quarta-feira, 22 de março de 2017

Bandido Também É Gente




Reconhecer que já tive atitudes erradas no passado e que, com elas, poderia ter me tornado alguém pior foi extremamente importante na última semana. Tive vários retornos, de pessoas conhecidas e de outras que nunca vi na vida, sobre como foi conhecer esse lado que, normalmente, a gente busca esconder e esquece que faz parte da nossa trajetória. Houve quem chorasse, houve quem me agradecesse, houve quem enaltecesse a minha mãe e seu papel de real educadora. 

Mas, e se eu não tivesse passado por isso? E se eu não tivesse alguém para me dar ensinamentos valiosos? Ou mesmo tivesse a disposição ou, mais ainda, a oportunidade de mudar? 

Cada vez mais vejo pessoas desmerecendo a qualidade humana de outros, notadamente pessoas que se envolvem em crimes. Lamento informar a elas: sim, bandido também é gente. Bandido não tem cara, não tem cor. Quantos deles não tiveram uma estrutura familiar ou oportunidades de vida como eu tive para não seguir com atitudes erradas ou mesmo criminosas?

Sim, existe aí uma questão de índole. E o debate a respeito da índole é algo relativamente subjetivo. Do meu ponto de vista, todos nós nascemos com uma índole (moldável ou não) ao longo da vida. Mas sem dúvidas um sujeito de má índole, ainda que não tenha atitudes benevolentes, quando tem mais oportunidades sociais tem menos chance de cometer um crime do que um sujeito de boa índole, sem oportunidade alguma. 

Quanta leviandade imaginar que locais pobres, como favelas ou comunidades marginalizadas, seriam naturais geradores de males sociais, tais como colônias de fungos nocivos ou um imenso ninho de baratas. É uma falta de empatia e alteridade que, essa sim, pode nos tornar menos humanos.

Independentemente de índole, vamos nos colocar no lugar do coleguinha que nasce dentro de um contexto sem perspectiva social alguma? Aquele que dorme com ratos passando pelo colchão e acorda ao som de tiros? Que abre a sua janela e enxerga um rio de esgoto passar, às vezes até com cadáveres dentro? Que vê parte da polícia e o restante da sociedade acreditando que não passam de vermes? Essas crianças olham pela televisão um mundo de consumo que nunca chegará até eles pela tal badalada meritocracia. Crescem vendo traficantes, assaltantes e outros criminosos tendo uma vida de ostentação de dinheiro, armas, carros, motos e mulheres. Aquilo que provavelmente eles levariam uma vida inteira para comprar, seguindo a lógica da meritocracia, se alcança ainda na infância ou adolescência (muitas das vezes abreviada) vendendo um pouco de droga ou subtraindo de alguém com uma pistola (facilmente acessível) em punho. Talvez até matando alguém. Mesmo que viver dentro do crime reduza uma expectativa de vida de 70 para 20 e poucos anos. Quais ambições esses garotos e garotas têm se não têm perspectivas?

Certamente você pode estar pensando: mas eu nunca mataria alguém, não importa as circunstâncias. Será? Sim, estou nos comparando ao assassino, ao sequestrador do ônibus, ao torturador das facções criminosas. Somos todos humanos e nascemos sem nenhum tipo de impacto social (apenas com a supracitada índole – o que, definitivamente, não é hereditário). Muitos de nós nunca vivemos ou viveremos em situações semelhantes a essas. Não sabemos como lidaríamos. 

É muito fácil para qualquer um dizer que não faria. Alguns dos que bradam e batem no peito nesse sentido são os mesmos que ao encontrar uma carteira cheia de dinheiro não a devolvem ao dono (ou devolvem depois de pegar o dinheiro e dizer que encontrou vazia); ou que fraquejam no sexo quando há a oferta de se fazer sem camisinha quando já se está no meio; ou mesmo que traem o cônjuge de forma deliberada; ou que não conseguem deixar de beber aquela gelada, mesmo sabendo que tem que dirigir depois (basta olhar o Twitter da Lei Seca ou o Waze e tá tudo bem). 

Só podemos dizer se faríamos ou não vivenciando aquilo. 

Meritocracia só existe em condições iguais. E o nosso país, não sei se é sabido por todos, começou através de desigualdades, 517 anos atrás. Brancos invadiram a terra que era de índios, extraditaram degredados para cá, tentaram escravizar os índios (e nos fizeram crescer acreditando que eles eram preguiçosos, porque não queriam trabalhar obrigados), trouxeram negros em navios de condições subumanas e os mantiveram aqui em senzalas tão insalubres quanto. Em 1888, entregaram uma carta de alforria para um povo extremamente numeroso, mas já totalmente marginalizado – sem garantias de emprego, de terra, de inserção social. Quase 130 anos depois, ainda vemos pouquíssimas evoluções nesse sentido – e muitas das vezes, ainda culpam os excluídos em vez de cobrar os excludentes.

Curiosamente, ontem foi o Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial. Embora o conceito de “raça” também seja polêmico e, para mim, já ultrapassado, falar no assunto é fundamental. Porque praticamente toda a prevalência da discriminação étnica (ou racial) no Brasil e no mundo tem cunho social. Segregamos no passado pela cor e, agora, segregamos pelas diferenças sociais resultantes de escolhas da humanidade feitas alguns séculos atrás - justamente, vejam, pela cor! Um círculo vicioso que só pode ter fim com mais compreensão e oportunidades.

Lamento muito que não será a minha geração a ver essa mudança. Quando eu era pequeno, eu pedia, nas minhas orações antes de dormir, que papai e mamãe não morressem, que encontrassem a cura da Aids e do câncer e que tivéssemos a paz mundial. Àquela época, tinha medo da Guerra do Golfo (imagina se um míssil se extraviasse de rota e explodisse no meu prédio). Mas não sabia que, a poucos metros dali, crianças como eu morriam em outras guerras, tão ou mais cruéis do que as que se davam ou ainda se dão no Oriente Médio. Já há algum tempo, caí na realidade de que morrerei sem ter minhas preces atendidas totalmente. O que não quer dizer que devo deixar de desejá-las e lutar por elas.

Precisamos, nós, sermos os primeiros a cessar fogo e hastearmos nossas bandeiras brancas. Mesmo que nelas respinguem sangue. Mesmo que seja o nosso sangue. A mudança vem de dentro, como destaquei semana passada. Porém, tem que ser constante e coletiva; mesmo que não seja por nós mesmos, mas pelo próximo. Caso contrário, estaremos condenando as próximas gerações a perpetuarem essa desumanidade.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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