sábado, 13 de maio de 2017

A Rivalidade Gay no MasterChef Brasil







Pensei nesse texto há umas três semanas, quando percebi uma certa implicância do participante Douglas, o galeguinho topetudo do Rio Grande do Sul, com relação a Leonardo, o gordinho do interior de São Paulo, no reality culinário, MasterChef Brasil. Assim que notei a implicância gratuita, minhas anteninhas logo se acenderam. Pronto, estava estabelecida uma rivalidade há muito conhecida no meio LGBT. Uma rivalidade desnecessária e absolutamente vergonhosa, que muitas vezes passa despercebida pelos heterossexuais, muitos nem imaginam, mas é a coisa mais comum do mundo entre gays.

Douglas reproduz no programa a exata segregação que vivenciamos no dia a dia dentro da comunidade (detesto essa palavra, mas é o que somos mesmo, uma grande comunidade desunida por preconceitos toscos entre nós mesmos) LGBT. Aquela onde você se encaixa num padrão e menospreza tudo o que está fora dele.

Douglas tem 25 anos, é branco, loiro, de olhos claros, faz a linha fashionista. Bastante vaidoso, ostenta um topete enorme e escorrido caindo na testa, e está sempre com sapatos estilosos, chamando até mesmo a atenção dos jurados. Seu comportamento é o da bicha afeminada e espirituosa, sempre com tiradas espertas e venenosas, que o tornam o queridinho de muitos participantes. Mas quem conhece esse tipo na vida real, sabe que pode não ser tão legal quanto parece.

Já Leonardo, de 22 anos, é negro, gordo, tem o cabelo alisado, é extremamente focado no jogo. Apesar de simpático e bem humorado, não chega a ser o queridinho dos colegas, sua companheira mais próxima é Mírian, a participante mais velha da competição e pouco benquista pelos demais. Leonardo é seguro, não faz panelinhas, detesta provas em equipe e já foi bastante elogiado pelos jurados (principalmente pela exigente Paola) por seus pratos e sua postura na cozinha. Aparentemente é mais simples que Douglas e passa a impressão de estar no programa interessado mesmo na vitória e não em dar close.

O curioso é que ainda na fase de seleção, depois que passaram pelo primeiro teste solo, Douglas e Leonardo fizeram o segundo teste juntos, e ali acreditei que seguiriam unidos no programa. Que nada. Logo Douglas tratou de se afastar de Leonardo e deixar bem clara sua aversão ao colega. Expondo em depoimentos e cochichos com outros participantes o desejo de vê-lo eliminado. Enquanto isso, Leonardo permanece impassível diante do veneno de Douglas, nunca abriu a boca para falar do coleguinha (não que eu me lembre), está mais preocupado com a comida e a competição.


Talvez o que incomode Douglas mesmo, é o fato de, apesar de sua aparência de principezinho dos pampas vindo de família abastada, o despojado Leonardo cozinhar melhor e ser um competidor mais forte que ele. Leonardo não quer chamar a atenção por sua beleza ou gracejos, talvez não seja bonito nem atraente aos olhos de Douglas, mas demonstra mais talento e seriedade na cozinha, conquistando a credibilidade dos jurados, e para alguém tão vaidoso como Douglas isso irrita bastante.

Mas não é só isso, há algo mais profundo e torpe no comportamento de Douglas, que denuncia o quão desprezíveis nós gays podemos ser, assim como qualquer ser humano errante e cheio de defeitos que somos, mas com nossos próprios pares acho inadmissível e de uma mediocridade lamentável.

No meu entendimento, Douglas expõe um preconceito pelo que é diferente dele, por alguém que está distante dos padrões de seu interesse, seja intelectual, sexual ou amoroso. Desta forma, ele o transforma em seu rival dentro de um jogo onde criar laços é inevitável e pode fazer muito bem. Nesse quesito, ele escolhe estar mais próximo de Vítor V., outro participante gay, tão gay quanto os outros dois, mas muito mais nos padrões de Douglas do que Leonardo. Independente de ser gays, os três não poderiam ser amigos e torcer um pelo outro? Poderiam, mas Douglas tratou de montar sua própria panela e deixar o tempero indesejado de fora, que em sua opinião não combina com o sabor que ele está acostumado a degustar sempre. Assim, o diferente que pode ser surpreendente e delicioso não entra no cardápio, e tudo fica sempre igual, no mesmo padrão, sem graça nenhuma.

Não estou falando de comida. Estou falando de gente. Gente que segrega mesmo estando dentro de um grupo já segregado. São as subdivisões dentro de um grupo já dividido do majoritário grupo heterossexual. É o branco que não gosta do preto, que não gosta do rico, que não gosta do que nunca foi a Europa, que não gosta do bombado, que não curte o intelectual, que despreza o de direita, que detesta o favelado, que não curte o afeminado, que não gosta da sapatão, e seguimos num ciclo sem fim onde impera a falta de empatia. Empatia, palavra de significado tão bonito e poderoso, que poderia mudar o mundo, não temos fora do meio, não temos dentro do meio. Aonde vamos parar? Por menos Douglas no mundo e mais amor, por favor!

A propósito, Douglas foi eliminado no programa da última terça-feira. Leonardo permanece como forte concorrente. Parece que o jogo virou, né queridinha?

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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5 comentários:

rodsiconha disse...

Discordo. Não vi, em momento algum, o Douglas sendo escroto. Aliás, a cada episódio vejo o Leo fazendo comentarios recalcados e invejosos em relação aos outros e falando mal de vários.

welbert morato disse...

O Douglas é extremamente simpático comigo no Twitter. P mim, quem passa a imagem de antipático é o Roger. Ele me chamou de feio apenas pq eu critiquei o mal humor dele diante das câmeras.

Carlinha Figueiredo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlinha Figueiredo disse...

Perdendo tempo de ficar calado.
Leo sempre foi manipulador e invejoso.
Acho que você está olhando pro Douglas com um pouco de parcialidade. Talvez um pouco de *desejo de ser*. Brasileiro tem essa mania de se vitimizar e de dar glórias aos "coitados", torcer pelos "fracos"...
Douglas foi maravilhoso como cozinheiro e como pessoa!
Leo é ótimo cozinheiro também, mas não acho que seja esse exemplo de caráter e moral elibada.

Todo mundo ali usa estratégias para permanecer, não acho que as do Douglas sejam mais radicais do que as do Léo, que ficou isolado por que todos perceberam que ele jogava com uma maldade além dos demais.

No mais, "seja menas"!

Carla Mpc disse...

Concordo plenamente com o seu texto. Amei. Parabéns!