sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Crueldade do Grande Irmão





Podem me crucificar. Eu sempre gostei de assistir BBB e sofro bullying por isso. As pessoas só faltam me bater quando assumo que assisto. Às vezes, tenho até receio de dizer isso em algumas rodinhas de amigos para não causar a discórdia. Para mim, o ano até começava, de fato, quando Bial anunciava o vencedor da edição, tamanha era minha devoção. Mas o que antigamente era uma diversão, está se transformando em ojeriza. Não faço mais a menor questão em saber quem ganha o prêmio. 

O principal interesse neste reality show sempre foi minha curiosidade em observar a reação e a transformação das pessoas. Ali, naquele confinamento cheio de câmeras e holofotes, os participantes, paulatinamente iam eliminando uns aos outros por causa da corrida por 1,5 milhão de reais. Sempre enxergava como uma estrutura de jogo mesmo, onde o mais esperto e/ou o mais querido pelo público ganhava a bolada. Dali, figuras como Grazi Massafera, Jean Willys, Juliana Alves e Sabrina Sato despontaram (e, sinceramente, quase não consigo mais fazer uma associação deles com o programa). Havia ali administração de conflitos, trabalho em equipe e isolamento que facilmente poderíamos comparar com a nossa realidade, mesmo sem estarmos dentro da tela. Atualmente, não consigo nem me lembrar de quem ganhou a edição passada. Assim como Andy Warhol previu, eles tem os seus 15 minutos de fama... Ou, vá lá, uns seis meses, no máximo. 

De uns tempos para cá, tenho notado que o programa perdeu o foco nos participantes. Hoje em dia, o BBB está mais associado a quem assiste. E isso tem me deixado assustado. Na votação recorde desta temporada entre Marcos x Ilmar, foram contabilizados quase 113 milhões de votos. Inclusive, a quantidade surpreendeu o candidato eliminado Ilmar na ocasião, que soltou a pérola, ao vivo: “eu tive mais votos que o Aécio!” 

Estes números foram a terceira maior votação da história do programa em sua 17ª edição, e ficou atrás somente do resultado que deu o prêmio, em 2010, a Marcelo Dourado (com quase 155 milhões de votos) e o paredão, na mesma edição, entre Dourado e Dicesar (125 milhões). Se analisarmos esses três recordes, chegamos a um ponto sinistro... O ódio é que está movimentando as pessoas.

Puxando um pouquinho pela memória (e mesmo quem esqueceu, pode “dar um Google”), Marcelo Dourado era aquele participante homofóbico e, Dicesar, o maquiador transformista. O oito e o oitenta. E mesmo com toda a notória agressão que Dicesar foi submetido em rede nacional, prevaleceu a vitória do violento Dourado. 

Conversando com minha psicoterapeuta, discutimos Lacan (sim, eu discuto teorias com ela) e chegamos à conclusão que a sociedade está psicotizada. Lacan usava o exemplo da necessidade que temos em fazer um “furo” no real, coisa que o psicótico não consegue ultrapassar a barreira dessa concretude. E o que vemos é uma sociedade doente que, espelhada em uma visão egóica, premia a ela mesma. 

O programa está doente. E a sociedade, idem. Infelizmente, BBB se transfigurou na ideia que o originou: o livro 1984, de George Orwell, sob o olhar cruel do Grande Irmão.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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