quarta-feira, 8 de março de 2017

Amor, Substantivo Plural


Amor é uma coisa que realmente mexe com a gente. Não existe tema mais explorado pela humanidade, seja em escrita, cinema, música ou mesmo em mesa de bar. Nunca o definimos. No máximo comparamos a um fogo que arde sem se ver ou ferida que dói e não se sente. Já chegaram a pedir para quem o inventou explicar, por favor. Fato é que o amor é o abstrato mais concreto de nossas vidas.

No domingo de Carnaval, aqui no Barba Feita, o nosso convidado Júlio Ferraz escreveu sobre a banalização do “eu te amo”. Realmente, há pencas de pessoas que não sabem sequer o que é o amor e confundem o mínimo de carinho com isso. Basta sentirem um pouco de sua carência correspondida e já acham que é amor. Poucos sabem, mas fui uma vez perseguido e ameaçado por uma pessoa assim: quando tinha meus 18, 19 anos, sofri com um psicopata que disse que me amava loucamente embora tenhamos ficado por cerca de... 30 minutos. Mas isso, graças a Eros, é exceção, e não regra.

Mas e quando ocorre o contrário?

E quando nós não sabemos a hora de dizer “eu te amo”?

Sou considerado uma pessoa pouco calorosa. Ouvi muito isso ao longo da minha vida. Não me emociono fácil, raramente choro por algo. Costumo manter a cabeça e o coração frios em situações em que muitos se descontrolariam. Isso tem as suas vantagens e, obviamente, as suas desvantagens. Acredito que eu valorizo muito mais as minhas emoções genuínas do que outros, que por qualquer comercial dos Correios chora. Porém, em compensação, tem tantas situações da minha vida em que me cobro de ter sido mais intenso, mais emotivo.

O que poucos sabem é que eu era uma criança extremamente emotiva. Chorava por qualquer coisa. E cresci ouvindo que deveria deixar de ser tão chorão. Porque homem não chora, obviamente. Ou porque não deveria fazer um drama tão grande porque tive que dar a minha cachorra pra outra pessoa, ou porque perdi alguma coisa que eu realmente gostava, ou porque me despedi da minha mãe em uma hora em que ainda queria estar com ela. Sim, eu era muito emotivo. Endureci, empederni o coração. A isso, junta-se uma separação dos pais quando tinha 13 anos de idade, começando a, enfim, ter a noção de sexualidade e afetividade aflorada e definida. Voilà: tive muita dificuldade de dizer o que sentia por muito tempo. Inclusive “eu te amo”.

Pode ter certeza: nem mesmo meus pais, minha irmã e meu marido o ouvem com tanta frequência. Lógico que tem momentos da nossa vida e que a gente fala mais, principalmente quando começa a ter certeza do sentimento em um relacionamento. Considero que externo isso menos do que deveria. E não acho que estou sozinho nessa.

Quantas vezes não sentimos medo de admitir o que nutrimos por algo ou alguém? Envergonhamo-nos do que temos de mais genuíno na gente. Independentemente de ser bom ou ruim: nós somos o que sentimos. Essa é a nossa essência, essa é a nossa verdade. E o amor não tem racionalidade ou explicação, muito menos definição. Ou mesmo barreiras. 

Amo minha família, seja a genética, seja a que formo com o meu companheiro. Amo meus cachorros e meus gatos. Amo meu filho que ainda não veio. Amo meus amigos também; afinal, amizade sincera é um tipo de amor. Quantas vezes a gente diz “eu te amo” para um amigo? Tenho buscado exercitar isso recentemente. E tem sido tão bom! 

Tive a oportunidade de ver meus dois sobrinhos nascerem e descobrir que é possível ser apresentado para um amor completamente novo, um nível diferente daquele que cultiva por outras pessoas. O amor é um sentimento tão bom que não impõe limites, formas, intensidade ou mesmo semelhança. Talvez seja o único substantivo que mesmo no singular, é plural.

Pode parecer piegas, mas realmente nunca sabemos se teremos a oportunidade de dizer para alguém que o amamos. Por isso, amem e digam que amam. Tirem seus amores e seus “eu te amo” do armário. Usem com sabedoria, porém sem moderação. 

Um mundo com mais amor é tudo o que precisamos.


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