quarta-feira, 5 de abril de 2017

Confissões De Um Retardatário Digital




Vou fazer uma confissão que, espero, não faça me tornar um completo estranho para você: eu não tenho Netflix. Nem Spotify (já tive, acabei desinstalando após alguns meses nunca tendo usado). Tampouco Twitter ou Snapchat. Ah, também não uso Gmail (até tive que fazer um, para utilizar na minha conta Android – durante anos, eu usei um Windows Phone). E não tenho absolutamente nada da Apple...

Volta e meia sofro certo bullying por conta de uma das confissões feitas acima. “Como assim você não assiste tal série”? Ou “você não tem um iPhone porque não sabe que é muito superior aos outros”. Uma vez um amigo me falou: “Já ouviu aquela: ‘Era bonitinho, mas usa Hotmail’? É você!”. Ok, eu tenho um Hotmail, mas mal uso (usava para o MSN Messenger e depois pro login do Windows Phone). Meu e-mail desde sempre é do Yahoo! (e não sei se isso é exatamente algo que me inocente...).

Esse mesmo amigo dizia que eu gostava de fazer charme bancando o tiozão nesses casos. Engraçado que, na verdade, eu me sinto em uma categoria bem peculiar: a dos inseridos digitalmente e até bastante presente nas redes sociais da qual faço parte, mas que não consegue acompanhar o ritmo das coisas. E, por vezes, sequer enxergo sentido nelas.

Fui de uma das primeiras gerações a utilizar TV por assinatura via satélite (pela Sky) e curto a ideia de algo sob demanda, mas simplesmente acho que vou enlouquecer com tanta oferta de séries e programas a assistir. Às vezes, acho até que isso gera certa depressão ou crise de ansiedade em muitos dos meus amigos: eles tentam acompanhar o ritmo do que é oferecido com o tempo extremamente escasso que temos em nossas vidas. Não fecha a conta...

Também fui de uma das primeiras gerações que baixava suas músicas, via Napster ou Emule, por exemplo. Tinha a minha própria setlist em casa. Mas no caminho, entre a proibição dos downloads e a sua regulamentação, acabei me perdendo. E, admito, gosto um pouco da coisa surpresa do rádio e sua programação incontrolável.

Vim de uma geração que utilizava a foto como uma recordação. Parte importante para contar as nossas histórias. Que fotografava um rolo inteiro de filme sem saber se as fotos ficaram boas e depois torcia para dar tudo certo na revelação. Que não podia ter nude porque a pessoa do laboratório iria ver, poderia até fazer uma cópia ou fazer um sorrisinho julgador quando você fosse buscar suas fotos. Definitivamente não acho que devamos voltar atrás – não sou nem um pouco nostálgico quanto a isso. Mas não entendo a relação efêmera e descartável com a fotografia que o Snapchat trouxe. E nem o entendo muito como rede social... 

O caso do Twitter para mim é um pouco diferente. É como um All Star dourado: vou sempre achar bacanérrimo. Nos outros... Nunca acho que vai funcionar para mim. Acho até que tem muito a sua lógica como um grande centro de informação. Reconheço seu valor e até a defendo para quem quer investir em Social Media. Mas, pessoalmente, não me entendo muito com essa rede de 140 caracteres. 

Sobre esses avanços da tecnologia, curioso que justo hoje vi um meme que dizia:

“Em 1960: Eu aposto que em 2017 teremos carros voadores e a cura do câncer”. 
“Em 2017: Creche é suspensa por chefiar Clube da Luta entre bebês no Snapchat”.

Uma piada com a realidade de que a humanidade é um projeto que não necessariamente deu certo. Porém, também nos lembra de que grande parte do que pode ser considerada evolução tecnológica era esperada para o bem da humanidade; mas, de fato, vemos uma profusão de avanços para entretenimento e mídias sociais que não necessariamente conseguirão ser acompanhados por grande parte da sociedade.

Tenho a lembrança nítida de sentar na frente do meu primeiro computador aos 11 anos e sair, intuitivamente, caçando coisas para fazer no meu Windows 3.1. E ver meus mais me olhando com cara de que nunca entenderiam aquilo. Durante anos, sequer os vi sentar em uma mesa de PC e, para eles, mouse deveria ser apenas o sobrenome do Mickey. Mas hoje os vejo mexendo em Facebook e mandando áudios e memes por WhatsApp. Demorou, mas eles alcançaram minimamente o que os insere sociodigitalmente.

Será que esse é mais um caso do clássico de Belchior? “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”? Eu sou eles ontem? A resposta virá com o tempo – e com as próximas coisas que inventarem...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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