quinta-feira, 13 de abril de 2017

Mais Que Apenas 13 Razões





Que o Netflix vem mostrando seu brilhantismo em todas as suas produções, não entra mais em discussão. Todos sabem. Eles criaram a fórmula do sucesso e estão no auge de sua glória. O benefício é nosso, é do espectador. E no último dia do mês de março foi a vez da série 13 Reasons Why ser lançada. Inédita e de uma vez, foi engolida por muita gente. 

13 episódios de pouco mais de uma hora. Um dia de maratona? Dois, talvez? Muitos não conseguiam parar de ver. A série é muito boa. É muito bem escrita e muito bem produzida. Ela começa meio lenta e acelera. É difícil não ficar curioso pro desfecho que só é revelado no fim. Mas, contrariando as expectativas, eu demorei uma semana para terminar. Não foi por falta de tempo. Não foi por desinteresse. 

13 Reasons Why é muito mais do que apenas uma série. Enquanto as pessoas reclamavam da lentidão do protagonista Clay em ouvir as fitas, eu entendia exatamente o que aquele menino de 17 anos passava. Eu não conseguia ver mais do que um episódio seguido: meu coração doía. Meu estômago embrulhava e eu podia sentir a dor daquela ficção tomando vida dentro de mim. Porque os atores, também jovens, deram uma outra forma àquela história. Não seria mais uma história adolescente. Não seria mais um final feliz. Não seria mais uma ficção. E não foi, mesmo.

A série não foi feita pra pessoas como eu, adulta e sem filhos. Pra mim, ela pode ser só um entretenimento. A série precisa ser assistida por esses adolescentes que estão ali na tela. Pelos tantos Bryces, Justins, Jessicas, Clays e Hannahs da vida. Porque eles sim podem ser impactados agora. Eles podem impedir um suicídio. Eles podem assumir uma responsabilidade.

Eu não lembro de ter sofrido bullying na escola, mas tenho a vívida memória de outras pessoas sofrerem. Talvez eu tenha sofrido e aprendi a ficar calada. Talvez eu tenha apagado isso da minha lembrança. Mas eu não faço ideia de como essas pessoas, que sofreram esse tipo de agressão, superaram. Será que fizeram terapia? Será que conversaram com os pais? Será que morreram? (e um texto muito honesto de mea culpa, também inspirado pela série, pode ser lido no texto Eu Fui Um dos Motivos, nesse link)

A série foi feita pros pais, também. Kate Walsh, deslumbrante, me devastou como a mãe de Hannah. Sem me prender às cenas que são tão reais, pra não cometer a gafe de soltar spoiler, fico lembrando, repetidamente, do seu olhar. O contraste entre passado e presente na série faz o olhar dela ser tão diferente e tão tocante, que é impossível você não chorar. É impossível você olhar uma mãe, morta por dentro, e não pensar se um dia você não causou isso. Ou se você não pensou na sua própria mãe, perdida, como ela. 

Porque adolescente não sofre, não tem dor - é drama. Ninguém leva a sério a angústia dessa fase. Ninguém ouve, ninguém fala. Você só precisa estudar e não decepcionar ninguém. A escola não lida com a dor, os pais não têm tempo. Como é difícil se tocar que a vida passa tão rápido, e como é difícil perceber isso quando alguém se vai. 

Então eu pausava, como Clay, porque a dor contada nessa história é muito mais comum do que parece. Não é a dor do bullying. Do coração partido. Da traição. De não ser popular. Não é a dor física. É a angústia de não fazer parte de nada. De não poder pedir ajuda porque quando você não pertence a um lugar, você está sozinho. Você tem pessoas por perto, mas você não pertence a elas. Nem elas a você. Quando você não pertence, você não tem controle. E quando você perde o controle, não tem muitas saídas. Retornos. Meia volta e recomeços. Quando o controle acaba, você acaba junto. 

Eu demorei uma semana. Se fosse adolescente, talvez não tivesse conseguido chegar ao fim ainda. Não se engane se você achar que alguém ali teve mais culpa do que o outro. Você é cada um desses personagens. Eu também. Todos nós. Em algum momento da vida, nós fomos um deles. Devolver o controle aos adultos, que já perderam a esperança, pode ser tarde demais. Que façamos isso, então, com os jovens. Com quem fica. 

Pais: prestem atenção em seus filhos. Conversem com eles. Mudem esse final.

Leia Também:
Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: