quarta-feira, 31 de maio de 2017

A Tropa, Uma Peça de Gustavo Pinheiro





Depois de algum tempo sem conseguir conciliar as agendas, na última sexta-feira (19/05) fui assistir à peça A Tropa, no teatro SESI, na Rua Graça Aranha, Rio de Janeiro. O texto é de Gustavo Pinheiro, que durante anos foi meu colega de empresa, e ganhou a etapa carioca da 7ª edição do Concurso de Dramaturgia Seleção Brasil em Cena. E, longe de qualquer rasgação de seda, a peça é um inspirado ensaio sobre relações humanas e sociais, e uma bela reflexão sobre empatia.

Tendo apenas um ator de maior fama no elenco (Otávio Augusto), a peça dirigida por Cesar Augusto conta a história de quatro irmãos que se encontram com o pai (vivido por Otávio, primoroso) doente em um quarto de hospital. Os filhos são interpretados por Alexandre Menezes (Humberto), Edu Fernandes (Artur), Rafael Morpanini (Ernesto) e Daniel Marano (João Baptista), atores ainda pouco conhecidos, que encontraram no texto de Gustavo Pinheiro uma belíssima oportunidade de mostrar seus trabalhos em cena. Destaco, entre eles, Morpanini e Marano, com personagens mais cheios de nuances e muito bem defendidos pelos dois – embora Menezes e Fernandes não tenham deixado a desejar em momento algum.

Um dos pontos mais interessantes são os paralelos temporais que o texto faz dos personagens e com o contexto histórico do Brasil desde a Ditadura Militar até as investigações da Lava Jato. Um choque de realidade para um pai militar que viveu a “revolução” de 1964 e os filhos que vivenciam a atual crise geral do Brasil, cada um à sua maneira. E uma grande certeza que fica explícita no espetáculo: não há verdade absoluta em nenhum dos discursos políticos que vemos por aí. Todos carregam a sua importância e a sua fragilidade e é necessário filtrar e avaliar todas elas antes de tomar partido. Aí que entra a tal empatia.

Sem dar spoiler, a peça termina em um crescente tão grande, num corte tão abrupto que lembram os filmes franceses. E é tão impossível passar ileso à catarse desse clímax final que os atores retornam para os aplausos visivelmente impactados pela cena. Um belo acerto do Gustavo (ou Gus, para os amigos).

Além de ser um belo sucesso de crítica e público, A Tropa marca uma nova fase na vida do Gustavo. Um cara que arriscou largar um emprego onde era reconhecido e sólido para correr atrás de um sonho. E acertou em cheio logo de cara. Para muitos, pode parecer sorte ou meramente uma boa oportunidade. Mas sabemos que vêm de muito suor e desejo ao longo de anos. Serve, sem dúvida, de inspiração para todos aqueles que têm os sonhos profissionais ainda distantes.

A má notícia para os cariocas (e ótima para os paulistanos) é que a peça se despediu no fim de semana do Rio de Janeiro e está seguindo para São Paulo. Vai ficar em cena no Teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista. Mas em breve Alair, nova peça do Gustavo, vai estrear na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, para nossa alegria.

Ficha técnica
Texto: Gustavo Pinheiro
Direção: Cesar Augusto
Elenco: Otávio Augusto (Pai), Alexandre Menezes (Humberto), Daniel Marano (João Baptista), Edu Fernandes (Artur) e Rafael Morpanini (Ernesto)
Cenografia: Bia Junqueira
Iluminação: Adriana Ortiz
Figurinos: Ticiana Passos
Realização: Me Gusta Produções

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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