sábado, 8 de abril de 2017

De Onde Eu Te Vejo





Como desatar nós quando na verdade são laços que nos unem? Ou então, como simplesmente recomeçar a vida? O leve e inteligente De Onde Eu Te Vejo passeia por essas perguntas, explorando o encanto da franqueza e o poder do afeto.

Depois de alguma crise, repaginar o corte de cabelo, ser aprovado no vestibular ou mudar de apartamento podem ser tentativas válidas de renovação, mas existe lá no fundo aquela grande verdade que não se ajusta como relógio ao novo estado das coisas. É dessa verdade que o filme de Luiz Villaça trata. A separação de Ana (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) faz remontar o passado do casal cuja promessa de futuro foi abalada pelas transformações da vida. Algo natural, corriqueiro e comum a todos, mas nada fácil. Que tal encarar tudo isso com humor?

Por isso, num papel sob medida, que transita por aquela fronteira indeterminada entre o choro e o riso, Denise Fraga prova (mais uma vez) a grande atriz que é, sintetizando em si o conceito narrativo do filme. A cena com Juca de Oliveira é especialmente definitiva na carreira de Denise. Vejam.

Como cenário temos a metrópole paulista (tão tênue em seu modo de operar quanto o drama e a comédia). São Paulo surge atraente na tela, numa mistura de elegância descompromissada e assepsia televisiva (características que em nada comprometem o produto final, uma vez que a visão romantizada sobre um lugar não é exclusividade de Woody Allen).

No entanto, a capital apaixonante se encerra na paisagem: o filme fala sobre as transformações que corroem a memória da cidade e o desmanche de valores históricos e sentimentais em nome do “progresso”. Aqui, diferentemente de Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, o problema é tratado como “coisa da vida”, sem carga política ou social. Mas não se trata de uma resignação pálida diante do combativo longa pernambucano, porque em De Onde Eu Te Vejo o foco é outro e diverso, uma vez que carrega em sua tese o valor da mudança e não o da resistência – independente das forças que promovem essa modificação.

Nesse aspecto, o filme também não soa alienado como é possível imaginar: a questão predatória do avanço imobiliário é metáfora para a relação amorosa apresentada, portanto, faz todo o sentido que assim seja tratada.

Domingos Montagner engrossa o caldo de um elenco alinhado e despretensioso, com destaque para Marisa Orth, que faz aparições breves, mas sempre ótimas em se tratando de diálogo e jogo de cena.

A única escorregada do filme é o fato dos personagens terem por volta de 25 anos no passado, o que não faz sentido pela aparência dos atores que nada mudou dos anos 90 pra cá. Mas isso é uma bobagem quando nos deixamos embalar por aquela história de amor. De amor pelo outro, de amor por aquilo que se faz, de amor pelo Amor.

Bom filme!

Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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