sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaval e As Escolas de Samba: Uma Grande Ilusão


Para quem não sabe, além de escrever às sextas-feiras aqui no Barba Feita, também sou colunista do site Papo de Samba, especializado em Carnaval. E, lá, publico alguns textos sobre a folia. Obviamente, falar de Carnaval é quase a mesma coisa que discutir futebol e religião; até porque intrinsecamente os assuntos estão conectados. Muitas pessoas não concordam, como também não concordam com minha lista dos dez melhores filmes da minha vida ou dos discos que fazem parte da minha história. Listas são listas. Tento ser, na maioria das vezes, imparcial, mas de vez em quando até passa algo ali nas entrelinhas que deixam transparecer que a escola X faz parte do seu coração e a Y não.

Acompanho os preparativos dos desfiles das escolas de samba desde que tinha uns 20 anos. Acredito que devo ser um dos parcos roqueiros sambistas que existem por aí. Mas a paixão é desde molequinho, pois sempre morei próximo a algumas quadras como Vila Isabel, Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro, Mangueira e Tupy de Brás de Pina (uma escola que quase ninguém conhece, mas que sou fã). Porém, foi com a Beija-Flor que eu aprendi a gostar de carnaval, como expliquei aqui na coluna passada. E minha paixão pela Mocidade começou nos anos 1980 com o estilo do carnavalesco Fernando Pinto, que fez carnavais incríveis como “Ziriguidum 2001”, “Como era verde o meu Xingu” e o mais legal de todos, “Tupinicópolis”. Com a entrada de Renato Lage, me tornei ainda mais fã, já que ele conseguia aliar todo aquele modo tropicalista do Fernando Pinto com sua estética high tech-futurista. Anos depois eu comecei a desenvolver um lindo trabalho social lá na antiga quadra da Vila Vintém. Portanto, sempre fui Mocidade e meu coração sempre foi Beija-Flor. E para os que também desconhecem, cada escola tem uma madrinha. E a madrinha da Mocidade é a Beija-Flor. Então está tudo em casa.

Nunca tive implicância com nenhuma escola até porque torço sempre para a que melhor se apresentou. Sei muito bem quando as minhas escolas do coração não foram bem na avenida. Ano passado, por exemplo, o campeonato da Mangueira foi inquestionável. Leandro Vieira fez um carnaval incrível na verde e rosa. 

Sobre a Tijuca, especificamente, adorei vários desfiles que ela já apresentou, como na época do Chico Spinoza e Milton Cunha, mas que nunca saíram das últimas posições. Somente com a entrada de Paulo Barros em 2004, a escola teve uma outra cara... quem pode esquecer aquele carnaval maravilhoso onde tinha aquele carro alegórico com figuras humanas representando o DNA? Ou o do ano seguinte com aquela sensacionaaaaal alegoria do purgatório (muito mais interessante do que a do Salgueiro de 2017) ou da comissão de frente que caíam as cabeças em 2011 (e todos esses desfiles foram vice-campeonatos) e o inquestionável campeonato de 2010 com “É segredo!”... maravilhosos!!!!! Mas, ultimamente a escola vem fazendo um carnaval “mais do mesmo”. Eu mesmo já disse publicamente que achei chato e não-merecido dois campeonatos da escola com Paulo Barros: o de 2012 com o enredo sobre Luiz Gonzaga e o de 2014, onde não entendi se era sobre o Ayrton Senna ou sobre a Corrida Maluca. Então, só para esclarecer: nunca torci para ela cair. 

Mas, particularmente, sou totalmente contra essa mudança de regras aos 45 do segundo tempo. Na tarde de Quarta-feira de Cinzas, durante a reunião protocolar da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) foi colocado em votação (solicitado pelo presidente Fernando Horta, da Unidos da Tijuca) a permanência das 12 agremiações devido aos acidentes que aconteceram na avenida. A única escola que votou contra foi a Mocidade por entender que regras são regras e devem ser cumpridas. Ou seja, uma “virada de mesa” que expõe a credibilidade da Liga das Escolas de Samba e do Carnaval carioca. Tudo ficou parecendo que foi decidido por um clubinho secreto que se reuniu a portas fechadas para burlar o regulamento. Sorry, mas se o pedido fosse solicitado por escolas que tomam “canetadas” do júri, isso não aconteceria. É óbvio que existe um viés político: a Tijuca, hoje em dia, assim como Mangueira, Salgueiro, Portela e Bija-Flor são agremiações poderosíssimas que dão lucratividade o ano inteiro. São empresas! Mas ficou claro que "pau que bate em Chico não é o mesmo que bate em Francisco". 

O exemplo de que isso já tinha acontecido em 2011 por causa de um incêndio na Cidade do Samba, onde Portela, Ilha e Grande Rio não foram julgadas devido à destruição das fantasias nada tem a ver com o que ocorreu desta vez, onde o acidente foi na pista. Óbvio que ninguém quer passar por isso, mas pode acontecer. Em 1986 a Beija-Flor perdeu o carnaval quando um dilúvio bíblico caiu sobre a escola, e a escola de Nilópolis foi muito prejudicada no quesito fantasias. A Viradouro, em 1992 também foi prejudicada quando o seu mais belo carro pegou fogo próximo à dispersão. A própria Tijuca já teve problemas no passado: em 2007, no desfile das campeãs, parte do abre alas pegou fogo e em 2003 a atriz Neusa Borges caiu do alto de um carro, sofreu fratura na bacia e precisou passar por uma delicada cirurgia recebendo mais de 20 pinos. A atriz ainda processou a escola, que foi condenada a pagar uma indenização.

O que se viu essa semana, após a leitura das notas, foi que os jurados ainda tem medo de dar notas baixas e há uma proteção clara para algumas agremiações. Ou então, outros que ainda são mantidos e tiram pontos pelos mesmíssimos motivos sem sentido algum.

Alguns pontos precisam ser revistos, como o incrível número de pessoas que circulam livremente pela pista e principalmente na concentração. Aquela montoeira de gente só atrapalha as manobras dos carros alegóricos, cujos motoristas não tem a menor visão da pista e ainda ficam confusos com a quantidade absurda de diretores lhes dando ordens, histéricos. Outra coisa importante e que entra ano e sai ano e não se resolve é a criação de alguma estrutura acima do valão que corta a Presidente Vargas bem na entrada da Sapucaí para facilitar as manobras dos carros. Isso não se resolve? Não existe um engenheiro para tentar achar uma solução? E mais uma dúvida: por causa da grandiosidade do evento, há uma pressa para finalizar as alegorias que muitas vezes, utilizam chassis reutilizados. Cansei de ver estruturas enferrujadas apodrecendo nos barracões e que meses antes do Carnaval receberem um banho de soldas para abrigar a nova montagem. São realizadas fiscalizações e vistorias nestas estruturas? 

É hora de sentar e rever isso tudo, pois pode comprometer toda a festa daqui em diante. Não podemos deixar o samba e toda a história cultural das agremiações se mancharem. Solidariedade às vítimas e as escolas.

Com o resultado oficial, com Portela em primeiro e Império Serrano subindo do acesso, o que vimos foi um retorno à tradição. Mas, como já disse e repito, a campeã moral do carnaval 2017 é sim, a Mocidade, que não desfilava entre as campeãs há 14 anos e que nos últimos anos ficava torcendo para não cair para o acesso. Estar entre as grandes, ainda mais na frente da Mangueira, Beija-Flor e Salgueiro, é uma vitória para a verde e branco. E a imagem do pequeno Alladin “voando” pela Sapucaí, sem dúvida foi a imagem dos desfiles de 2017. Era uma ilusão de ótica, sim... mas o que é o Carnaval senão uma grande ilusão?



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