terça-feira, 7 de março de 2017

O Carnaval de Henrique


Enquanto uns vivem para fevereiro, eu costumo valorizar bastante minha lista de filmes atrasados e o meu progressivo conhecimento de restaurantes delivery no Rio de Janeiro. É assim todo carnaval, eu sumo. 

Eu sei que é estranho, eu me sinto estranho também. Uma festança do lado de fora e eu trancado em casa. Não sei se é fobia social ou carnavalesca, mas não é a minha festa. 

Eu não planejava nada diferente esse ano: filmes, comida, um bom descanso, talvez adiantar uns projetos pessoais, talvez aproveitar a companhia do meu cachorro. De certo as opções não me desagradavam, mas confesso que o difícil é fazer isso tudo sem receber 50 notificações no celular a cada minuto, convidando para o bloco x ou grupos que discutem se o melhor é o bloco y. Eu até silencio o telefone, mas fico nervoso quando vejo o número ali no ícone chamando minha atenção. 

“Henrique, esse carnaval você vai se render. Escuta o que tô dizendo, você vai se amarrar!”. Marquinhos, meu melhor amigo desde os cinco anos, me fazia promessas que talvez não pudesse cumprir. Mas resolvi dar uma chance. Um bloco, perto de casa, liberdade de ir e vir a qualquer momento se o ambiente fosse tóxico demais para meu organismo virgem da folia. 

Não eram nem onze da manhã e parecia que uma embarcação atracara na cidade, trazendo um país inteiro. Era muita gente, de todo tipo, idade, raça e fantasia. E meus amigos tentavam buscar o melhor lugar para ouvir o bloco, enquanto abríamos caminho entre as milhares de pessoas que desafiavam a lei da física. Entre pedidos de licença e equilibrismo de cerveja, encontramos Tati e Julia, nossas amigas de colégio, que traziam consigo mais um outro grupo de pessoas. Talvez essa fosse a mágica do carnaval: grupos que encontram grupos e adicionam mais uns grupos dentro do mesmo lugar. Eu, sempre o mais baixo dos amigos, tentava me posicionar com um pé no meio fio e outro quase suspenso no ar. Uma lição importante é jamais tirar o pé do chão, pois corre o risco de não conseguir colocá-lo de volta. 

No grupo da Tati e da Julia tinham mais duas meninas e alguns caras, todos meio bêbados e prolixos. Rapidamente me chamou atenção o fato de uma das meninas ser cadeirante. Se estava difícil para mim, imagine ela? Foi uma questão de segundos até eu esquecer completamente o fato dela ser cadeirante e me concentrar em como ela talvez tivesse o sorriso mais lindo que já tinha visto. Ela tinha um rosto delineado, com ossos marcados, e um sorriso largo, daqueles que ocupa o máximo de espaço que conseguir, quase como um bloco de carnaval. 

- Você tá bebendo? Vou pegar uma cerveja, quer?

- Ah, obrigada. Não estou bebendo, mas se você conseguisse uma água eu te agradeço.

Fui atrás de um ambulante em busca da água dela, já nem lembrava mais que queria cerveja. No primeiro não tinha, me indicou o do outro lado da praça. Quase quinze minutos atravessando um mar de gente e me deparo com a água esgotada por lá também. Resolvi tentar um bar e consegui. Mais quinze minutos para voltar para onde estávamos e me deparo com ela já bebendo outra água. Conversando com um dos bêbados prolixos. 

Típico balde de água fria (que até teria caído bem naquele calor infernal que fazia) que eu poderia prever. Eu, um baixinho tímido, e o bêbado sem camisa com chapéu panamá e muita lábia. A competição não era justa. 

Marquinhos e Julia já se enroscavam no meio da praça, enquanto Tati tentava dispensar um gringo que parecia mais perdido que eu. 

Enquanto eu olhava rapidamente ao meu redor para constatar que era hora de rumar de volta ao meu aconchego, sinto alguém encostar no meu braço. 

- Achei que você não ia voltar mais.

- É, não, desculpa. Tá muito cheio e não tinha água em nenhum ambulante. 

- Mas você tá com uma garrafa fechada.

- Ah, sim. Eu comprei num bar. Toma aqui. 

- Obrigada. Os meninos compraram também, mas água nunca é demais.

- Você é amiga da Tati? 

- Sim, trabalhamos juntas. Trabalhávamos. Não sei se vou continuar. – ela respondeu enquanto apontava para suas pernas. 

- Foi recente? 

- No ano novo.

Quis mudar de assunto, pois não saberia como continuar falando sobre o que aconteceu com ela. Minha timidez iria transformar a curiosidade em alguma pergunta ofensiva e não terminaria bem. Trocamos mais perguntas soltas e tímidas, com intervalos calculados para alimentar nossa vergonha de não saber como engatar uma conversa decente. Depois de um tempo percebi que não sabia seu nome. 

- Desculpa, não sei seu nome.

- Diana. O seu?

- Henrique. Prazer.

- E você, é amigo da Tati?

- Sim, estudamos juntos desde pequenos. 

- Você parece meio deslocado aqui. Não é do Rio?

- Não sou do carnaval, na verdade.

- Como não? 

Ela perguntava assustada e eu respondia rindo, o que a fazia sorrir também. Parecia um ciclo vicioso de rir para vê-la rindo e aproveitar esses minutos que pareciam mais longos que o normal, como um bônus por eu estar ali. E ela era tão despojada que destacava ainda mais minha timidez. Mesmo na cadeira de rodas, ela usava uma fantasia que eu não sabia de que, mas nela ficava bem.

Eu não vestia nada além de uma bermuda azul e uma camiseta velha e branca, de mangas curtas e provavelmente um furo ou dois na barra. 

- Onde você mora?

- Aqui pertinho, duas quadras. E você?

- No Humaitá. Posso te dar carona quando for embora, e em troca você me ajuda a achar um táxi que caiba a cadeira. 

Aceitei, mesmo sabendo que não deixaria ela ir sozinha até em casa num carro desconhecido. A verdade é que eu queria ir embora do carnaval, mas não queria ir embora daquele sorriso. E resolvi ficar. 

Nossa conversa finalmente tomou um rumo diferente de um interrogatório e trocamos confidências sobre falidas resoluções do ano novo e interesses suspeitos como meu filme favorito ser “Harry and Sally”. O dela era qualquer um do Tarantino. 

No cortejo do bloco, que se movimentava a passos mínimos e arrastados, eu empurrava a cadeira dela enquanto me abaixava gentilmente para falar algo em seu ouvido. Ela ria. De vez em quando eu saía pra buscar uma água pra ela ou uma cerveja pra mim. O calor parecia mais gentil comigo. Muitas meninas bonitas cruzavam meu caminho e até lançavam olhares. Como tem gente bonita no carnaval, devo admitir. Mas eu nem percebia outra coisa que não fosse a Diana. 

Numa dessas idas para buscar uma cerveja, Tati veio comigo. Não precisou de muitos rodeios para atirar contra mim.

- Tô bem sacando a sua pra cima da Diana. 

- Como assim, a minha?

- Pega leve, Rique. Ela sofreu um acidente há pouco tempo.

- Eu sei, eu percebi. Mas por que pegar leve? Em que sentido?

- Acho que ela não está pensando em ficar com ninguém, ainda não se acostumou a ser cadeirante.

Talvez ninguém pense em ficar com ninguém e as coisas só aconteçam. Será que ela havia falado pra Tati que não queria nada comigo? O dia já tinha valido a pena por ela, mesmo que não rolasse nada – e provavelmente não ia rolar mesmo. Mas me intrigava a possibilidade de só não acontecer por causa de uma cadeira. 

Voltei com a água e a cerveja e ela continuava sorrindo, falando bobagens e contando histórias engraçadas. Inesperadamente um temporal desabou, e as pessoas pareciam ainda mais animadas debaixo da chuva. Diana tentava jogar seu cabelo molhado para longe de seus olhos e eu sorria também, meio desacreditado que a cena era quase como um filme romântico. 

- Você quer ir embora? A chuva tá forte.

- Não quero. Você quer? 

- Não. Mas quero ter certeza que você tá bem. 

- Não tô parecendo bem? 

- A Tati disse pra eu pegar leve com você. 

- Em que sentido? 

- Disse que seria ruim te dar um beijo.

- Você acha que seria ruim? 

Eu me abaixei lentamente, enquanto meus dedos se encaixavam no rosto de Diana. Era um beijo molhado de chuva, era um beijo de carnaval. Ela ainda tinha purpurina no nariz e algumas grudavam na minha bochecha. Ela segurava minha mão e eu olhava pra ela com cara de bobo. 

- Você foi a primeira pessoa que falou comigo hoje e a primeira coisa que me perguntou não foi sobre a cadeira de rodas. 

- Eu não me sinto à vontade pra perguntar isso pra alguém que não conheço. 

- Talvez eu não volte a andar. 

- Talvez eu esteja gostando do carnaval.


Um comentário:

Márcia Dias disse...

Adorei. Parabéns Paty. Vc escreve lindamente. Bjs saudosos