segunda-feira, 8 de maio de 2017

Apps e Preconceitos

...ou Cuidar da Própria Vida Ninguém Quer, Né?




Estamos em 2017. O mundo, pelo menos na teoria, evoluiu e vivemos uma era tecnológica, com qualquer coisa disponível a um clique ou a um toque na tela do celular. E se podemos nos assustar com a possibilidade de um futuro (e muitas vezes, o nosso próprio presente) sombrio, com situações tantas vezes próximas às retratadas em Black Mirror, a tecnologia, na maioria das vezes, serve para aproximar e facilitar a nossa vida.

Eu, que nunca me imaginei dizendo ou escrevendo isso, sou old school. Quando tive pleno acesso à internet, eu já tinha meus 20 anos e, mesmo assim, me encantei com a infinidade de possibilidades. Jovem, gay, enrustido, vivendo em uma cidade do interior e em uma vida que me aprisionava, ter o mundo ali, na tela do meu computador recém comprado, em uma conexão discada que era a minha alegria depois da meia-noite, foi libertador. Para mim, que não entendia o que era ser gay, um mundo se descortinou com os cliques do meu mouse.

Falo de 2002. E, se para nós hoje é super fácil achar alguém para conversar usando um app qualquer, naquela época a internet ainda era uma novidade. Lembro com saudade do Bate Papo do UOL que tantas pessoas me apresentou, tantos encontros me proporcionou e foi me libertando, pouco a pouco, da vida equivocada que eu levava

De lá pra cá, a tecnologia avançou. O Bate Papo UOL ainda existe, mas as redes sociais nos aproximaram todos. Temos uma infinidade de aplicativos de relacionamento e pegação que servem para facilitar o contato, aplacar o tesão e transpor os obstáculos que, tantas vezes, poderiam surgir nos encontros face to face iniciais. Pelo menos deveria ser assim, mas, será que é?

Tinder, happn, Grindr, Hornet, Scruff e tantos outros. Ali, em um verdadeiro cardápio, você pode escolher o tipo que melhor lhe agrada e torcer para ser o tipo que o outro também procura. Pode mandar um "oi" casual ou uma primeira mensagem descontraída pra quebrar o gelo. Pode passar horas conversando ou partir logo pra "real". Pode procurar o amor da sua vida ou simplesmente uma trepada para aliviar a tensão. E, assim, levar a sua vida amorosa, afetiva ou apenas sexual de maneira simples e descomplicada, não é mesmo? Deveria, mas não é.

A merda do mundo são os caga regras que nos cercam. Tenho ouvido cada vez mais que quem está em app só quer pegação, não pode querer algo sério. Como se querer apenas diversão fosse um pecado e te diminuísse como pessoa, colocassem em xeque o seu caráter. Parece que quem é descomplicado e adepto do sexo casual nunca vai querer algo sério e que apenas os desesperados aqueles que buscam um relacionamento são os confiáveis. Porque é bem assim, né? Não tem um monte de filho da puta procurando relacionamento ou vivendo uma vida de fachada por aí, circulando ao nosso redor e a gente fazendo cara de paisagem para suas ações...

Tive 3 namorados nessa vida, todos relacionamentos intensos e que me moldaram bastante, servindo tanto como experiência de vida como também importantes para o meu crescimento. Três caras incríveis que, durante uma boa parte da minha vida adulta estiveram ao meu lado como verdadeiros companheiros. Não me foram apresentados em um jantar descontraído na casa de um amigo em comum; não nos cruzamos no metrô e sentimos uma atração irresistível que nos levaram a viver um longo e maravilhoso amor; não demos um encontrão numa livraria, sorrimos desconcertados e fomos tomar um café iniciando uma história. Um deles eu conheci no falecido Orkut; os outros dois, no Bate Papo UOL. Eram relacionamentos que eram para ser exclusivamente sexuais e que viraram a minha vida de cabeça pra baixo, me mostrando que sim, o casual pode criar raízes e se tornar, pelo menos por um bom tempo, longevo.

Eu digo sempre e vou repetir aqui: não importa a forma como se conhece alguém e sim o que esse alguém se torna pra você e como vocês conduzem o que acontece a partir daí. Quer marcar uma foda, ótimo, que ela seja gostosa e proveitosa (porque, convenhamos, algumas vezes a gente se arrepende e se pergunta porque não preferiu uma punheta, né? Pois é, eu sei...). Quer procurar o príncipe encantado em uma festa, uma livraria, no metrô ou atravessando a rua? De boa, sorte aí, meu caro. 

O que ninguém tem direito é de julgar o amiguinho por ele usar os apps que quiser, na hora que quiser, com o objetivo que melhor o atender. Não vamos ser hipócritas; é feio, é chato e é um close erradíssimo. Mas, se você insistir em achar que o seu modo de viver é o único certo e que quem vive diferente de você é uma aberração e que é por isso que os gays são tão promíscuos, eu, cat lover que sou, divido um conselho que não canso de repetir: arruma um gato, amigo! Ele tem sete vidas para você tomar conta!

Enquanto isso, eu vou vivendo, cagando e andando para a sua opinião. Feliz da vida, com meus encontros e desencontros, checando os meus perfis no Tinder e no Hornet agora mesmo, por exemplo. E me perguntando: será que a gente já se esbarrou ou um dia vai se encontrar por lá? ;-)


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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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