sexta-feira, 7 de abril de 2017

Todo Carnaval Tem Seu Fim? (ou Salve a Mocidade!)




Eu jurei que não tocaria mais em assuntos carnavalescos neste ano, mas assim como 1968 “foi um ano que não terminou”, o carnaval de 2017 está longe ainda de ter fim, pelo andar da carruagem (alegórica, claro). Neste momento, Joaosinho Trinta, Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto devem estar chocados com tantos assuntos bombásticos. Nunca se viu, em toda a história dos confetes e serpentinas, um carnaval tão longo.

O Carnaval de 2017 foi estranho. Desde o início do ano não senti a cidade festiva. Sei lá, estava faltando alguma coisa. Talvez pela crise, o clima de insegurança, os protestos de funcionários públicos, a cidade quase sitiada, não sei. Havia uma certa nuvem negra pairando pelo ar. No corre-corre dos acontecimentos diários, quando nos demos conta, já era carnaval. E nem deu para criar aquela contagem regressiva. O próprio prefeito recém-empossado (que, bem da verdade, acha carnaval um saco) nem deu muita bola: sequer apareceu para a tradicional entrega simbólica da chave da cidade para a Corte de Momo.

E, após os fatídicos acidentes que aconteceram bem na minha frente, no setor 1 com o carro desgovernado da Paraíso do Tuiuti e do desabamento da alegoria da Unidos da Tijuca, a festa deu uma broxada ainda maior. O clima pesou e nem com muito citrato de sildenafila deu pra subir o ânimo. Ivete deu uma sacudida, o incrível Aladin da Vila Vintém surpreendeu mas, mesmo assim, a depressão retornava, principalmente quando lembrava das pessoas amigas que estavam trabalhando e/ou se divertindo e que, por uma irresponsabilidade de terceiros, sofriam em um leito de hospital.

Na quarta feira de cinzas, soubemos que a águia ganhou o campeonato que não vinha sozinho desde 1970. Alegria total em Madureira (que também foi ampliada com o retorno da coirmã Império Serrano à elite do grupo especial) e a festa dando continuidade com as bombásticas e inesperadas troca-trocas de carnavalescos, coreógrafos, casais de mestre-salas e porta-bandeiras. Acredito que nunca se viu tanto vaivém de um barracão para outro. Rosa Magalhães saiu da São Clemente e foi para a Portela, Paulo Barros saiu da Portela e foi para a Vila Isabel, Alex de Souza saiu da Vila e foi para o Salgueiro, Renato Lage saiu do Salgueiro e foi para a Grande Rio, Fábio Ricardo saiu da Grande Rio e foi para o Império Serrano... Ufaaaaa. Quando percebemos, já tinha passado mais da metade do mês de março e o carnaval ainda não havia terminado.

Quando todos achavam que as coisas estavam mais tranquilas, o melhor da festa apareceu: os inacreditáveis e hilários áudios que viralizaram no WhatsApp e demais redes sociais de uma transloucada Rosa Magalhães telefonando para o presidente da Liesa, Jorge Castanheira. Claro que tudo era uma mentirinha, mas foi tão divertido que se tornou a coisa mais legal da chocha festa. Até a lendária carnavalesca se divertiu com a brincadeira. “Mas, afinal, eu sou tão desbocada assim?” indagaria.

Saem então as inacreditáveis justificativas dos julgadores; talvez, o momento mais esperado depois da leitura das notas por Jorge Perlingeiro, que há quase 25 anos repete o bordão “dez, nota deeeeez” criado pelo seu antecessor, Carlos Imperial. E aí... Fudeu tudo. Na justificativa do julgador Valmir Aleixo, que analisava o quesito enredo, ele disse ter descontado 0,1 da Mocidade Independente de Padre Miguel porque a escola não apresentou um destaque de chão como estava previsto no livro Abre-Alas, um documento que traz todas as informações sobre os desfiles das agremiações.

O maior problema foi que, por conta daquele décimo descontado, abriu-se um erro abissal. O julgador não se atentou que aquele documento era uma versão antiga e que a escola da zona oeste havia apresentado um novo, entregue dentro do prazo. E se ele entendesse um pouquinho (só um tiquinho) de carnaval, saberia que a tal “destaque” era Camila Silva, alçada ao posto de rainha no lugar de Carmen Mouro. Ou seja, obviamente ela não poderia estar ali. Caso tivesse dado a nota máxima, Mocidade e Portela teriam terminado empatadas e, no critério de desempate, o título seria da Mocidade; portanto, aquele 1 décimozinho faria toda a diferença. 

A verde e branco entrou com um recurso denunciando o erro e reivindicou a divisão do campeonato. Não foi questionado o título da Portela. Mesmo que fosse, a Mocidade ainda estaria dentro de seu direito. E, numa forma de admissão do erro, a Liesa decidiu, em reunião extraordinária na noite desta quarta-feira, que a divisão era justa. Por sete votos a 1, os representantes das escolas aceitaram o recurso da Mocidade e a escola foi sagrada campeã junto com a azul e branco de Madureira.

Apesar de ter ficado decidido de que não haveria divisão do prêmio em dinheiro (que a essa altura já deve ter sido torrado mesmo) e não ser confeccionado outro troféu (que deve estar debaixo do braço da chorosa Tia Surica), a Mocidade, que havia conquistado o último título em 1996 e não retornava ao desfile das campeãs há 14 anos, pôde, enfim, soltar o grito de campeã moral do carnaval mais tenso de todos os tempos, em uma nova quarta-feira de cinzas em final de quaresma.

Os dirigentes da Portela já afirmaram que vão recorrer contra a decisão. Ou seja, o carnaval ainda está muito longe de acabar. E olha que faltam pouco mais de 300 dias para o Carnaval 2018...

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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