quarta-feira, 12 de abril de 2017

Construção





Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando conheci a civilização Inca na minha viagem ao Peru e à Bolívia em 2015 foram as enormes construções à base de pedra que eles faziam. Lembro-me de olhar aquelas estruturas monumentais, em encaixes perfeitos, de dar inveja nos mais elaborados quebra-cabeças, e imaginar que, para que aquilo tudo fosse feito, eram necessários incontáveis anos de lapidação e polimento das rochas. Às vezes uma vida inteira dedicada a construir algo que, provavelmente, o próprio operário não iria desfrutar. E eu me perguntava: por quê?

É difícil para a gente compreender, em meio a um mundo tão imediatista e egoísta em que vivemos, o ato da herança. Os incas sabiam que poderiam não usufruir de nada daquilo, mas o que eles usufruíam havia sido fruto do trabalho de alguém gerações antes. E eles teriam, como missão, deixar o legado para as gerações futuras. Passavam dias apenas moldando pedras. Provavelmente, sem mais nenhuma outra ocupação (exceto as para se manter vivos, como arrumar comida e bebida, e as familiares). Suas vidas faziam sentido somente por construírem.

Refleti muito sobre isso. De fato, nós não somos nada senão aquilo que construímos. Seja uma pedra lapidada, seja uma relação ou mesmo um sentimento apenas. Nossa herança pro mundo está no que nós desejamos e fazemos. Não à toa fala-se tanto naquela máxima de escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Você até pode usufruir deles, mas todos têm um significado de legado; todos eles deveriam transcender a nossa existência e, ainda assim, lembrar da nossa passagem nessa Terra.

Essa semana, um dos projetos mais importantes da minha vida completa 10 anos de existência. Ajudei a fundar uma organização religiosa chamada Seara Espiritualista Falangeiros da Aruanda uma década atrás, ao lado do meu companheiro Cristiano e de outras pessoas que acreditaram na causa. Um centro de umbanda, cheio de preconceitos e desconhecimentos por grande parte da sociedade. E que, ainda assim, 10 anos depois só cresceu e recebeu mais pessoas para se juntarem ao projeto. E hoje vemos renovados os votos de muitos que nos acompanham há anos nessa caminhada; um momento repleto de emoção e verdade.

Não tenho como não dizer que não me sinto honrado e até orgulhoso de saber que estou construindo um projeto tão importante. Espero que eles transcendam a minha existência e, assim como servem a dezenas de pessoas hoje em dia, sirvam a muitas outras mesmo quando eu não estiver mais por aqui. Assim como meus livros (que hoje são dois e espero que sejam muitos quando eu for pro beleléu): que sirvam ao menos para o entretenimento de alguém, mesmo décadas ou séculos após minha partida. 

Como falei, é difícil para a gente compreender, em meio a um mundo tão imediatista e egoísta em que vivemos, o ato da herança. Mas quando a gente pratica, é tão bom! Deveria ser um exercício para todos nós porque, queiramos ou não, deixaremos nossos legados pela nossa passagem aqui. A opção é se esse legado será valioso ou vazio. Já parou pra pensar o que você deseja construir?

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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