sábado, 27 de maio de 2017

A Eternidade das Canções e a Nossa Finitude






No banheiro, ligo meu Spotfy, entro no chuveiro e a seleção de músicas dos anos 80 e 90, me faz ter a noção exata da nossa triste finitude, ao mesmo tempo em que constato a eternidade de uma bela canção. Toca Nothing Compares To You, da Sinéad O'Connor, que sempre me arrepia, e aí eu choro um pouco. Minhas lágrimas se misturam com a água do chuveiro caindo sob a minha cabeça enquanto eu penso:

Caralho, eu tinha menos de 10 anos quando essa música foi lançada, em 1990, e a intensidade com a qual essa melodia mexia comigo, mesmo sem entender nada, nem sequer imaginar o que podia dizer a letra, é a mesma que sinto agora.

Então concluo que música não envelhece. O tempo passa pra nós. Envelhecemos, ficamos ultrapassados, mas aquela velha canção permanece, fica pra sempre, embalando histórias e mexendo com os corações de geração após geração.

Nunca é doce a consciência nua e crua do nosso fim em comparação com o que é perpétuo, aquilo que continua sem nós. O que é maior e muito mais poderoso que a nossa vida, que passa feito um sopro, como a música. Essa expressão artística que embala nossas dores e amores faz parte de nós, de todo o ciclo que fazemos parte no espaço de tempo enquanto nosso coração bate e o sangue corre por nossas veias.

Temos as nossas canções, aquelas que nos apropriamos e que dizem tanto sobre nós que não podem ser de mais ninguém, morremos de ciúme quando outra pessoa também se apropria dela e afirma como aquela nossa canção traduz sua vida. Gostamos de acreditar que descobrimos uma música ou um cantor(a) que ninguém mais conhece, um achado maravilhoso, exclusivo, que perde aquela aura especial quando pessoas demais passam a ouvir e gostar, desvendando a magia daquela canção.

O que eu queria na verdade era que música não fosse eterna. Que existisse apenas no meu tempo, no tempo de cada um de nós, e morresse junto com a gente, com a nossa história e a nossa época. Que pudesse ser cremada e como nós virar cinzas, e ser espalhada pelo mar ou ficar guardada num potinho de porcelana em algum recanto da casa de quem nos amou.

Há um egoísmo nesse desejo, de não compartilhar com as futuras gerações as canções que contaram minha história. Mas se assim fosse, outras tantas canções e cantores que marcaram vidas antes da minha existência, não teriam chegado a mim e tocado no ponto exato de inúmeras emoções que já senti. 

Jamais teria descoberto que Crazy, sucesso na voz de Julio Iglesias em meados dos anos 90, que antes havia sido gravada por Patsy Cline, cantora americana de voz doce, nos anos 50, três décadas antes do meu nascimento. Também não teria me apaixonado por Suspicious Mind, gravada por Elvis Presley em 1969, somente no ano de 2011. E tantas outras como Nina Simone, Dinah Washington, Thelma Houston, que não são do meu tempo, mas são de todos os tempos, e por isso tive a chance de ter uma história com cada uma delas.

A criança e o adolescente que fui, pulsam dentro de mim quando ouço Listen To Your HeartIt Must Have Been Love e Speding My Time, do Roxette, Time After Timeda Cindy Lauper, Faz Parte do Meu Show Codinome Beija-Flor, do Cazuza e uma porção de músicas da Legião Urbana. As lembranças dessas pessoas que fui pulsa e machuca, porque me lembram que o tempo passou, e embora meus desejos e sonhos ainda sejam os mesmos, a areia que escorre na ampulheta da vida está se esvaindo e talvez o tempo que resta seja curto pra tanto querer não concretizado. 

E quando eu fechar meus olhos em definitivo, todas essas canções estupendas continuarão soando por aí, mandando seus recados como uma premonição sombria ou uma mensagem de amor. 

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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