segunda-feira, 10 de abril de 2017

Sobre Perdas e Aprendizado





Ando pensando nos meus queridos. Não aqueles que me rodeiam e que me fazem feliz, mas, especificamente, aqueles que já se foram. Meus avós, em especial. Sonhei esses dias com a minha avó paterna, falecida tem quase sete anos, e as lembranças dela tem me inundado. E, escrever é uma forma de lembrar e de eternizar, não é mesmo?

O que acho irônico é como a vida faz certas coisas. Tudo parece bem e, de repente, você é obrigado a confrontar situações para as quais não estava preparado e, sem ter muito o que pensar, apenas aceitar que aquilo aconteceu.

Perdi meus avós em um curto espaço de tempo. Meu avô, pai de meu pai, morreu em 2009. Aconteceu, mas a vida seguiu. Alguns meses depois, minha avó, mãe da minha mãe, também faleceu. Essa avó era o que poderia definir como uma típica: cabelos brancos, velhinha, doce. Mas, adoentada, sua morte não nos pegou de surpresa e não foi tão impactante (se é que perder alguém querido pode não ser impactante). Duas perdas num curto espaço de tempo, para as quais eu nunca havia me preparado. Meu outro avô, pai de minha mãe, havia falecido quando eu era bem pequeno e, sinceramente, minhas recordações dele são muito reduzidas.

Restou minha avó, mãe do meu pai. Ela, ao contrário da outra, fugia totalmente do estereótipo que você possa fazer mentalmente de uma avó. Boca suja, divertida, ativa, era, sem sombra de dúvidas, a pessoa que mais me admirava no mundo. Sou seu neto mais velho, o primogênito de seu filho primogênito. Sim, fui muito mimado por aquela velha maluca que eu tanto amo.

E o engraçado é que eu nunca imaginei o mundo sem a sua presença. Sei lá, com meus outros avós eu tinha outra visão, sabia que iam acabar nos deixando uma hora ou outra, mas com ela eu não conseguia visualizar isso. Até mesmo quando ela brincava dizendo que quando morresse não ia querer chororô desmedido nem muitas velas, que fazia questão que nos lembrássemos dela viva e cheia de energia, eu ria e pensava: ‘isso não vai acontecer tão cedo.’

Mas eis a ironia dessa vida, que, vez por outra, faz questão de nos lembrar quão frágeis e finitos somos. Na segunda metade de 2010, depois de passar com sucesso por uma cirurgia que, aparentemente, era bem simples, três dias depois minha querida avó sofreu um ataque cardíaco e não sobreviveu.

Lembro-me de acordar com uma ligação da minha mãe me contando isso e fiquei anestesiado, sem entender como isso podia acontecer. Não, eu nunca imaginei o mundo sem a minha avó. Não, eu não estava preparado para seguir em frente, sem saber que, mesmo distantes, ela estaria lá, feliz, rindo, debochando do mundo à sua volta.

No velório, a dor. Uma dor intensa, forte. Lágrimas, choro, soluço. Acho que nunca senti tanto uma perda na minha vida como senti a morte da minha avó naquele dia. Entretanto, mesmo nesse momento de tristeza, vez por outra era fácil sorrir ao lembrar de como ela se comportaria se visse toda aquela situação. No mínimo, ela estaria se divertindo e mandando todo mundo tomar vergonha na cara e não exagerar tanto na dose, porque, convenhamos, não era para tanto. Minha linda avó, minha doce avó. Minha amada avó.

Mas ela se foi, os anos passaram e a vida, sempre a vida, seguiu em frente. Mas eu a levo comigo dentro do peito e nas minhas mais belas memórias. Momentos únicos e particulares, tão nossos e tão significativos. Ela fazendo pipoca para mim, me defendendo, me elogiando, me mimando e tomando meu partido por qualquer motivo que fosse. 

E não me lembro dela doente ou convalescente, afinal, ela se foi exatamente como sempre disse que iria: em seu auge, como um artista que sabe a hora de dizer adeus. E em minha memória, sempre me lembro daquela senhora desbocada, sentada numa cadeira em sua varanda, morrendo de rir e me falando as maiores barbaridades. Porque ela sim soube viver e foi feliz!

E nós, o que temos feito para sermos felizes também? É o que me pergunto sempre. Diariamente.

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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