quarta-feira, 15 de março de 2017

Sim, Eu Já Fui Um Escroto





Houve um momento em minha vida em que boa parte dos pensamentos que hoje eu condeno contava com a minha colaboração ou a minha simpatia. Pensamentos mesquinhos, machistas, sexistas e, pasmem, homofóbicos. Tudo bem, muitos deles ainda na minha infância. Mas duas coisas foram fundamentais para que eu não me tornasse um babaca completo: a interferência dos meus pais na minha educação e a minha disposição a aprender algo e mudar de opinião.

Quando eu era pequeno, lá pelos meus sete anos, eu pegava a Kombi (que depois virou ônibus) escolar a caminho do meu colégio. Como já relatei aqui no passado, o Instituto Abel, em Niterói, era um celeiro pulsante de bullying: parecia uma supernova emanando preconceitos e perseguições de seus alunos. No transporte escolar não era diferente. Eram constantes xingamentos como viadinho, boiola, bichinha e afins. Eu retribuía na mesma moeda. E um dia, ao chegar em casa, comentei com a minha mãe que fulano era “viado”. A minha mãe na mesma hora virou para mim e falou: “Não cospe para cima porque cai na cara”. Era a primeira vez que eu ouvia aquele ditado. E não entendi muito. Ela me explicou: “Meu filho, não sabemos o dia de amanhã. Se você crescer e tiver um filho gay, você não vai gostar de ouvir isso”.

Obviamente, minha mãe nunca foi burra. Ela sabia que eu realmente poderia crescer, ter uma família tradicional e ter um filho gay. Ou mesmo que ela poderia ter o filho gay e que fazia ele, ali mesmo, despertar para uma ferida que ela não queria que fosse ele o causador. Vi ainda minha mãe combater piadinhas jocosas a respeito da minha tia lésbica, quando ela era casada com outra mulher e eu mesmo sequer percebia (achava que eram amigas e que o povo era maldoso). Dona Beth conviveu de perto com muitos amigos LGBT e viu, nas décadas de 1970 e 1980, o sofrimento de boa parte deles em ser eles mesmos. Não desejava isso a ninguém.

Mamãe sempre teve vigilância sobre os meus atos e de minha irmã. Ela conta até hoje uma história na qual eu voltei para casa com uma borrachinha em formato de estrela (ou algum bichinho ou florzinha, não me recordo agora) que ela não conhecia. Ela me perguntou de onde veio e eu disse que era minha. Ela, claro, sabia que não me pertencia. Fui obrigado no dia seguinte a, quando voltei à escola, devolver à professora. A “tia” disse que não fazia mal, que ninguém deu falta. Minha mãe foi firme: “Não importa. Hoje foi uma borrachinha de nada. Amanhã a gente não sabe o que é”. Assim aprendi a respeitar a propriedade privada.

Minha mãe também nunca distinguiu pessoas pela cor da sua pele. E essa discriminação, desde muito novo, foi algo que nunca vivenciei. Eu tinha um avô negro, de parte de pai (mas que se ofendia se fosse chamado de preto, vejam só). Para mim, era algo extremamente comum. Mesmo assim, ainda ouvia piadas em círculos mais próximos: “É barbeiro na rua, só pode ser preto ou barbicha”; “Tinha que ser preto mesmo para não resolver isso”; e a pior delas, talvez: “Eu não tenho preconceito contra negros, é só uma questão de higiene”. Lembro-me que, quando ouvi essa frase da boca de uma amiga da minha mãe, num bar perto da piscina do condomínio, todos à sua volta riram. Eu, ato contínuo, ri também. Devia ter uns nove anos. Logo eu, que nunca vi diferença nenhuma entre negros e brancos; ou melhor, via sim: tinha uma certa invejinha e queria ter mais melanina na pele. Poderia ter sido eu a reproduzir novamente essa piada; talvez até eu tenha reproduzido depois, pra graça de mais um ou dois. Poderia eu ter compactuado com aquele pensamento e me tornar mais um segregador. Ainda bem que vi que aquilo não era algo com o qual, de verdade, concordava. Aproveito e peço desculpas a todos pelo péssimo ato do passado.

Semana passada, ao celebrarmos o Dia Internacional da Mulher, vi o quanto foi necessário tomar cuidados para ajustar o tom ao se falar da data. Antigamente, a professora na escola entrava dando parabéns às meninas e pedindo parabéns para ela mesma. Hoje em dia, parabéns não caem bem, com toda a razão. Eu mesmo tive que pensar num card para publicar no Facebook e passei boa parte do dia matutando em como passar a mensagem que queria. Optei por falarmos de luta e resistência; força e igualdade. Mas vi no grupo da minha família uma piada extremamente machista nessa data, mandando a mulher ir comprar cerveja e preparar o petisco porque tinha Barcelona x PSG na TV à tarde. Minha prima, uma das maiores feministas que eu conheço, de imediato disse que não toleraria aquele tipo de provocação, ainda mais no dia 08 de março, e se retirou do grupo. Fui lá olhar o perfil da pessoa que mandou a grosseria: era um primo de terceiro grau. Que deve ter uns 20 anos. E, provavelmente, argumenta que não passou de uma brincadeira, uma piada. Porque é assim que muitos dos preconceitos se perpetuam: desmerecendo as suas intenções e consequências. Como provavelmente eu fiz quando ri da piada do negro; como provavelmente eu, quando era mais novo, poderia reproduzir essa mesma piada do jogo de futebol que julgo tão ofensiva hoje em dia.

Eu já achei que era feio ver uma mulher com lata de cerveja na mão, ainda mais posando para foto. Eu já pensei que a maior realização de uma mulher seria ser mãe. Achava uma obrigação moral e biológica a mulher querer ter um filho. Eu já fui contra a descriminalização do aborto, por achar um atentado contra a vida; hoje, entendo que, independentemente das minhas crenças, o aborto é uma realidade e é um caso de saúde pública, não de fé. Continuo sendo pessoalmente contra o aborto, mas acredito que a mulher tem que ter o direito de gerar ou não o filho dentro dela – até porque as que não querem não o deixam de fazer pela Lei: acabam recorrendo a métodos insalubres como lavagens, inserção de agulhas de crochê ou outros objetos que acabam matando. Ao bebê e a ela própria. 

Precisamos lembrar que boa parte da nossa população sequer tem acesso a métodos contraceptivos ou mesmo a informações valiosas sobre sexo e gravidez. Uma vez ouvi de uma ex-empregada da nossa casa, que virou uma das melhores amigas da minha mãe que, quando ela ficou grávida ainda muito nova, no interior de Pernambuco, perguntou à mãe dela por onde o bebê sairia. A resposta foi: “pelo mesmo lugar por onde entrou”. Ela ficou em pânico no dia do parto. Não sabia o que se passaria com ela. Nunca a ensinaram nada. Ela é uma entre milhões nessa mesma condição. Minha crença de que abortar é interromper uma vida não é nada diante dessa realidade. Nada.

Somos criados para sermos preconceituosos. Por mais que nos livremos de boa parte deles, ao longo das nossas vidas, algum resquício sempre haverá. Sempre residirá, em algum canto das nossas almas, um sentimento ignóbil, um impulso degenerado, um pensamento apodrecido. Resta saber se vamos alimentá-los ou nos debruçarmos sobre eles e refletirmos. Infelizmente, caminhamos para uma sociedade que cada vez menos aceita ser convencida e ter sua opinião convertida. Unimo-nos através de nossas convicções e descobrimos que, mesmo naquelas que são socialmente condenáveis, existe quem faça coro e eco. 

É preciso nos questionarmos sempre: que voz queremos fazer ecoar?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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