domingo, 26 de março de 2017

Marcos





Observava de longe um casal se beijando na pista de dança. Haviam muitos outros se beijando também, mas aquele em particular o chamava a atenção. Havia algo diferente no ar que ele não sabia bem o que era. Há um bom tempo que não saía de casa, que não via gente, mas falaram tanto dessa festa que quis conhecer com seus próprios olhos. Precisava conhecer gente nova, ter gente nova em sua vida, entretanto, viu um rosto conhecido e foi ter com ele. 

- Quanto tempo! Por onde você andava? Viajando?

Marcos pensou no que poderia responder, não estava viajando, isso de certo, mas dizer a verdade seria ter uma conversa que ele sabia que não caberia ali naquele momento. Preferiu ser lacônico.

- Não. Por aí na vida.

Percebeu que o outro havia entendido a deixa, então começou a mudar de assunto.

- Essa balada aqui é boa. Vim hoje com um amigo que acabei de conhecer, ele não é da cidade, mora aqui faz pouco tempo. - disse apontando para o rapaz que beijava outro na pista. Era o mesmo casal que havia lhe chamado a atenção assim que chegou.

"Haja fôlego", pensou consigo. Imediatamente após esse pensamento, o casal parou de se beijar, o rapaz puxou o outro para fora da pista, passaram ao lado de Marcos, o que vinha a frente o encarou, seus olhos negros penetrantes pareciam ler sua alma. 

- Preciso disso., - dizia pra si mesmo. 

Continuou pensando, era como se uma luz se acendesse em cima de sua cabeça. "Eu preciso viver novamente, beijar é se conectar com alguém, a energia que um beijo traz mostra como é bom viver, como temos uma vida inteira pela frente e como tantas vezes perdemos tempo". 

De repente, ao ver aquele casal, ao olhar aquele rapaz que parecia voar sobre os outros, ele se sentiu agradecido por saber que afinal a vida continua, mesmo depois de tudo, ela continua.

- Viu alguém interessante?
- Eu? Porque você diz isso?
- Não sei, de repente seu semblante mudou, parece de alguém apaixonado, não, na verdade eu diria, encantado. Foi isso?
- Fato. Eu vi sim.

O outro se mostrou curioso.

- Quem? Aonde está?
- Aqui mesmo. Sou eu. Descobri que eu me amo. E estar apaixonado por mim é a melhor coisa que poderia acontecer.
- Que coisa boa! E o que fez descobrir isso, assim de repente, no meio da festa?

Ele voltou-se. Observava novamente aquele rapaz que o fitara ainda pouco, tão jovem e tão cheio de vida. Não respondeu mas continuou pensando.

- Sabe, se ele quisesse bastava erguer o braços que sairia voando.

Esta é a história de Marcos. Mas poderia ser a sua.

Leia Também:
Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: