domingo, 12 de março de 2017

Esdras





Nas horas vagas gostava de ir a biblioteca e ler, ler muito. Gostava dos clássicos, de Machado de Assis principalmente e não muito de José de Alencar, mas lia assim mesmo. Sempre sonhou em entrar numa boca faculdade. Aquele dia de folga não foi diferente dos demais. Depois da habitual ida à biblioteca, resolveu fazer um caminho diferente na volta. Quis dar um passeio. Observava os prédios do centro antigo. Muitos restaurados, outros caindo no esquecimento ou caindo literalmente. Era uma pena que as pessoas não se importassem com a história de sua cidade, afinal, era a história delas também. Sentiu uma profunda indignação ao ver aquilo e se perdeu nos pensamentos quando não avistou um garoto correndo em sua direção. O encontrão foi inevitável e foram os dois ao chão. O garoto gritava:

- Vamos cara! Levanta e corre!

Esdras nem sequer pensou duas vezes. Correu junto com o garoto alguns quarteirões até pararem em uma parada de ônibus onde havia um posto policial próximo.

- Acho que ele parou de nos seguir!, disse o garoto.
-Ele quem?, indagava Esdras, totalmente sem fôlego.
-O ladrão oras, mas não deixei que levasse meu dinheiro., dizia mostrando a carteira cheia.
- Nossa! Você anda com todo esse dinheiro?, espantava-se Esdras.
- Fazer o quê? Acabei de receber! 
- E o que você faz?, perguntava Esdras, muito curioso.
- Trabalhava numa lanchonete, mas hoje foi meu último dia e você? 
- Telemarketing..., Esdras respondia nem um pouco feliz com aquilo, mas o garoto de olhos negros e penetrantes subitamente ergueu a cabeça como se fosse fazer um discurso e disse:
- Ótimo! Não devia ter vergonha disso, imagine alguém passar o dia inteiro com a cara no sol? Com certeza lá onde você trabalha tem ar condicionado, não tem? Plano de saúde e tudo. Olha, eu tô morrendo de fome. Vamos comer? 

Antes que pudesse dizer não para aquele desconhecido, acabou concordando com o garoto que apenas sorria. O sorriso era o mais lindo que Esdras já havia visto e como dizer não àquele sorriso maroto?

- Está bem. Vamos. 
- Ótimo! Ah! Como é mesmo seu nome?
- Esdras.
- O meu é Leandro, mas todos me chamam de Leco ou Lê, sabe. Ah! Que cabeça a minha! Nem te pedi desculpas pelo esbarrão, né? Espero que não tenha te machucado. Eu te pago um lanche pra compensar. Onde fica uma lanchonete aqui perto? Aliás, você sabe cozinhar? Eu adoro cozinhar e sou bom de garfo também. Minha mãe diz que sou magro de ruim, vê se pode?

Leandro parou, talvez pra respirar. Ele normalmente não era tão falante assim, mas sentiu que podia confiar em Esdras que, a essa altura, já estava zonzo com tanta informação.

- Quando cheguei aqui eu era bem mais tímido, mas a vida vai levando a gente pra cada lugar...

O garoto tagarelava e Esdras não sabia como pará-lo, mas também não queria. Conseguia ver que se o rapaz erguesse os braços, poderia voar, porque das suas costas saíam um par de asas.

Esta é a história de Esdras. Mas poderia ser a sua.

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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