca faculdade. Aquele dia de folga não foi diferente dos demais. Depois da habitual ida à biblioteca, resolveu fazer um caminho diferente na volta. Quis dar um passeio. Observava os prédios do centro antigo. Muitos restaurados, outros caindo no esquecimento ou caindo literalmente. Era uma pena que as pessoas não se importassem com a história de sua cidade, afinal, era a história delas também. Sentiu uma profunda indignação ao ver aquilo e se perdeu nos pensamentos quando não avistou um garoto correndo em sua direção. O encontrão foi inevitável e foram os dois ao chão. O garoto gritava:

- Vamos cara! Levanta e corre!

sábado, 11 de março de 2017

Das Mãos


Era um homem bonito. Moreno claro, alto, cabelos curtos pretos, barba bem desenhada, mas a primeira coisa que me chamou a atenção nele foram as mãos; antes mesmo de olhar seu rosto e perceber um olhar distante e perdido no nada, foi nas mãos que reparei. E que mãos! Não consegui mais parar de olhá-las até que ele saísse do meu campo de visão.

Enquanto estivemos próximos, tentei reparar em todos os detalhes. Sua aparência era serena e me transmitia calma. Eu olhava seu rosto, seu porte físico e aquele olhar perdido que já falei, mas suas mãos roubavam minha atenção como um ímã atraindo metais. Elas eram grandes, bem cuidadas, de unhas curtas com uma fina lasca de cor branca condensada, que não são roídas, mas delicadamente aparadas. Pareciam tão macias, mãos de homem que nunca pegou no pesado, mas firmes, envolventes, de dedos longos, quase sem acessórios, apenas um anel grosso de prata, com desenhos que lembravam raízes entrelaçadas em relevo, no polegar esquerdo.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Ainda Aguenta Ouvir Falar de Carnaval? Eu Prometo Que Essa é a Última, Tá Bom?


O Carnaval terminou semana passada, mas a dança das cadeiras entre carnavalescos, casais de mestres-salas e porta-bandeiras, coreógrafos, intérpretes e diretores de carnaval é imensa... quase uma grande suruba momesca.

O badalado Paulo Barros, que foi campeão pela Portela este ano, no dia seguinte pediu o boné e foi para a Vila Isabel (que deve ressurgir das cinzas em 2018 com uma “injeção” financeira). Já Alex de Souza, que estava na escola do bairro de Noel Rosa, foi para ali pertinho: vai defender as cores do Salgueiro, que há 15 anos estava com Renato Lage e sua esposa, Márcia Lávia. Os dois vão fazer uma viagem para um pouco mais longe: o destino será a tricolor Grande Rio, de Caxias, que nunca foi campeã no grupo especial. Um desafio e tanto.

Já a premiadíssima Rosa Magalhães, que não estava tendo a valorização que merecia por parte dos jurados na São Clemente, alçou um voo bem alto: estará na tradicionalíssima Portela. No grupo de acesso, o jovem e talentoso Jorge Silveira, depois de garantir o segundo lugar para a Unidos do Viradouro deixou o lugar para outro talento: Edson Pereira, que fez um belo desfile na Unidos de Padre Miguel, que agora será comandada por outro jovem: João Vitor Araújo, que saiu da Rocinha.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Os Novinhos São Sensacionais!


Caso você tenha menos de vinte anos, vou explicar uma coisa. Não era comum, até algum tempo atrás (vamos colocar início dos anos 2000 para não ser tão antigo assim), você ir ao shopping e ver pessoas do mesmo sexo de mãos dadas. Ainda hoje, em certos locais, existe uma resistência com o afeto. Não quero e nem vou entrar em juízo de valores. A questão não é se o ato é certo ou errado. Um ato é um ato. Suas consequências é que são outra história. 

E a história que tenho para relatar para vocês é algo desse naipe. Um amigo comentou, através do seu perfil pessoal no Facebook, que saiu com um pretendente em um despretensioso passeio no shopping. Ele de um lado, pretendente do outro e o espaço entre os dois… no meio. Nada demais caso alguém visse de fora. Duas pessoas que se conhecem e estavam passeando. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Amor, Substantivo Plural


Amor é uma coisa que realmente mexe com a gente. Não existe tema mais explorado pela humanidade, seja em escrita, cinema, música ou mesmo em mesa de bar. Nunca o definimos. No máximo comparamos a um fogo que arde sem se ver ou ferida que dói e não se sente. Já chegaram a pedir para quem o inventou explicar, por favor. Fato é que o amor é o abstrato mais concreto de nossas vidas.

No domingo de Carnaval, aqui no Barba Feita, o nosso convidado Júlio Ferraz escreveu sobre a banalização do “eu te amo”. Realmente, há pencas de pessoas que não sabem sequer o que é o amor e confundem o mínimo de carinho com isso. Basta sentirem um pouco de sua carência correspondida e já acham que é amor. Poucos sabem, mas fui uma vez perseguido e ameaçado por uma pessoa assim: quando tinha meus 18, 19 anos, sofri com um psicopata que disse que me amava loucamente embora tenhamos ficado por cerca de... 30 minutos. Mas isso, graças a Eros, é exceção, e não regra.

Mas e quando ocorre o contrário?

E quando nós não sabemos a hora de dizer “eu te amo”?

terça-feira, 7 de março de 2017

O Carnaval de Henrique


Enquanto uns vivem para fevereiro, eu costumo valorizar bastante minha lista de filmes atrasados e o meu progressivo conhecimento de restaurantes delivery no Rio de Janeiro. É assim todo carnaval, eu sumo. 

Eu sei que é estranho, eu me sinto estranho também. Uma festança do lado de fora e eu trancado em casa. Não sei se é fobia social ou carnavalesca, mas não é a minha festa. 

Eu não planejava nada diferente esse ano: filmes, comida, um bom descanso, talvez adiantar uns projetos pessoais, talvez aproveitar a companhia do meu cachorro. De certo as opções não me desagradavam, mas confesso que o difícil é fazer isso tudo sem receber 50 notificações no celular a cada minuto, convidando para o bloco x ou grupos que discutem se o melhor é o bloco y. Eu até silencio o telefone, mas fico nervoso quando vejo o número ali no ícone chamando minha atenção. 

“Henrique, esse carnaval você vai se render. Escuta o que tô dizendo, você vai se amarrar!”. Marquinhos, meu melhor amigo desde os cinco anos, me fazia promessas que talvez não pudesse cumprir. Mas resolvi dar uma chance. Um bloco, perto de casa, liberdade de ir e vir a qualquer momento se o ambiente fosse tóxico demais para meu organismo virgem da folia. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Cheese Bacon


Era domingo de carnaval. Depois de uma série de blocos e muita folia pelo Rio de Janeiro desde a quinta-feita, ele começava a se cansar. Aproveitou o dia para chegar mais cedo em casa (porque sim, 22h de um domingo de carnaval no Rio de Janeiro é muito cedo), tomou um banho relaxante e estava jogado no sofá assistindo televisão quando percebeu que seu celular recebera algumas chamadas de vídeo enquanto estava no banheiro. Viu a origem das chamadas e, enquanto pensava no que poderia ter acontecido e preparava-se para retornar, recebeu uma nova chamada.

O outro, morador de Curitiba, passava o carnaval em Florianópolis com o seu grupo habitual de amigos e agregados. Haviam se "conhecido" no Ano Novo e, desde então, não se desgrudaram mais. A antipatia, que reinara à primeira vista, dera lugar a um carinho imenso de ambas as partes. E, mesmo que não estivessem juntos fisicamente, as afinidades eram muitas e faziam com que o desejo de um encontro breve se tornasse logo realidade.

Meio bêbado e com uma carinha linda, o curitibano nem esperou que ele desse boa noite para iniciar a conversa:

- Tô com fome. Quero um cheese bacon.

domingo, 5 de março de 2017

Leandro





Sentia-se preparado. 

As malas estavam prontas com suas roupas. Pensava se deveria ou não levar consigo as toalhas que a mãe havia bordado com suas iniciais. "Não. Já estou com muita coisa na bagagem!", pensou. Mas as toalhas eram tão lindas e, por certo, a mãe ia ficar muito chateada se ele não as levasse. "Tudo bem!". Levaria as toalhas e um peso a mais ou a menos não teria tanta importância afinal.

Levou as malas e seguiu para a cozinha. Pegou um pedaço de pão e passou manteiga, segurou uma xícara de café e deixou cair sobre ela um pouco de leite. Mexeu. O cheiro do café invadia a cozinha. Ele olhou em volta. Talvez fosse a última vez que a visse. Tentou segurar as lágrimas.

sábado, 4 de março de 2017

Ivete Sangalo: Um Ser Humano Fantástico


Existem duas vertentes pela qual se pode admirar um artista: gostando exclusivamente de sua arte e admirando-o apenas como pessoa. Quando as duas coisas convergem, temos um artista completo que amamos admirar. 

Parece meio louco gostar de um artista como pessoa, mas não curtir a sua arte; o contrário é mais comum, mas acontece. Como exemplo posso citar Amado Batista. Talvez, nunca vi ou li nenhuma entrevista dele, mas é um mero exemplo. Não aprecio suas músicas, o pouquíssimo que ouvi dele até hoje não me agradou em nada, no entanto ele pode ser alguém com ideias e conceitos interessantes sobre assuntos que me cativam.

Já os artistas que te fazem vibrar com seus trabalhos, mas por uma série de motivos torcemos o nariz para suas ideologias, comportamentos e/ou personalidades, é fácil citar aos montes. Para não me estender muito, citarei duas bem opostas. Anitta é uma cantora pop de hits dançantes irresistíveis, mas algo me diz que não é uma pessoa tão legal quanto parece. Regina Duarte é uma atriz que sempre admirei profundamente. Como não amar a eterna namoradinha do Brasil? Porém, seu posicionamento político me decepciona bastante, e de uns anos pra cá não consigo mais ser tão apaixonado quanto antes, mas ainda a reconheço como uma das grandes atrizes desse país.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaval e As Escolas de Samba: Uma Grande Ilusão


Para quem não sabe, além de escrever às sextas-feiras aqui no Barba Feita, também sou colunista do site Papo de Samba, especializado em Carnaval. E, lá, publico alguns textos sobre a folia. Obviamente, falar de Carnaval é quase a mesma coisa que discutir futebol e religião; até porque intrinsecamente os assuntos estão conectados. Muitas pessoas não concordam, como também não concordam com minha lista dos dez melhores filmes da minha vida ou dos discos que fazem parte da minha história. Listas são listas. Tento ser, na maioria das vezes, imparcial, mas de vez em quando até passa algo ali nas entrelinhas que deixam transparecer que a escola X faz parte do seu coração e a Y não.

Acompanho os preparativos dos desfiles das escolas de samba desde que tinha uns 20 anos. Acredito que devo ser um dos parcos roqueiros sambistas que existem por aí. Mas a paixão é desde molequinho, pois sempre morei próximo a algumas quadras como Vila Isabel, Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro, Mangueira e Tupy de Brás de Pina (uma escola que quase ninguém conhece, mas que sou fã). Porém, foi com a Beija-Flor que eu aprendi a gostar de carnaval, como expliquei aqui na coluna passada. E minha paixão pela Mocidade começou nos anos 1980 com o estilo do carnavalesco Fernando Pinto, que fez carnavais incríveis como “Ziriguidum 2001”, “Como era verde o meu Xingu” e o mais legal de todos, “Tupinicópolis”. Com a entrada de Renato Lage, me tornei ainda mais fã, já que ele conseguia aliar todo aquele modo tropicalista do Fernando Pinto com sua estética high tech-futurista. Anos depois eu comecei a desenvolver um lindo trabalho social lá na antiga quadra da Vila Vintém. Portanto, sempre fui Mocidade e meu coração sempre foi Beija-Flor. E para os que também desconhecem, cada escola tem uma madrinha. E a madrinha da Mocidade é a Beija-Flor. Então está tudo em casa.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Já Chegamos em Março, e Aí?





Pois é, chegamos ao terceiro mês do ano. Ao mesmo tempo que tenho a sensação que o ano já está voando, parece que cada dia está caminhando um pouco lento. Como um bom libriano que sou, estou em uma contradição interna. Mas independente de qualquer coisa, é fato consumado que março chegou. 

Até agora, metade dos meus planos para 2017 já foram ajustados para minha atual realidade. Falarei sobre ela futuramente em um texto bem especial. Mas o que importa aqui, neste texto, é a gente refletir sobre como as coisas estão indo até o momento. Fevereiro foi aquele mês que passou batido. Quando a gente percebeu, ele já foi embora. Carnaval até tem sua parcela de culpa, mas não foi só isso. O que são 28 dias? Eles passam voando. É basicamente como se fosse um ônibus que você dá um sinal e ele não para no ponto. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

PH na Folia - A Coluna da Quarta de Cinzas





Chegamos à Quarta-Feira de Cinzas. Aquela que tantos odeiam e outros esperam ansiosos para saber se a sua escola de samba foi campeã. Eu já vi gente xingando o outro de “Quarta-Feira de Cinzas”, como se fosse uma ofensa. Mas é uma realidade e como diz o bordão, “todo carnaval tem seu fim”. Inclusive o do PH que, como disse aqui semana passada, não é tão fã da Folia de Momo.

Como foram tantas coisas desde sexta-feira, resolvi fazer uma coluna à moda antiga, dividida em notas. Vamos a elas: