sexta-feira, 31 de março de 2017

Fragmentado





Na semana passada, publiquei aqui um texto chamado Confessionário, que revelava o quanto podemos aparentar ser um outro alguém que pretendemos (ou não) ser. No íntimo de qualquer pessoa, seja eu, seja você, seja o porteiro de seu prédio, seja a beata que vai à igreja todos os dias, seja o caixa simpático da padaria ou o seu colega de trabalho bonachão, há um imenso caleidoscópio de sentimentos e desejos que, cautelosamente, acabamos por desvendar somente uma única faceta, principalmente através das redes sociais que, acredito, tenham sido as responsáveis pela evolução de uma nova cultura comportamental. 

“Tempos líquidos.”, diria o eterno Bauman. 

No Facebook, por exemplo, ninguém (ou quase ninguém) é triste, mau ou está deprimido. Lá, ninguém diz que está com vontade de tomar meia dúzia de Prozacs (ainda existe esse remédio?) ou que gostaria de fuzilar aquela mulher fofoqueira do trabalho que acabou com sua reputação na empresa. Todos nós temos vários ângulos... Mas quem mostra o seu lado “Darth Vader” de ser? O que existe no lado escuro da lua? 

Curiosamente, esse assunto continuou a reverberar dentro da minha cabeça quando, no último fim de semana, saí do cinema após assistir Fragmentado, o novo longa do outrora badalado diretor M. Night Shyamalan. Talvez você não tenha ligado o nome à pessoa, mas Shyamalan, que tem sua principal influência no britânico Alfred Hitchcock (inclusive aparecendo em seus próprios filmes), é um cineasta indiano, naturalizado americano e possui uma linha bem autoral aos padrões hollywoodianos. Dirigiu filmes como Corpo Fechado, Sinais, A Vila e o sensacional O Sexto Sentido, seu filme de estréia que faturou horrores, além de indicações ao Oscar, Globo de Ouro e Bafta, os principais prêmios da indústria cinematográfica. 

Alguns outros filmes, como O Último Mestre do Ar, A Dama na Água e Fim dos Tempos foram duramente reprovados pelo público e crítica especializada, e parecia que o diretor não voltaria mais a fazer filmes interessantes. Depois de alguns anos, ele reapareceu com o bom A Visita, e volta à sua melhor forma no incrível Fragmentado, que mostra a história de Kevin, um homem que possui um transtorno dissociativo de identidade e convive com 23 personalidades, conseguindo alterná-las quimicamente em seu organismo somente com a força do pensamento. Com uma atuação sensacional de James McAvoy (que fez o jovem Prof. Xavier em X-Men First Class), o ator, somente com um gesto, suspiro, expressão no olhar ou no timbre de voz, dá vida à autoritária Patricia, o afetado estilista Barry, o calculista com transtorno obsessivo-compulsivo Dennis e o menino Hedwig, entre outros. 

A história em si, é simples: Kevin sequestra três adolescentes em um estacionamento de um shopping e as leva para um cativeiro. O filme poderia descambar para um lado, mas não é isso que vemos. Shyamalan é um exímio contador de histórias e os personagens vão sendo descortinados sem a obviedade da violência gratuita. Da mesma forma que a personagem de Kevin mostra um conturbado passado que fez com que sua personalidade se tornasse perdida em um imenso quebra-cabeças embaralhado, paralelamente o público vai juntando os fragmentos da memória de Claire (uma das jovens sequestradas e interpretada pela talentosa Anya Taylor-Joy, que já tinha nos surpreendido no assustador A Bruxa) mostradas em flashback com as terríveis sugestões de terror psicológico e abuso sexual entre a menina e o tio, revelando que os traumas do passado podem ter uma influência direta na construção da personalidade e do caráter de cada indivíduo. Em um momento do filme chegamos até a vislumbrar se Claire também não pode se tornar uma pessoa com dezenas de personalidades... 

Com maestria, o diretor fecha a câmera e nos remete a um ambiente claustrofóbico, remetendo o espectador ao cenário da trama, assim como os travellings e enquadramentos dos personagens, realizados de forma distinta: quando Kevin surge como o menino Hedwig e a câmera o filma do alto para parecer menor; a simetria enquadrada em Dennis, a lente com um efeito longilíneo para Patricia ou fugindo do plano americano para mostrar o talento de Barry.

Provocada pela ágil montagem, em Fragmentado há um aumento gradual da tensão, deixando o espectador se revirando na cadeira da sala de projeções. Apesar de não ter uma enorme surpresa no final, há uma inesperada aparição na última cena (sem spoilers) que vai agradar os fãs do cineasta, remetendo diretamente à obra de Shyamalan e que traz a certeza de que vem mais um filme para fechar a trilogia.

A fé (ou a falta dela) foi o mote de Sinais e O Sexto Sentido, que também teve surpreendentes reviravoltas. A Vila (na minha opinião, o melhor dele), mostra uma voraz metáfora (e crítica) sobre a América e a estagnação da sociedade em ultrapassar as barreiras que os próprios líderes impuseram. Corpo Fechado revela as situações extraordinárias de convivência entre humanos e heróis na vida real. Fragmentado é um mosaico estilhaçado de todos eles. E que, fotograma a fotograma, o diretor nos convida a construir nosso próprio quadro, como se a cadeira do cinema fosse um divã. Imperdível!

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Amigo, sempre arrasando! Beijos!