sábado, 18 de março de 2017

Aquela Frase Dita Pela Mocinha de Um Filme






Se você assistiu ao drama romântico Um Dia (One Day, 2011), baseado no romance de mesmo nome de David Nicholls e protagonizado por Anne Hathaway, talvez se lembre de uma frase contundente, dita pela mocinha Emma (Anne) ao seu amor/amigo Dexter (Jim Sturgess).



Mas o que significa essa frase, afinal? Como pode não se gostar de quem a gente ama?

No filme, que mostra os muitos encontros e reencontros do casal Emma e Dexter, ao longo de 20 anos, após se conhecerem na faculdade um dia antes da formatura e se afastarem no dia seguinte, vivendo vidas distintas; eles sabem que despertaram um no outro um sentimento especial, mas como alguns fatores os impedem de ficar juntos, acompanhamos os desdobramentos dessa história, nos encontros e reencontros do casal sempre em um dia específico do ano. Os dois se amam, mas o amor que não é consumado como homem/mulher fica no campo de uma grande e profunda amizade. Mais do que romanticamente, os dois se amam como amigos, relação que podem viver à distância sem grandes percalços. Mas o tempo passa, Emma e Dex amadurecem, inevitavelmente mudam com o passar dos anos, e é nesse ponto que Dex adota comportamentos e atitudes que decepcionam Emma. Então, aquele amor cultivado por tanto tempo com deliciosos encontros, dá lugar a uma frustração no coração de Emma. Ela não reconhece mais seu amigo, o homem por quem se apaixonou e imaginou um dia, que poderia ser seu parceiro da vida. Envolta em tristeza e decepção, Emma solta as palavras mais marcantes do filme:
Eu te amo, mas eu não gosto mais de você!
Após ouvir tal sentença, fiquei matutando o que ela queria dizer, e quando finalmente entendi, EUREKA! É isso que filósofos, poetas e românticos em geral querem dizer quando afirmam que o amor não acaba. Se for amor de verdade não acaba. Acaba a paixão, acaba o tesão, deixa-se até de gostar da outra pessoa, pode-se até sentir raiva, mas o amor permanece.

Deixa-se de gostar da outra pessoa, de estar em sua companhia e de trocar com ela confidências, experiências, tristezas e alegrias porque a personalidade que te fez admirá-la e encantar-se ficou distorcida ao longo do tempo. Aquele alguém que você gostava tanto a ponto de virar amor passou a adotar certas atitudes e posturas que a torna irreconhecível pra você. A essência dela continua lá, você sabe que no fundo ela ainda é a mesma pessoa que você aprendeu a amar, mas certas ações adotadas ou a falta delas acabou embaçando a essência que saltava aos olhos e que tanto você admirava. Parece que não é mais a mesma pessoa, mas é a mesma pessoa. Então sentimos que amaremos ela pra sempre, talvez um dia esperando que ela deixe aflorar novamente o alguém que você gostava tanto, mas até lá deixou-se de gostar de quem se ama.    

Essa é uma triste constatação, sentir que ama alguém mas não ter vontade de estar perto. Pode acontecer em qualquer tipo de relação, marido e mulher, namorados, ex-namorados, pais e filhos, amigos... Ninguém está livre de se decepcionar ou frustrar-se com alguém que ama a ponto de deixar de gostar desse alguém, e precisar afastar-se para repensar as relações e tentar pôr as coisas no lugar.

Um exemplo simples é quando em determinado momento da sua vida, aquelas fases de merda que sempre passamos, você percebe que a fonte de onde esperava que mais viesse apoio, seca. Depois de alguns anos de amizade e convivência intensa, você se pergunta como nunca percebeu isso antes. Aí pondera que o outro em quem depositava tanta fé, provavelmente não faça por mal. Mas como pode não perceber sua angústia, tristeza e insatisfação? Ou pior, perceber e não se sensibilizar com a fase sinistra pela qual você passa? Frases do tipo: calma amigo, vai passar!, não são suficientes para te consolar.

Daquela pessoa, você esperava mais. Um engajamento maior com o seu sofrimento, uma preocupação real. Você precisava sentir uma empatia verdadeira do amigo que tanto gosta. Mas em sua vida perfeita, ele é incapaz de colocar-se em seu lugar e fazer algo que de fato demonstre que se importa e se aflige com suas questões. As indagações sobre seu estado emocional tornam-se superficiais, revelando alguém egocêntrico e muito mais preocupado consigo mesmo, que antes você não percebia ou não queria enxergar. É do amigo que você mais ama que mais precisa em horas de fraqueza. Mesmo que venha apoio de outros que você não esperava tanto, era daquele amigo especial que você esperava algumas atitudes que não vieram. É quando percebe que pode ser que só ele seja especial pra você, e procura amenizar o fato de que ele não se importe tanto com suas questões, porque o ama, mas percebe que já não gosta mais dele tanto quanto antes.

E você sabe que sua fase de merda vai passar, e que o amigo que você ama vai voltar a ser aquela pessoa incrível, desde que não precise se envolver a fundo em seus problemas. E você não vai romper essa amizade porque o ama, mas também não vai conseguir esquecer a frieza e a indiferença com que foi tratado, quando mais precisou de seu apoio, e ficará torcendo e esperando que algo aconteça, alguma coisa que o redima, para que volte a gostar do amigo outrora tão querido.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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