sexta-feira, 19 de maio de 2017

"Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais..."





Os textos sobre as minhas férias já estavam prontinhos quando um terremoto em escala máxima na escala Richter abalou o Brasil. Portanto, não tinha como deixar de falar sobre esse assunto que está bombando do Oiapoque ao Chuí, recheado de corrupção desde que os portugueses chegaram por aqui.    Mas... é novidade esse tipo de coisa?

“Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro... transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro!  A tua piscina tá cheia de ratos... tuas ideias não correspondem aos fatos... o tempo não para... Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades... o tempo não para...” (“O tempo não para” - Cazuza – 1988)

Cazuza lançou O Tempo Não Para em 1988, há quase trinta anos atrás.  E certamente se ele tivesse a chance de voltar à viver, nem que fosse por um único dia, certamente ia dar aquela gargalhada peculiar acompanhada de uns pares de palavrões antes de dar uma tragada em seu cigarro, acompanhada de um generoso gole de uísque direto do gargalo... “Porra, caralho!  Todo mundo sempre soube dessa merda toda... Ou cês acham que eu era algum ser que fazia previsões?  Vão se fuder!”  

Pode até ser que realmente o futuro seja um imenso déjà-vu, mas o certo é que eu estou com muita pena dos estudantes que farão o Enem em 2030, já que nos últimos dois anos surgiram tantos fatos e escândalos que é humanamente impossível conseguirmos alguma brecha de tempo para analisarmos e/ou digerirmos tudo.  São volumes e volumes de investigações, delações, politicagens, corrupção e tantas conspirações que deixariam Ian Fleming atônito.

Lembro de quando era estudante, existia um livro chamado História das Sociedades que me debrucei pelos três anos do antigo científico, ou segundo grau.  O livro abordava desde o século XV, onde iniciou a época moderna até o mundo contemporâneo, passando por vários acontecimentos, entre eles a Expansão Marítima e Comercial, a Reforma e a Contrarreforma, o Iluminismo, as Revoluções (Industrial, Russa e Francesa), as Grandes Guerras e a atuação da Igreja Católica na política.

A primeira impressão que tive quando comecei a estudar esse livro foi terrível.  Eu sempre tinha aquela idéia bem romântica dos fatos históricos, do tipo que Pedro Álvares Cabral realmente tinha errado o caminho das Índias e “caiu sem querer” aqui em terras brasileiras.  O extrativismo das riquezas, a exploração dos povos indígenas e a consequente escravização ainda fazia parte da minha ingenuidade.  Mas foi por causa dessa publicação que comecei a ter uma visão mais crítica de tudo.  Ouso até revelar que possivelmente foi uma das inspirações que fizeram-me decidir pelo jornalismo.  Dentro daqueles meandros, recordo de ter me chocado durante várias passagens históricas.  O mundo não era aquele conto da Carochinha ou de Alice no País das Maravilhas... Estava mais para a Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Não vivi a época da ditadura militar, mas meus pais sim.  Mas cresci com as notícias da Guerra Fria, as brigas entre os Aiatolás iranianos e o terror do cataclisma atômico entre a antiga URSS e os EUA.  Mas nada me assustava tanto quanto a ditadura velada e a fisionomia de Geisel no Jornal Nacional.  Tinha pavor daquele homem, no mesmo nível de quando entrava a introdução de O Guarani, de Carlos Gomes, na Hora do Brasil. A política sempre me assustou.

Mais tarde, vivi aquela época do governo de Figueiredo (que finalizou a quinta República) até entrar na época que considero mais estranha... a Sexta República já começou mal com a morte de Tancredo Neves antes mesmo de tomar posse e do “pai” da redemocratização, Ulysses Guimarães, num acidente de helicóptero.  Desde então, tenho a impressão de que um fantasma sempre rondou o Palácio do Planalto, em Brasília.  Vivi tempos escuros e conturbados na era Sarney, no desastre da gestão de Collor de Melo e Itamar Franco.  Foram inúmeras mudanças de moedas para tentar conter a economia, histórias absurdas de confiscos, corrupção, assassinatos e até magia-negra; tudo pelo poder.  Definitivamente, os políticos eram mais amedrontadores do que o Vampiro de Dusseldorf.

“Nas favelas, no senado... sujeira pra todo lado... ninguém respeita a Constituição... mas todos acreditam no futuro da nação” (“Que país é esse” – Legião Urbana – 1987)  

“Meus amigos todos estão procurando emprego / voltamos a viver como há dez anos atrás / e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas” (“Teatro dos Vampiros – Legião Urbana – 1991)

“Vamos celebrar a estupidez do povo / Nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / E nosso estado que não é nação (...) Vamos festejar a violência / E esquecer a nossa gente / Que trabalhou honestamente a vida inteira / E agora não tem mais direito a nada (...) Vamos celebrar o horror de tudo isto / Com festa, velório e caixão / Está tudo morto e enterrado agora / Já que também podemos celebrar / A estupidez de quem cantou essa canção” (“Perfeição” – Legião Urbana - 1993)

Renato Russo apareceria hoje com aquele seu eterno jeitão intelectual, irritadíssimo, parecendo ligado a uma tomada 220 volts, mexendo os braços incessantemente e simulando um ataque epilético ou uma dancinha a la Ian Curtis, citando Rimbaud e Oscar Wilde.  Ninguém entenderia o sarcasmo e a ironia.  Renato continuaria sendo Renato.  

Ah... mas naquela época ainda não existia a tecnologia avançada.  Quando me formei em comunicação social, a internet ainda estava engatinhando.  Levei uma eternidade para me entender com um mouse pad, utilizar um caixa eletrônico ou dialogar com um atendente virtual.  Os Baby Boomers e a Geração X sofreram com os blips e blóps.  E infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de vista de quem analisa), se naquela época existisse o WhatsApp, o Facebook ou um aparato que só víamos nos filmes de ficção do agente 007, não existiriam mais políticos no Brasil.  

“Estão nas mangas dos senhores ministros / Nas capas dos senhores magistrados / Nas golas dos senhores deputados / Nos fundilhos dos senhores vereadores / Nas perucas dos senhores senadores / Senhores! Senhores! Senhores! Filha da Puta! Bandido! Corrupto! Ladrão! / Isso não prova nada / Sob pressão da opinião pública / É que não haveremos / De tomar nenhuma decisão / Vamos esperar que tudo caia / No esquecimento / Aí então... Faça-se a justiça!” (“Vossa Excelência – Titãs – 2005)

Está obvio agora que foi golpe.  Eu sempre achei isso, independentemente da cor vermelha da flâmula ou da minha camiseta.  Sempre foi.  Mas por falta da reverberação do eco iniciada pelas grandes corporações midiáticas, a população sempre se comportou como um bonequinho idiota, inanimado como um fantoche.  Seres autômatos que ainda acreditam que há um rombo na previdência e, por isso, a necessidade de reformas; que crêem na mesma proporção bíblica que os patrões não tem nenhum interesse na reforma trabalhista e que o Brasil, mesmo com 14 milhões de desempregados, está no rumo certo.  Não!  Não está e nunca esteve.  Sinceramente... a revelação de que o presidente deu aval para a compra do silêncio de quem sabe demais é algo bombástico?

“De acordo com o Presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal, uma entidade não-oficial denominada COMANDO DELTA atua no controle total do sistema brasileiro... Eles inclusive realizaram uma reunião para a escolha de Fernando Henrique Cardoso... Esta entidade é formada pelos grandes donos de redes de TV, Rádio, Indústria Farmacêutica, empresários, entre outras áreas de influências, que se perguntados sobre o assunto, negarão até o fim a sua existência”. (“Procedência C.d” – Planet Hemp – 2000)

Assustador, né?  Então, vamos tentar encontrar o velho livro da História das Sociedades  tentando escrever um novo volume.  Tentar rir com Cazuza disso tudo enquanto tomamos um porre, discutir com Renato Russo, gritar e xingar pelas ruas ao lado de Paulo Miklos e enfrentar todo esse looping com D2 e B-Negão.  Ou então, ainda ouvir Elis já que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais ou comer Caetano.  Eles sempre tem algo a dizer.  Ou não.

“Será será que será que será que será / será que essa minha estúpida retórica / terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos (...) Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Índios e padres e bichas, negros e mulheres / e adolescentes fazem o carnaval (...) Enquanto os homens exercem seus podres poderes / morrer e matar de fome, de raiva e de sede / são tantas vezes gestos naturais”. (“Podres Poderes” – Caetano Veloso – 1984)

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Marcia Marino disse...

Texto perfeito!!!! Parabéns!!! E...ainda somos os mesmos...

Ana Paula Rocha disse...

Análise primorosa da nossa triste e vergonhosa realidade.