domingo, 9 de abril de 2017

Eu Fui Um dos Motivos





Quando o assunto é bullying, é assustador a quantidade de histórias de sofrimento que surgem, mas nenhuma de opressão. É como se ele nascesse do vento, como se o perseguidor não existisse. Pois bem. Tá com tempo? Vou contar uma história que até hoje, no meio da tarde, estava enterrada em algum canto da minha mente. Talvez você a tenha vivido comigo. Seu nome não aparecerá aqui, fique tranquilo. Talvez você tenha acompanhado de longe. Talvez você nem me conheça. Seja como for, falo de mim. Mas é inevitável... Falo de você também, seja você quem for. 

Quando o ensino médio chegou, eu era um nerd típico. No final da década de 90, ser nerd não era o que é hoje. Não era uma qualidade. Longe disso. Não tinha evento e mercado para nerds. Ser nerd era ser um bosta. Eu era o orgulho dos meus pais. Óculos de grau, cabelo partido no meio, sapato impecável. Eu era também um garoto trancafiado no armário, morrendo de medo do mundo, de ser descoberto, exposto e humilhado. Já havia acontecido antes, escola após escola, toda vez que minha sexualidade de alguma forma tocava a superfície. Não era por acaso que eu trocava de turma, de escola, a cada ano. Mas naquele momento, eu estava em um dos melhores colégios públicos do Brasil e eu não podia me dar ao luxo de simplesmente sair. Tinha que dar certo e eu não estava disposto a passar por todo o processo novamente. Então, depois de um ano ruim, de empurrões escada abaixo e indiretas maldosas, vieram as férias e resolvi mudar. Ia jogar o jogo.

Ser e parecer são coisas que se confundem em todo lugar. Então, raspei a cabeça. Odiei, mas era necessário. Troquei a calça social por uma velha e gasta e o sapato por um tênis que era novo, mas foi arrastado na parede até parecer velho. Descosturei os emblemas do uniforme e, embora minha mãe tivesse comprado o emblema novo, com uma estrelinha bordada, usei o antigo com uma estrela pintada a mão por cima do número seis do ano anterior. Joguei fora os óculos. Comprei lentes. Da primeira carteira, eu fui para última. Eu fiz o que, à época, achava que tinha que fazer para mudar de lado. Passei a espelhar exatamente o mesmo comportamento que "a galera do fundão" se orgulhava de ter e, ali, encontrei um novo espaço. 

Fui imediatamente aceito entre os bonitões, valentões e populares que nem sabiam que eu existia no ano anterior. O ensino médio virou a glória. Ir para a escola era viver a vida de pop star pré-adolescente. Meninas do ensino fundamental tiravam fotos nossas escondidas. A gente sabia, claro. Cheguei a vender uma foto nossa para pagar umas cervejas para os amigos. Sim, elas compravam. E, finalmente, eu não era mais o alvo. Fazia parte de uma forte rede de proteção que os meninos criaram para manter o status quo. E se você não é o alvo, camarada, você é o atirador. E eu havia tomado o lugar do opressor.

Por um ou dois anos, dia após dia, a gente escolhia um alvo e atirava. Às vezes, repetidamente. A maioria eram meninas, claro. Se alguém parecia ser gay, também virava um alvo fácil. Mas eu quero frisar a questão do sexo aqui. Havia gordos entre a gente também. Não era um problema. Mas meninas gordas? Isso era imperdoável. E, obviamente, havia homens gays também. Eu, pelo menos, ainda que no armário, era gay. Mas isso não me impedia de infernizar a vida de quem não tinha a opção do armário, ou já havia se livrado dele antes de mim. Talvez isso me alimentasse a raiva, não sei. Eu não vou tirar nomes da manga, mas uma menina em especial ainda me faz me perguntar, anos e anos depois, o quanto de dano a gente causou na vida dela, depois de todo santo dia jogar a gelatina da sobremesa em cima dela, ou colar a foto dela no mural com o título “Procura-se um homem”, ou molhar ela inteira no meio da aula com suco de groselha. Lembro também do cara que ousou notar a minha homossexualidade escondida, verbalizou isso e pagou caro na frente do colégio em uma cena bárbara que envolveu todo tipo de humilhação que eu mesmo havia sofrido anos antes. Eu nem toquei nele. Eu só olhei. Os meninos fizeram tudo. Ele mudou de colégio logo depois. Muito tempo depois disso, nos cruzamos em uma festa. Ele também era gay e, como eu, tentava oprimir para não ser oprimido, mas não tinha feito aliados antes disso e o resultado não foi bom.

Você, que está lendo isso, certamente se enquadra em um dos lados. Ou você me odeia agora ou você divide comigo a vergonha daqueles anos. Ou talvez, como eu, você tenha ficado no meio do fogo cruzado e tenha sido forçado a se ajustar – da pior forma possível – para sobreviver naquele tempo de escola. Vai saber... Seja qual for a tua posição agora, não te julgo. Eu e os meninos – tenho certeza que alguns deles lerão isso e saberão que estavam nesse grupo – merecemos cada julgamento vindo de você. Nós fomos o inferno da vida de algumas pessoas que talvez ainda vivam reflexos disso. Às vezes, nós agíamos diretamente. Lembro que um de nós, hoje muito religioso, botava fogo no cabelo das meninas na fila da merenda. Outro mirava diretamente nos professores e era certeiro. Em outros momentos, não éramos os autores, mas não impedíamos os absurdos. Seja como for, fato, a culpa era nossa.

Foi só quando fui catapultado do armário que entendi que meu lado não era aquele. Eu jamais teria espaço entre os opressores. Nascer gay me condenava, graças aos deuses, à militância, ao bom senso, à compaixão, à empatia. E graças a uma influência ou outra – que lerão isso, o que me envergonha profundamente – me transformei em um cara, acho, melhor do que aquele do colégio. Não sei por que caminhos, mas alguns dos meninos da turma que ainda tenho contato viraram caras muito legais. São pais amorosos, de cabeça aberta e sempre prontos para se fazer de escudo quando a opressão surge em qualquer lugar. Não tenho contato com todos eles. Não sei se todo mundo se salvou. Talvez alguns deles me esmurrariam se cruzassem uma esquina comigo hoje. Não sei. 

Dessa história toda, além da vergonha, do arrependimento e do karma gerado, trago algumas certezas. Uma delas é que aqueles garotos, todos eles, estavam, como eu, lutando para se esconder. Nós gerávamos o ambiente que nos alimentava e, ao mesmo tempo, nos forçava a manter aquela hierarquia distorcida. Todos ali tinham fraquezas, inseguranças, medos por trás dos atos reprováveis que praticávamos de tempos em tempos para reforçar nosso lugar naquele microcosmo. Ainda que superficiais, havia carinho, havia cuidado, havia atenção e escuta entre a gente. E, provavelmente, o medo do resto do mundo descobrir isso era parte da motivação do inferno que nós criávamos na vida alheia. A outra certeza é que os avanços civilizatórios óbvios no campo dos direitos humanos transformam o mundo para melhor. Não lembro quantas vezes fomos advertidos, suspensos, punidos, mas só quando a coisa passava muito dos limites. E os limites eram bem elásticos. Logo ali atrás, o bullying era parte do jogo e os educadores não pareciam pensar muito diferente disso. Professores e inspetores muitas vezes presenciaram nosso esforço em tornar a vida dos outros insustentável para que a nossa, ali dentro, se valorizasse. As punições eram ridículas e nós éramos os líderes dos times na Educação Física, os representantes de turma, os caras que hasteavam a bandeira na segunda-feira. Os próprios professores cediam e entravam nas “brincadeiras”. Eles se tornavam um de nós. E, assim, em algum nível, a escola legitimava nosso espaço. E isso acontecia porque bullying não era visto como um fenômeno a ser combatido. Era coisa de escola, coisa de adolescente. Normal. 

Essas memórias todas ficaram enterradas por um bom tempo. Eu mantinha amizades saudáveis com as minhas amigas – que também considero como influências que me mantinham na realidade, definitivamente importantes para que aquela fase passasse – e dessas eu lembro bem. A gente se cuidava, se amava, chorava junto, dividia segredos. São amigas até hoje e são as minhas memórias do ensino médio. Ou eram, até que 13 Reasons Why estreou no Netflix. No quinto episódio da série, que conta a história de uma menina que se matou depois de sofrer muito bullying, tudo começou a vir à tona. Eu precisava vomitar esse Rodrigo esquecido, escondido, inverso do que eu acho que sou hoje. 

Há três pessoas em especial que eu adoraria me desculpar, mas não tenho o contato delas. Uma moça e dois rapazes. Ela era gorda. Eles eram gays. Eu, gay e gordo, hoje, consciente do estrago, sem poder me desculpar, conto a história, coloco a cara à tapa. Eu fui “one reason why” de muita gente ao longo da vida. E talvez eu siga sendo em algum nível. Certamente ainda sou. Tenho ciência dos meus privilégios e do impacto que eu causo no mundo alheio só por existir. Se esse texto me desculpa? Não acho. Nada me desculpa. Vou carregar isso comigo para sempre. Mas ainda bem que hoje o assunto chegou a um ponto tal em que fantasmas são desenterrados e a gente pode contar histórias para que elas não se repitam. 

Então, para você aí que me entende ou me despreza, deixo o conselho e peço para que passe à frente: não só na escola ou na faculdade, mas também no trabalho, nos círculos de amigos, nos grupos na internet, na família... Não seja esse cara. Não seja o Rodrigo do ensino médio. Porque, acredite, é você o loser no fim da história e, lá depois da pós-graduação, décadas à frente, ainda vai doer. E não é pouco.

Leandro Faria  
Rodrigo Mariano é jornalista. Assina o jornal de uma organização de classe centenária no Centro da cidade do Rio de Janeiro, onde escreve sobre política, economia e grandes temas nacionais. Umbandista, gay, nerd, esquerdista e urso, lida com preconceitos mesmo onde, teoricamente, eles não deveriam existir e faz disso sua militância cotidiana.
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