sexta-feira, 17 de março de 2017

As Muitas Vidas de Vovó





Anteontem, minha vó Lourdes fez 90 aninhos. E tal qual uma Mrs. Dalloway, do famoso livro de Virginia Woolf, me preparei para produzir uma festa à noite. Foi aí que lembrei de seu carrancudo pedido para que nunca a surpreendêssemos com surpresas ou parabéns; afinal ela “nunca teve um aniversário” na vida. Obviamente, aquela afirmação era um charminho peculiar, pois repetidas vezes, a família se reuniu para comemorar a data. Mas fiquei matutando e tentando entender o que significava para ela um aniversário.

Minha avó praticamente não teve infância. Desde muito pequena trabalhava em casa de família e, aos 14 anos, já estava casada com meu avô, um militar da Marinha, mulherengo como ele só. Também não teve festa de debutante: aos 15 anos já tinha uma filha para criar. Ao todo, teve cinco filhas que lhe deram 10 netos, 7 bisnetos e muitas histórias para contar. Em muitos momentos de minha vida, foi ela que tomou a frente de minha educação e criação. Por isso, todos os dias, quando ela vai até minha cama me acordar para eu trabalhar e faz questão de preparar minha torrada quentinha, agradeço por ter a oportunidade de tê-la ao meu lado.

E, parodiando Raul Seixas, apesar de não ter “nascido há dez mil anos atrás”, se olharmos para o seu passado, noventa anos é quase uma epopéia. Minha avó nasceu no mesmo ano em que o filme Metrópolis, de Fritz Lang, foi lançado!  Sobreviveu à epidemia de gripe e tuberculose, viu o nazismo de Hitler crescer pelo mundo e o terrível Holocausto nos campos de concentração para os judeus. Viu a prisão de Luís Carlos Prestes e sua esposa Olga Benário; viu o prefeito-interventor do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, legalizar as escolas de samba e oficializar os desfiles de rua. Viu o primeiro desfile oficial das agremiações, com a Portela sendo campeã. Viu a quebra da Bolsa de Valores de Nova York e o acidente com o dirigível Hindenburg.

Viu Getúlio Vargas desferir um golpe de estado fundando o Estado Novo; a extinção de todos os partidos políticos e a queimada das bandeiras estaduais. Vivenciou o movimento integralista com o ataque ao Palácio do Catete e também o suicídio do presidente no próprio local. Viu o drama da Segunda Guerra Mundial, o ataque à Normandia no Dia D; o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki e a Guerra do Vietnã. Viu o Muro de Berlim ser construído e ser destruído.  Chorou com a tragédia do Grande Circo em Niterói e sofreu com a ditadura.

Soube do incidente em Roswell, mas nunca acreditou em extraterrestres, mas sempre achou que os gols e dribles de Pelé, Garrincha e Tostão eram coisas de outro mundo. Viu o Brasil perder a Copa para o Uruguai em pleno Maracanã. Ficou fascinada quando viu a TV ser fundada e Brasília ser construída. Chocou-se com o assassinato de Kennedy, escandalizou-se com o rock rebolativo dos Stones, as franjas dos Beatles, a Bossa Nova, a Jovem Guarda, a Tropicália e duvidou que um dia o homem tenha pisado na lua.

Muitas vezes, quando chego exausto do trabalho, lá está ela, lavando roupa, arrumando casa, passando roupa ou arrumando as compras... Os afazeres que me deixam mais cansado só de observar. Invejo sua força e fico feliz quando, mesmo com nove décadas de vida, a vejo fazendo tantos planos e tendo um senso crítico tão apurado que podem atirar para o lado da política, do futebol, das novelas, da cultura, da situação econômica do país ou até mesmo da vizinha fofoqueira ao lado.

Observadora ao extremo, ela é daquelas pessoas que todo mundo acha que está dando uma enrolada. Mal sabem que ela, que não é boba nem um pouco, só falta fazer o “ráááá´... pegadinha do malandro!” pra quem pretende dar uma volta nela. Perspicácia é seu sobrenome. Experiência é seu nome.

A noite chega e observo seu olhar. Ela sorri e batendo as mãos, ratifica, como que quisesse fazer uma comprovação notória: “viu?  Eu cheguei aos noventaaaaa!”. Tal qual a festa de Clarissa em Mrs. Dalloway, tudo é um sucesso. Personagens parecem chegar a todo o tempo em sua cabeça. Noventa anos, passado e presente. E o futuro? Alguém sugere cantar os parabéns e ela nega. 

Aí entendo tudo. A tradição do “apagar de velas” nunca fez parte de sua vida. Os gregos a acendiam sob o bolo redondo simbolizando a lua e ofereciam à deusa Ártemis. Ao soprar, a fumaça das velas levava as preces ao céu, para garantir sua proteção na nova idade. 

Pois então... Ela chegou até aqui sem um único pedido. Vivenciou tantos e tantos momentos. Sorriu, sofreu, chorou, gargalhou de novo. E, mesmo com os passos mais cansados, continua sorrindo, sofrendo, chorando e gargalhando de novo e de novo. Assim como eu. Assim como você.

Então, que assim seja.

Leia Também:
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


6 comentários:

Cleber Eldridge disse...

Um senhora vida sua avó teve, mais um ano de vida é sempre motivo para comemoração, gostei da referência ao filme As Horas.

http://desde-1991.blogspot.com.br/

Marcia Pereira disse...

Parabéns, vó! Exemplo de Vitalidade! Saúde sempre!

Marcia Marino disse...

Nossa avó é a minha inspiração! Parabéns, Vó Lourdes!!

Ana Paula Rocha disse...

Emocionante, me fez chorar, é muito bonito seu carinho e reconhecimento, parabéns!!!

kohen disse...

Parabéns! Que essa vitalidade se reproduza por muitos anos! Me fez lembrar da minha bisavó que faria 100 anos esse mês, mas descansou ano passado! Admiro muito essas mulheres que em meio a dificuldades financeiras, falta de conhecimento, preconceitos e tantos conflitos vividos na sociedade, tiveram punhos de ferro para educar seus filhos, netos, administrar um lar, dando o melhor com os recursos que possuíam!

Carlos Cunha disse...

Que texto bárbaro!! Uma reflexão sobre a vida e fatos da humanidade. Isso tudo fragmentado dentro de 9 décadas. Tanta vida. Muitas lutas, mas também alegrias infinitas. Parabéns vó. Depois de tantas batalhas, olhar para trás, sorrir e ter a certeza de que tudo valeu a pena. Feliz aniversário!!! Beijos e beijos...