sexta-feira, 24 de março de 2017

Confessionário




Eu já quis matar alguém.  

Pode parecer muito estranho estar revelando isso aqui, em um ambiente onde a grande maioria das pessoas me acha tão bacana.  “Ele é um rapaz muito educado”, “é um amor de pessoa”, “queria ter sua paciência”, “ele é tãããão tranquilo...”

Quem foi que começou isso tudo?  Não faço a mínima ideia.  Acredito que essa imagem de rapaz bonzinho tenha vindo lá de meus primórdios, desde que eu era uma criança.  Naquelas fotos em preto-e-branco do colégio primário sempre estava parecendo um anjinho de candura, mas Deus é que sabe que eu sempre estava mesmo era cuspindo fogo, puto da vida em ter que obrigatoriamente manter uma pose que eu não estava com a menor vontade de fazer.

Já fui a ovelha negra da família.  Mentia descaradamente e colocava a culpa nos outros; matava aqueles pintinhos coloridos de supermercado que ganhávamos de brinde na compra de uma dúzia de ovos somente para fazer autópsia; caçava girinos e os criava em vidros de maionese no banheiro de empregada até que eles virassem sapos para assustar minha mãe; passava trote para a casa da vizinha; fingi ter sido sequestrado em um 1º de abril qualquer; quase incendiei a casa querendo fazer magia negra com pólvora no tapete da sala; vivia dobrando as pálpebras dos olhos só para fazer minha prima chorar de medo.  Adorava fazer bullying, quando essa palavra ainda nem existia.  Era bem cruel como qualquer outra criança.  Acredito que tenha sido uma forma encontrada para me vingar dos anos em que fui perseguido e zoado nas detestáveis aulas de educação física, onde precisava tirar os óculos e consequentemente não enxergava o adversário e a bola que sempre me acertava a cara.

Já repeti de ano só de sacanagem.  Já fui suspenso várias vezes.  Em uma das últimas, quis provar que as meninas não tomavam banho e incitei os meninos da turma a fotografá-las depois das aulas de ginástica.  O flash disparou, uma delas fez escândalo e nos dedurou para a direção que, obviamente, nos deu o mais severo castigo da época que era ficar em casa por uma semana e somente retornar acompanhado de um dos pais.  Nunca deixei de ir para o colégio por esta causa.  Não assistia às aulas, mas ficava perambulando pelo Méier, entrando na Mesbla para ouvir discos na seção da discoteca e me empanturrava de Lanche Carioca do McDonald´s ou o sonho de creme das Sendas até chegar a hora de voltar para casa.  E, na semana seguinte, sem ainda contar a história da suspensão com medo de uma surra, convenci somente com minha lábia uma mulher que abordei na rua a ir até o colégio fazer de conta que era minha mãe.  A pobre coitada ficou quase 40 minutos ouvindo a mesma ladainha da orientadora educacional e ainda me deu uma baita bronca.  Escolhi à dedo e a dona ainda era boa atriz.   

Já arremessei um ovo no cabelo de um cantor brega na discoteca das Sendas da Penha; fugi de casa para ver o Queen na primeira edição do Rock in Rio; já tasquei um sanduíche de pão Plus Vita com queijo prato na fuça do Axl só para acabar com um show do Guns & Roses;  já fiz xixi na piscina várias vezes quando me dá vontade pois tenho preguiça de sair da água para procurar um banheiro (calma, gente... não façam essa cara de nojinho pois isso é raríssimo acontecer, até porque normalmente nunca tenho vontade de fazer xixi) e já quebrei um dente de um coleguinha do colégio com uma garrafa de Coca-Cola somente porque ele não quis dividir um gole do refrigerante comigo.
 
Hoje sou mais educadinho, um amorzinho, tranquilo e paciente, mas já fui o capeta.  Ainda em grande parte do tempo sou chato e implicante, tenho péssimo humor (principalmente pela manhã ou quando estou com sono), odeio ser contrariado, sou intolerante, controlador, inquieto, estressado e tenho um extenso vocabulário de palavrões para cada letra do alfabeto.

Crio confusão em bancos, em fast-foods, em filas de lojas de departamentos; desligo na cara de atendentes de telemarketing e da mulher que quer que eu volte a assinar a Veja; brigo pelos dez centavos do troco e pelo trajeto do Waze do motorista do Uber.

Sou metade homem e metade cavalo.  Sagitariano nato.  Aventureiro, mas ranzinza.

Disse lá no início do texto que já quis matar alguém.  Sim, era um coleguinha do jardim da infância que eu odiava.  Eu tinha cinco anos, mas nunca esqueci o nome dele: Vladimir.  Tinha uns dentes de vampiro e uma cara de William Waack mirim.  E o mais interessante é desconfiar que talvez você nem tenha se importado ou atentado a isso.  Aposto que você está muito mais preocupado em imaginar que não quer estar ao meu lado na mesma piscina quando eu supostamente resolver fazer xixi.

As pessoas são realmente muito engraçadas. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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