domingo, 2 de abril de 2017

Silvestre




Começou a sair mais e a conhecer mais gente. A abraçar outros meninos e beijar outras bocas, mas a lembrança daquele primeiro beijo ele nunca esquecera. Guardara em seu coração e deixava vir um sorriso nos lábios quando pensava naquele momento. Seria sempre assim? Com um doce sorriso nos lábios? Quem sabe, mas o tempo, às vezes, também apaga muitas coisas. Tinha se concentrado em outras atividades, a vida adulta não era nada fácil. Agora morava só, perto do centro onde podia receber os amigos.

Ao sair de casa aquela manhã esbarrou com o vizinho ao lado de um moço bonito, com um sorriso maroto e barba por fazer. Mas com grandes olhos negros e penetrantes. Por um instante achou que o conhecesse de algum lugar, mas não conseguia recordar de onde seria. Os três pareciam ir para o mesmo lugar, contudo, na esquina, seguiram caminhos opostos e Silvestre se voltou para olhar mais uma vez para o rapaz, ainda tentando lembrar de onde o conhecia, eles caminhavam devagar até sumirem de seu alcance. 

Novas ideias surgiram em sua mente, estava disposto a mudar algumas coisas e sabia que agora seria diferente. Ele não precisava mais ser outra pessoa, de repente, descobria que estava feliz sendo ele mesmo. Sendo assim, resolveu fazer algo por ele mesmo. Ao invés e voltar pra casa, passou no mercadinho para buscar algumas coisas para o almoço. Ao tentar alcançar o pacote da lasanha na prateleira, alguém teve a mesma ideia. Duas mãos se esbarraram.

- Desculpe, pode pegar.
- Tudo bem, pode pegar.
- Faço questão!
- Você primeiro.
- Isso tudo está ficando engraçado.
- Por que?
- Imagine se ninguém sabe que estamos falando de lasanha?

Sorriram.

- Bolonhesa?
- Tão óbvio assim?
- Tem carne moída no seu carrinho.
- Claro! Que estúpido eu sou!

Sorriram novamente.

- Infelizmente resta apenas este pacote da marca que queremos. Ou um de nós se contenta com outra similar, mas inferior, ou dividimos. O que me diz?

Antes que pudesse responder qualquer coisa, Silvestre pode ver Paulo indo embora ao lado de seu acompanhante e, mesmo de longe, ele se lembrou de onde o conhecia e sabia que se o rapaz quisesse erguer os braços poderia voar.

Esta é a história de Silvestre. Mas poderia ser a sua.

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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