segunda-feira, 1 de maio de 2017

Como Achar Uma Sogra no Supermercado





Existem coisas que acontecem com a gente que, de tão surreais, nunca conseguimos esquecer. E minha vida é cheia de histórias assim, bizarras e igualmente divertidas. Como essa que peneirei do meu passado, lá do início de 2013. E, ao me lembrar dela, eu ri e decidi compartilhar por aqui hoje.

Era uma sexta-feira, dia caótico no Rio. Aniversário da cidade e, de presente, uma greve de ônibus para deixar o trânsito, que já era (e continua) lindo, ainda mais bonito. Pra melhorar, depois de um período de férias, eu estava retornando ao trabalho. Em plena sexta-feira, porque voltar numa segunda é para os fracos. Apesar da chatice, o dia chegou ao fim e, apesar de cansado por voltar a acordar cedo, mantive o ânimo e fui para a academia (que, tenho orgulho, ainda frequento com certa regularidade). Na volta para casa, uma passada estratégica no mercado para abastecer a geladeira para o fim de semana. Claro, depois das 18h de uma sexta, é óbvio que o mercado estaria cheio. Mas, ferrado por ferrado, ferrado e meio e tá bom!

Trabalhos efetuados e pronto para pagar a conta, fui pra fila do caixa, que já era enorme. Foi quando me dei conta que queria comprar algumas goiabas e pedi a uma senhora que estava atrás de mim na fila para tomar conta do meu lugar. Ela sorriu e disse que sim. Foi quando voltei que ela começou a puxar papo comigo e descobri tudo sobre a vida dela.

Ela era de Guarapuava/PR e estava no Rio para passar o aniversário junto com o filho, que já morava aqui. Contou que tinha chegado uns dias antes e estava indignada com o tempo que tinha virado e não fazia mais calor. Falou do frio do Paraná e de como adorava vir passear no Rio. E me encheu de elogios, por eu ser um ouvinte muito simpático. Para coroar, emendou:

-Nossa, você PRE-CI-SA conhecer o meu filho!!!

Fiz uma cara de paisagem, porque, né? Como assim, Brasil? Mais um pouco de papo e o tal filho apareceu, já que ele estava no meio das compras e ela guardando lugar na fila. Era um menino bonito, que se via claramente que era do Sul e devia ter seus 26 ou 27 anos. Ela fez questão de nos apresentar e passou então a contar para o filho tudo que eu havia respondido a ela anteriormente. Detalhadamente. Até que, ao terminar de dizer que eu estava vindo da academia depois de ter saído do trabalho, ela emendou:

-Ele não é fofo? Você precisa de um amigo (e PISCOU o olho ao dizer amigo) assim, meu filho!

Imaginaram a torta de climão? Pois foi pior. Eu não sabia onde enfiar a cara, o menino também não e, pra completar, a fila não andava de jeito nenhum. Ela continuou animada com a conversa e nós dois lá, com cara de paisagem. Quando enfim chegou a vez de pagar minhas compras, me despedi dos dois e corri pro caixa. Ela me deu um grande tchau e disse que adorou me conhecer e que seria ótimo me ver novamente.

Já na rua, ouvi me chamarem e era o filho dela atrás de mim, totalmente sem graça. Disse que estava muito envergonhado e que era para eu desculpar a mãe, já que desde que ele havia se assumido gay para ela, seu maior prazer era soar moderninha e vivia implorando por um genro. Que eu fui o partido escolhido no supermercado e que ele estava muito envergonhado de toda a situação. Vi claramente que ele estava era realmente se desculpando e em nenhum momento me cantando. Acabamos rindo da situação e nos despedimos.

E lembro claramente da crise de riso que tive caminhando até a minha casa da época, enquanto eu pensava que era só o que me faltava: arrumar uma sogra na fila do mercado. Se bem que, olhando em retrospecto, não é que o menino era bem interessante? 

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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