domingo, 5 de março de 2017

Leandro





Sentia-se preparado. 

As malas estavam prontas com suas roupas. Pensava se deveria ou não levar consigo as toalhas que a mãe havia bordado com suas iniciais. "Não. Já estou com muita coisa na bagagem!", pensou. Mas as toalhas eram tão lindas e, por certo, a mãe ia ficar muito chateada se ele não as levasse. "Tudo bem!". Levaria as toalhas e um peso a mais ou a menos não teria tanta importância afinal.

Levou as malas e seguiu para a cozinha. Pegou um pedaço de pão e passou manteiga, segurou uma xícara de café e deixou cair sobre ela um pouco de leite. Mexeu. O cheiro do café invadia a cozinha. Ele olhou em volta. Talvez fosse a última vez que a visse. Tentou segurar as lágrimas.

Levantou-se e dirigiu-se até o quarto dos pais. "Eles ainda dormem.". Preferiu não chamar. Olhou as horas. "Preciso ir!". Foi até a porta, olhou a sala e segurou o choro mais uma vez. Saiu. Foi caminhando ate o portão sem olhar para trás.

Era bem cedo e o dia começava a nascer ainda. Havia chovido um dia antes e a rua ainda estava um pouco molhada. Ele dava passos largos ate a parada de ônibus. Sempre sem olhar para trás. Da janela do quarto dos pais uma figura o observava com lágrimas nos olhos e um terço na mão. "Vai com Deus meu filho", dizia a mulher. O velho homem deitado na cama apenas deixou cair uma lágrima, ele se segurava para não cair no choro. Sem dizer uma palavra sequer, nem tampouco se virar para ver a mulher. Ele sabia que o filho já partira e que não voltaria mais. Não mais como o filho que um dia ele segurou nos braços.

Quando decidiu que sairia de casa foi um choque para os pais. A mãe não aceitava que seu filho saísse, nem sequer seu pai. Mas ele estava determinado. Acabou criando forças quando o pai disse: "Se sair, aqui não põe mais os pés!". Ele pegou suas coisas e se foi. A mãe, escondida do marido, lhe deu algum dinheiro e lhe bordou toalhas. De alguma forma ela achava que ele precisava delas assim como precisava dos lençóis de linho branco.

Leandro arrumou suas coisas e se foi. Ele não disse mais adeus para os pais, contudo, sentia que não voltaria mais. Tinha o dinheiro do ônibus, o dinheiro que a mãe havia lhe dado. A passagem nas suas mãos parecia mais do que um simples bilhete. De repente, era como se tivesse tomado um banho de cachoeira ou mergulhado de cabeça dentro do rio como costumava fazer. Sem medo. Feliz. Durante a viagem ele contou as placas que iam ficando para trás, as casas, ele admirava tudo como uma criança que vai ao circo pela primeira vez. Quando chegou, não via a hora de descer. Tinha pressa, agora sabia que lhe faziam faltas as asas. Queria voar por cima das pessoas. Ao olhar a grande cidade aos seus pés, encheu-se de ar e caminhou triunfante! Ele sabia que agora podia voar se erguesse os braços. E das suas costas via-se um imenso par de asas.

A cidade surgia vigorosa. A música dos carros, o perfume do asfalto, tudo parecia poesia para os seus olhos. Não cansava de admirar os arranha-céus. Imaginava-se do alto de algum deles onde poderia ver a cidade, mas o máximo que conseguia subir era até o primeiro andar de algum que estivesse oferecendo emprego. Emprego! Isto sim tirava o sono de Leandro. Já estava há quase um mês na cidade e até agora nada! Sabia que seria difícil já que ele não tinha muita experiência, ou melhor, nenhuma experiência. Terminara o ensino médio recentemente e saíra de casa aos 18 anos. Além disso o que mais ele sabia? Se sentia vazio, às vezes. Não poderia voltar para casa e, se isto acontecesse, o que ele faria? O aluguel na pensão onde estava iria vencer e o senhorio não era o tipo de pessoa que esperaria. Mas ele não desistia. Pensava nos seus sonhos, os sonhos que o levaram até ali e este pensamento era a oração que lhe dava forças. Olhava para cima e, mesmo o dia estando cinza aquela época do ano, ele sabia que o sol estava ali, em algum lugar, por entre as nuvens.

Em um desses dias, cansado de andar, morrendo de sede, parou em uma lanchonete para pedir água. Era um misto de lanchonete, padaria, boteco. Entrou e pediu uma garrafa d'água. O homem por trás do balcão tinha fartos bigodes e um carregado sotaque português. Pediu um momento. Tentava se desdobrar em mil para atender tanta gente. Eram desde crianças querendo balas, senhoras pedindo pães, homens querendo a velha e boa média.

Leandro sentou um pouco. Viu que era melhor esperar, mesmo com tanta sede. Um senhor ao lado, irritado com a demora, disse: "Ele deveria deixar de ser pão-duro e contratar logo alguém para ajudá-lo!". Leandro, ao ouvir isso, nem pensou duas vezes, correu para o homem atarefado, segurou-o pelo braço, o encarou e soltou: "Eu ajudo o senhor! Pode me pagar hoje com um prato de comida, depois com o suficiente para que eu pague a pensão, mas eu preciso de um emprego e o senhor de alguém para ajudá-lo!".

O velho português não sabia se o empregava ou se o mandava embora a pontapés, mas ao olhar os olhos daquele rapaz, viu o jovem que fora um dia com a mesma garra de quando deixou sua terra. Preferiu ficar com a primeira opção. Agora já podia se ver as nuvens sumirem e o sol brilhar mais forte. 

Esta é a história de Leandro. Mas poderia ser a sua.
Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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