sábado, 29 de abril de 2017

R.I.P. Jonathan Demme






Eu tinha outros temas sobre os quais queria escrever essa semana, mas a notícia da morte do cineasta Jonathan Demme me deixou bem triste, e o fato de não ver nada na minha timeline sobre o ocorrido, me deu vontade de fazer uma singela homenagem in memorian a esse diretor sensível e inteligente. Curioso como poucas coisas foram postadas sobre sua morte (em minhas redes sociais, absolutamente nada), em tempos em que todos querem comentar e emitir opinião sobre tudo.

Nascido em Nova Iorque, em 1944, Jonathan Demme morreu na última quarta-feira, 26 de abril, aos 73 anos, devido a complicações relacionadas a um câncer de esôfago, do qual sofria há algum tempo. Realizador de belas obras cinematográficas, Demme teve seu maior êxito e reconhecimento com o thriller de terror psicológico O Silêncio dos Inocentes, que lhe rendeu o Óscar de Melhor Diretor, em 1991, levando as cinco principais categorias da premiação daquele ano, fato inédito desde 1975. Mas, confesso, que até hoje não assisti ao filme que consagrou Anthony Hopkins como o maior serial killer lunático e psicótico do cinema que você respeita. Tinha pavor de Hannibal Lecter e, por muitos anos evitei assistir a filmes com o ator, a feição de Hopkins me causava calafrios seja em qual papel fosse. Ainda hoje sinto um pouco de medo, tudo graças a sua assombrosa atuação no filme de um diretor de aguçado talento.

Da crueldade animalesca do canibal vivido por Hopkins ao drama delicado de Andrew Beckett, promissor advogado que é despedido de um grande escritório da Filadélfia, quando descobrem ser ele portador do vírus da AIDS, Jonathan Demme nos brinda com sua versatilidade, em seu emocionante trabalho seguinte, o importante e tristíssimo Filadélfia, de 1993. A atuação arrasadora de Tom Hanks lhe trouxe o primeiro Óscar de Melhor Ator. A história também venceu como Melhor Filme naquele ano, além de levar a estatueta de Melhor Canção por Streets Of Philadelphia, de Bruce Spreengsteen. A memória afetiva que esse filme me traz é muito profunda: assisti-o no cinema aos 12 anos de idade, com meu pai, com quem tive uma relação complicada ao longo de nossa convivência, mas que despertou em mim a paixão pelo cinema, ao me levar nas sessões desde muito menino. E aqueles eram momentos só nossos. Se não combinávamos em mais nada no nosso dia a dia, dentro de uma sala de cinema, falávamos a mesma língua. Nem eu, nem meu pai sabíamos do que se tratava a história de Filadélfia, fomos conferir porque gostávamos de Tom Hanks e Denzel Washington, os protagonistas do filme, mas ver meu pai emocionado, enxugando discretamente as lágrimas diante daquela história que falava de preconceito e discriminação, foi uma das coisas mais tocantes que já presenciei na vida. Até hoje guardo o CD com a trilha sonora cheia de melancolia, que me desperta ternas recordações, e este filme é o grande motivo desse texto.

Mas a sensibilidade do diretor rendeu outro bom drama já nos anos 2000: O Casamento de Rachel, de 2008, recebeu indicação ao Oscar para Melhor Filme, assim como a impressionante atuação de Anne Hathaway para Melhor Atriz. Parece que Demme tinha o toque de Midas, muitos atores que trabalhavam com ele se não eram premiados ao menos recebiam indicações. Sem dúvida, um diretor de grandes filmes e magníficos atores, que encerrou sua carreira dirigindo a rainha Meryl Streep, na comédia dramática Rick and the Flash: De Volta Pra Casa, de 2015.

Entre seus muitos trabalhos, Jonathan Demme também foi responsável pelos títulos: Sob o Domínio do Mal (2004), O Segredo de Charlie (2002), Bem Amada (1998), De Caso Com a Máfia (1988) e Totalmente Selvagem (1986). Bastante envolvido com música, ele também dirigiu o filme concerto Stop Making Sense (1984) protagonizado pelo grupo nova-iorquino Talking Heads; no ano seguinte esteve à frente do vídeo promocional do single The Perfect Kiss, da banda New Order; e com o amigo pessoal Neil Young, dirigiu três documentários sobre a carreira do músico: Heart of Gold (2006), Trunk Show (2009) e Journeys (2011). Também foi de Neil Young, Philadelphia, uma das duas canções do filme homônimo, a ser indicada ao Oscar 1993, que perdeu para Streets of Philadelphia, o clipe da música - marcante por trazer Bruce Spreengsteen cantando a canção ao vivo pelas ruas da cidade - também foi dirigido pelo próprio DemmeDessa forma, Jonathan Demme uniu cinema e música como poucos. 

Deixou um belo legado para a arte. Que descanse em paz!

Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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