quarta-feira, 29 de março de 2017

Eu Tenho Um Melhor Amigo?




Desde criança você tem aquele que considera o seu melhor amigo. Sempre que te perguntam quem é, você não tem dúvidas: é ele. Aquela pessoa que não importa quanto tempo passe, quantos acontecimentos se façam, quanta distância haja: vocês sempre ficarão à vontade um com o outro como nos velhos tempos; continuam tendo um humor extremamente parecido; ainda são referência para as suas respectivas famílias de amizade duradoura.

E quando você percebe que, não necessariamente, vocês ainda são melhores amigos?

Sim, tudo isso ainda existe. Tudo isso ainda está lá, mas agora parece que não mais em tempo real, mas, sim, em um belo museu pessoal. Eis que você enxerga esse seu amigo estabelecer relações de confiança e confidência com outros. Algumas pessoas que você sequer ouviu falar na vida. E percebe que ele considera a sua cara metade na vida outra amiga, e não você. E ele teve relacionamentos amorosos que você sequer tomou conhecimento...

E quando a sua outra melhor amiga de infância também não dá notícia por meses a fio e, quando vocês se falam, descobrem que ela está grávida de seis meses. E quando se falam de novo, descobre que a filha dela já TEM seis meses. Como lidar?

Em ambos os casos, estamos muito afastados fisicamente. Ambos moram em São Paulo. Mas como pode ser que eu mantenha contato mais estreito hoje em dia com amigos em Salvador, Belo Horizonte e Manaus (sendo que algumas dessas cidades eu sequer conheço!)? Negligência? Abandono? Novas afinidades? Ou curso natural da vida?

Sim, me dá uma dorzinha no coração ver as declarações de amizade irrestrita dos meus amigos-irmãos de infância a outras pessoas. Tenho ciúme mais de amigo que de namorado, isso sempre foi. Mas aí eu vejo que eu mesmo também tenho explicitado (e talvez exercitado) mais a minha amizade com outras pessoas que a vida me apresentou mais recentemente, em outra fase, na qual a pessoa costuma já estar com a sua personalidade mais bem definida e mais encontrada. Sem dúvida, eu sou muito mais PH agora aos 32 anos do que era aos 10, ainda me descobrindo e me conhecendo. E hoje a vida não nos coloca mais no caminho um do outro pela turma da escola, mas, sim, pelas afinidades diversas de uma vida adulta.

Nossa vida toma rumos que a gente mesmo desconhece. Assim é com a nossa carreira. Assim é com os nossos relacionamentos amorosos. Assim também há de ser com as nossas amizades. Sou muito do que sou graças a eles em minha vida e espero preservá-los, mesmo que não com a mesma proximidade de antes. Melhores ou pouco conhecidos, participativos ou pouco presentes, os amigos são necessários. E são humanos; como tais, podem ser inconstantes, falhos e mutáveis.

Tenho um melhor amigo hoje em dia? Não sei. Talvez até seja isso um sinal de que, infelizmente, nos tornamos adultos...

Leia Também:

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: