quarta-feira, 26 de abril de 2017

Baleia Azul E Outros Suicídios





Uma mistura macabra de jogo, experiência psicológica e crime saiu das profundezas da web e assustou a sociedade nas últimas semanas. O tal Baleia Azul, um game no qual a pessoa, maioria esmagadora de crianças e adolescentes, é desafiada a se suicidar no fim. Curiosamente, a eclosão dessa gincana maluca veio justamente na época de maior sucesso da badalada e controversa série 13 Reasons Why, que também fala em suicídio de uma jovem. Um assunto, que é um total tabu para a nossa (e muitas outras) culturas, mas que, infelizmente, é uma realidade cada vez mais presente e que necessita ser debatida.

Muito me entristece as dezenas de piadas que surgiram a respeito da Baleia Azul com a sua descoberta pela maior parte das pessoas. A grande maioria desmerecendo a gravidade do assunto. Falando em obesidade, em falta de vergonha na cara, em falta de castigo... Quando não enxergam que vivemos novos tempos; que a depressão é, sim, uma pandemia crescente e não uma frescura de quem quer chamar atenção; que muitos desses jovens e crianças têm o mundo acessível pelo seu celular, mas não conseguem sequer dialogar em casa.

Quando eu trabalhava na TV Globo, dez anos atrás, ganhei o livro Morreu na Contramão, do jornalista Arthur Dapieve, lançado pela editora Zahar. Ele debatia, justamente, o suicídio como notícia. Para quem não sabe, nós, jornalistas, somente noticiamos suicídio quando é de um famoso. Caso contrário, acredita-se que pode estimular outras pessoas a fazerem o mesmo, seguindo o que se chama de Efeito Werther. Esse nome vem do livro de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther, de 1774, ao qual foi atribuída uma onda de suicídios na Europa inspirada no personagem do autor alemão. Paradoxalmente, homicídios e outros crimes continuam à solta em nosso noticiário, sem qualquer temor de que isso estimule mais delitos.

Dapieve destaca em seu livro também uma frase emblemática de Albert Camus, em seu clássico O Mito de Sísifo:
"Só há um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia."
Além da filosofia, matar (e matar-se) passa por dogmas religiosos. Há cultos em que sequer há funeral quando a pessoa se suicida. Ou seu corpo é enterrado de barriga para baixo. Crenças sobre o Inferno ou o Vale dos Suicidas povoam nossas mentes. Quem não se lembra do personagem Alexandre, na novela A Viagem?

Curiosamente, foi o maior ícone do amor ao próximo e do amor à vida, uma figura religiosa, Jesus Cristo, considerado um suicida. Cristo foi o primeiro grande porta-voz de que de nada adiantava construirmos riquezas, materiais e intelectuais, se não nos amássemos uns aos outros. Mas chegou-se a debater até que ponto deveria ser símbolo máximo de uma crença um homem que poderia ter se livrado de sua morte e a acatou como um cordeiro indefeso, segundo conta a Bíblia. Não seria também uma forma de suicídio desistir de viver? A Igreja, em seus primórdios (pasmem!) chegou a cogitar abandonar Cristo por esse motivo.


Lembro-me de semanas atrás ter tocado no assunto do Baleia Azul com os demais autores do Barba Feita, justamente porque, através de outro círculo de conhecidos, recebi um alerta sobre o jogo. Era um rapaz, que respondia pelo grupo Baleia, do Facebook, voltada ao público gay que assim se identifica (de forma muito bem resolvida) por serem gordos acima do padrão que se convenciona para os já famosos "ursos". Ele passou a receber uma enxurrada de pedidos de crianças e adolescentes para ingressarem no grupo, de uma hora para a outra. E buscou entender a razão. Deparou-se com a tal Baleia Azul e alertou que era algo que havia emergido da deep web, reino da internet onde grande parte dos crimes e contravenções ocorrem, longe dos nossos olhos. Pedia para divulgarmos e ficarmos atentos. Nem precisou de tanto tempo: dias depois, surgiam as primeiras vítimas.

Suicídio sempre houve e sempre haverá. Como Dapieve descrevia em 2007, segundo estimativas da ONU, de 20 milhões a 60 milhões de pessoas mundo afora tentam se matar a cada ano - isso é comparável ao tamanho da população da Itália. No Brasil, é um fenômeno crescente. Por isso, não podemos fechar os olhos para a Baleia Azul, nem qualquer outro tipo de manifestação. Muito menos fazer piadas ou desmerecer. Conversem, busquem entender aqueles que estão mais reclusos ou que mudaram de comportamento. Ofereçam ajuda, sejam de vocês mesmos ou de profissionais. Às vezes sequer sabemos o quanto alguém que está do nosso lado precisa de nós.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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