sábado, 22 de abril de 2017

Já Ouviu Falar na Castro Burger, a Primeira Hamburgueria LGBT de São Paulo?






A primeira notícia que tive sobre a Castro Burger foi através de uma postagem no perfil do Facebook de um cara que eu stalkeava. O rapaz estava revoltado e fazia uma crítica feroz à hamburgueria, que abria suas portas em dezembro de 2016, e era noticiada pelos veículos que a divulgava como a primeira hamburgueria LGBT da cidade de São Paulo. Num primeiro momento, achei a novidade interessante, mas no decorrer da leitura daquela postagem, que acusava a lanchonete de estar incentivando uma segregação, fiquei dividido, talvez o moço tivesse razão.

Mas aí, o canal Chá dos 5 fez uma matéria ótima, indo visitar a casa, apresentando o cardápio, os funcionários e entrevistando o proprietário, que esclareceu suas reais intenções com a abertura do lugar. Fiquei super empolgado e curioso para conhecer o local.

No último sábado, estive lá acompanhado de um amigo. A lanchonete fica numa rua charmosa da Vila Mariana, a Joaquim Távora, reduto que abriga vários bares, mas a primeira coisa que me chamou a atenção é que a Castro fica um pouco afastada de onde está a aglomeração de bares. Ao chegar, fomos recebidos por uma simpática hostess trans. A segunda coisa a chamar minha atenção foi a quantidade de famílias com filhos pequenos, crianças entre 5 e 8 anos, achei o máximo. Porém, antes de ver o cardápio, nada me remetia a um ambiente LGBT, nem mesmo a hostess trans, os garçons e clientes gays, e a única garçonete lésbica, que nos atendeu. O que deu mesmo clima ao lugar foi o cardápio, com lanches e bebidas batizados com nomes de vilãs de novela, músicas e divas pop e expressões tiradas do universo gay.

Meu amigo e eu pedimos o lanche Castro, que leva o mesmo nome da casa, inspirado no famoso bairro gay da cidade americana de São Francisco. Compõe esse lanche: hamburguer de angus com fatias de panceta, cebola frita crocante, alface americana e maionese de alho e cenoura da casa. Antes, porém, eu havia me enganado no pedido e escolhi um Alcatraz (nome inspirado na famosa prisão, localizada também em São Francisco) e assim que o lanche chegou percebi o engano, e prontamente o lanche foi trocado. Comemos também uma porção de Strong Enough (conhecida canção de Cher): batatas rústicas com alecrim, alho confitado, bacon crocante com maionese de ervas da casa. Para beber, pedimos caipisakê de lichia, Babado e Confusão (suco de pepino, gengibre e mel) e Betty Faria (suco de goji barry, abacaxi e água de coco).

Os lanches não tinham nada demais, já comi melhores em outras hamburguerias. Das bebidas, a mais agradável foi o exótico suco Babado e Confusão. Já Strong Enough e as maioneses da casa foram as melhores coisas que já comi em uma lanchonete, simplesmente divinas. Um sabor único, que te dá vontade de comer em quantidades absurdas.

Outros nomes divertidos do cardápio são: Tá, Meu Bem!, Aquenda!, Bate Cabelo!, Miga, Sua Loca! (sucos); Poc Poc, Inhaí!, Fervido, Close Certo, Carão, Arraza!, Se Joga! (sobremesas); Carminha, Nazaré, Odete Roitman, Félix (lanches); Rent, Les Miserables, Mamma Mia, Cats, Evita (saladas); Believe, Chandelier, Malandragem, Dancing Days e Vogue (porções).

Apesar do cardápio dar esse toque mais LGBT, senti falta de uma decoração mais glamourosa, fervida e babadeira. Não havia nada colorido, nenhum quadro nas paredes, nem grafites, nada, tudo absolutamente neutro, em tons pastéis, com alguns espelhos, lustres bonitos e só. Comentei o fato com nossa atendente, a simpática Thaís, e ela justificou a ausência de uma decoração mais "gay", alegando que a lanchonete não se auto-rotulava como LGBT, mas como um lugar que acolhe a diversidade, onde o preconceito não entra de forma nenhuma.

Entendo que rótulos são uma droga, mas já que a Castro Burger chegou no mercado com todo esse diferencial, não seria mais fácil assumir logo tal rótulo? Senti um certo receio em espantar as tradicionais famílias que ali se encontravam, com o excesso de viadagem na decoração. Mas seria uma delícia ver tantas referências gays estampando as paredes, mesas e cadeiras, assim como o cardápio, e acho que as famílias de comercial de margarina também iriam curtir. O máximo que vi, ainda assim timidamente, foi um pequeno altar na entrada, que só percebi na saída, porque Thaís informou que tinha. Um altar com pequenos quadros estampando fotos de Elke Maravilha, Laverne Cox, Daniela Mercury, David Bowie, Ellen DeGeneres, Elton John, Frida Khalo e Ney Matogrosso.

O grande mérito da Castro Burger é abrir as portas do mercado de trabalho para pessoas marginalizadas como travestis e transexuais, e em tempos de descarada homofobia em famosas redes de fast foods, pensar nesse ambiente acolhedor e diverso. 

Minha avaliação geral, numa nota de 0 a 10, analisando com base em minha expectativa em relação a um todo, dou nota 7,5. Esperava me surpreender mais com os lanches, encontrar um ambiente menos blasé e mais divertido. Saí sem nenhuma vontade de voltar, a não ser pela porção maravilhosa de Strong Enough e aquelas maioneses dos deuses. 

Outro detalhe importante que já ia esquecendo de comentar, a música ambiente, adorei. Da MPB de Simone, com Migalhas, ao sertanejo Evidências, de Chitãozinho e Xororó, passando pela inexorável True Colors, de Cindy Lauper, tudo me agradou. E mesmo não tendo sido uma experiência tão marcante como eu esperava, recomendo, vale conhecer a Castro Burger, mais uma opção nesse mundão de coisas que São Paulo oferece. Torço para que logo se torne um grande diferencial e não só mais uma opção na cidade.

Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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