sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Trilha Sonora das Férias - Um Prólogo





Em todas as minhas férias sempre dou um jeitinho de sumir do mapa.  Mesmo com o pavor que é minha marca registrada, entro em um avião e escolho um destino.  Férias só são férias se eu entrar num bichão desses de tantas toneladas e (re)descobrir o que o mundão nos oferece.  Nas próximas colunas estarei relatando um pouco do que foram as minhas férias que terminam nesta sexta-feira (sim, já estou com depressão pós-férias) e dando algumas dicas imperdíveis.

Mas hoje, a coluna é como uma espécie de prólogo.  Resolvi falar um pouquinho de algo que as pessoas não se ligam muito quando vão viajar e, garanto pra vocês que se vocês começarem a exercitar isso, terão férias inesquecíveis.

Todo mundo aqui já sabe que eu sou apaixonado por música.  Toda vez que eu me programo para viajar, monto uma trilha sonora para as férias.  Algumas cidades já estão com algumas canções encrustadas em sua paisagem como por exemplo, Música Urbana, quando piso em Brasília:  “as ruas tem cheiro de gasolina e óleo diesel / por toda a plataforma / você não vê a torre”.  Outra canção que remete à capital é a homônima Brasília, da Plebe Rude... “Brasília tem centros comerciais / Muitos porteiros e pessoas normais / As luzes iluminam os carros só passam / A morte traz vida e as baratas se arrastam / Os prédios se habitam as máquinas param / As árvores enfeitam e a polícia controla”.  Já em Curitiba, a minha cabeça não para de rodar Cold, dos britânicos do The Cure, e por aí vai.

Mas o engraçado foi que, nessas últimas férias, especificamente, eu deixei para fazer a trilha sonora quando chegasse lá.  E foi bem divertido.  A minha jukebox mental* ficou sintonizada no ambiente. Na minha segunda parada das férias, em São Paulo, quando fui lançar o meu livro Troco a bituca por duas jujubas, ouvi uma antiga canção do Guilherme Arantes no caminho para o hotel, dentro do táxi.  A canção era Cuide-se bem, do álbum de estreia do compositor paulista, gravada em 1976.  Não há como esquecer aquela melodia assobiável totalmente progressiva a la Yes e Emerson, Lake and Palmer atrás da letra bobinha “Cuide-se bem /perigos há por toda a parte / e é bem delicado viver de uma forma ou de outra / é uma arte como tudo / cuide-se bem, tem mil surpresas a espreitar / em cada esquina mal iluminada, em cada rua estreita / em cada rua estreita do mundo” até chegar naquele refrão que ao mesmo tempo é pungente e solar “pra nunca perder esse riso largo / e essa simpatia estampada no rosto” (ouça aqui - http://bit.ly/1dW91Fv).

Quando cheguei ao hotel, fui buscar na internet esse álbum que infelizmente está esquecido lá na memória da música. E esse disco acabou se transformando na trilha sonora da maioria dos locais que estive em São Paulo.  É neste disco que tem a clássica e inesquecível Meu mundo e nada mais, revelando que ele já chegou “botando banca” mesmo.  Narrada em primeira pessoa, conta sobre as decepções, sofrimentos, depressão e as mudanças de determinados conceitos.  “(...) Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto / à meia-noite, à meia luz / sonhando! Daria tudo por meu mundo e nada mais (...)". Maravilhosa!

O álbum, que foi remasterizado em 2010 para CD, é uma relíquia.  O disco abre também com a ótima A Cidade e a  Neblina: “Na neblina a cidade amanheceu / Sonolenta como os últimos boêmios / E os primeiros trabalhadores matinais / Com seus gorros, capotões e cachecóis / A neblina dá uma certa imprecisão / A paisagem fica sem definição / As capelas e os velhos casarões / Na neblina ficam sobrenaturais / Qual, qual de vocês não acha belo / Quando ela desce / Quando ela deixa tudo translúcido?”... Ah, coisa “marlinda”! (Ouça aqui -  http://bit.ly/2r4cusk).

Bem, não quero me antecipar aos próximos textos do Barba Feita, quando vou apresentar algumas canções nos textos, mas tinha que mostrar aqui nesta coluna a minha paixão pelo Guilherme Arantes, que está aí até hoje na ativa, influenciando talentos contemporâneos como o capixaba Silva.

Infelizmente, a população não valoriza muito seus artistas.  Quando se vão dessa, como aconteceu recentemente com Jerry Adriani, Belchior e Almir Guineto, todo mundo vira fã e lamenta. 

Então, procurem esse disco e ouçam.  É uma grande crônica sobre a cidade.  E, se forem viajar, busquem fazer suas trilhas.  Garanto que, além das fotos registradas, a música terá sempre uma participação especialíssima. 

* termo utilizado várias vezes no (sensacional) romance Quem vai ficar com Morrissey, de Leandro Leal.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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