segunda-feira, 22 de maio de 2017

De Você Eu Só Quero Os Sorrisos




"É, Glauco, quando você disse que ia chegar cedo, não pensei que seria tão cedo assim", disse ela da janela, às sete da amanhã de domingo.

Assim como essa, outra lembrança divertida que tenho da minha mãe é a de quando estávamos indo pra Angra dos Reis numa das Grandes Evangelizações da igreja. Tocávamos nas ruas, entregávamos panfletos e, à noite, havia um grande evento. Bem, eu fui ver o mar pela primeira vez depois de velho, e nesse dia eu tinha meus quinze/dezesseis (acho). Num pedaço do trajeto era possível ver o mar, mas eu estava distraído conversando e tocando violão. Foi quando minha mãe, lá da frente do ônibus, gritou: "OLHA, GLAUCO, O MAR!", no que eu respondi: "MÃE!!!", e ela riu, toda boba.

Na primeira vez que fomos pro sítio de uma moça da igreja, eu passei por uma pequena ponte sobre um riacho e cortei a perna num vergalhão, nada muito grave, só sangrou bastante, e minha mãe, muito sincera, olhou pro machucado e disse: "Coitado do meu filho, quase não sai de casa, e quando sai, se machuca.".

E olha, ninguém narrava um parto tão bem como ela, principalmente o meu. Eu quase morria de rir sempre que ela contava o ocorrido, detalhe por detalhe. Sério, era impagável.

Teve a vez que eu tinha saído com uns amigos e minha mãe me ligou, toda preocupada. Segue o diálogo:

- Ô Glauco, você vem logo pra casa que tão dando tiros por aqui.
- Mas mãe, se tão dando tiros por aí, a última coisa que eu tenho que fazer é ir pra casa, não?
- Ah, é verdade. 

Meia hora depois...

-  Ô Glauco  - KKKKKKKK - sabe o que eram os tiros? Tá rolando um aniversário no prédio da frente e estão estourando as bolas.  - KKKKKKK - Fica com Deus, e cuidado, viu? 
- Tá bem, mãe! Agora vai dormir, não precisa ficar acordada a noite toda. Se derem tiros por aqui eu te aviso. 

Quando criança, eu adorava ficar ao lado dela quando ela ia fazer bolo por dois motivos: ela me deixava colocar a mão por cima da dela na hora de bater o bolo com a batedeira, e porque ela me dava a tigela pra lamber o que tinha sobrado da massa, afinal, essa é a melhor parte do bolo, todo mundo sabe disso.

Outra lembrança que me faz rir é o dia que liguei a cobrar pra ela pedindo pra ela me ligar, aí, quando ela me liga, pergunta, toda indignada: "Ô Glauco, qual a diferença de você ligar a cobrar pra mim e eu ligar pra você?!".

Meu pai ama trabalhos manuais, e sempre faz uma coisinha ou outra, seja um conserto aqui, ali, ou também pequenas carroças de madeira, porta-jóias em formato de cômoda, essas coisas. Acontece que minha mãe sempre foi muito debochada, e já chegava na porta do meu quarto rindo, o que desencadeava em mim uma vontade enorme de rir, mesmo sem saber do que, e quando eu via, estava lá meu pai todo "bravo" com a gente, sendo que eu nem sabia do que estava rindo, porque minha mãe não conseguia falar, apenas rir, sem som, com os ombros balançando de tanta graça que achava.

As sessões de espremer espinhas duravam quase meia hora, porque eu sentava no chão, entre as pernas dela, e ela quase me matava de tanto rir, fosse contando coisas engraçadas dos tempos de cozinheira no Rio de Janeiro, ou também falando mal de quem merecesse.

Eram muitos conselhos engraçados, como: "A gente tem que saber dar umas respostas pra esse povo também. Deus não quer ninguém otário no Céu não, viu?". A gente riu por semanas do dia que eu comprei uma dúzia de ovos, quando, na verdade, era pra ter comprado meio quilo de batata. Todo dia era uma forma diferente de debochar de mim.

Teve também aquele dia, numa das evangelizações, só que na igreja onde éramos membros mesmo, que um grupo de garotos visitantes começou a bater palmas no ritmo da música, e ela virou toda desesperada, lá da frente, pra mandar eles pararem, acenando freneticamente, e eu lá, desesperado, querendo rir, e sem poder.

Eu adorava quando nós três ficávamos olhando o morro do outro lado da cidade pela janela do quarto de casal, enquanto meus pais relembravam momentos bons de suas infâncias/adolescências, ou de quando sentávamos na calçada, eles num banquinho de madeira, e eu na rampa da garagem da vizinha, sempre no verão, porque fora de casa costumava ser mais fresco do que dentro. Minha mãe dizia que a casa era chique, que a temperatura mudava de acordo com a época do ano.

E as receitas? Toda receita que ela inventava, ela dava um nome esdrúxulo, com uma improvisada pizza de frigideira chamada Malapança aos quatro queijos. Fora que ela cozinhava bem pra caramba, viu? Quem experimentou dos quitutes, sabe do que eu estou falando.

Tem também essa lembrança. A que me mata todos os dias. Ela estava bem mal já, e queria muito comer macarrão, mas não queria com molho pronto, afinal, ela sempre disse que queria que eu aprendesse a cozinhar pra ela não ter que comer comida pronta caso ficasse doente algum dia. Então eu fui lá, e com a ajuda dela, fiz o molho exatamente do jeito que ela queria. Ei, não me olhem assim, eu sei fazer molho de tomate, mas ela queria de um jeito especial, então eu fui mostrando pra ela tudo o que eu ia fazendo, desde o ponto do macarrão, até o último detalhe. Arrumei um prato pra ela, com pouco, e servi, com um copo d'água. Ela segurou meu rosto e me deu um beijo, e disse: "Obrigado, meu filho.". Sorriu, e comeu todo o macarrão, com uma expressão incrível de felicidade.

É por isso que eu sempre compro macarrão, porque sempre que eu faço, eu me lembro desse momento, e vocês devem estar pensando que eu sou louco, porque, se é uma lembrança que me mata, por que eu vou querer lembrar disso sempre? Porque a expressão de felicidade nos olhos dela ao comer um macarrão tão simples, a gratidão no sorriso dela, aquilo fez meu coração vibrar de um jeito que nunca tinha vibrado antes. 

Ah, mamãe, eu sinto tanto a sua falta, mas tanto... Hoje faz um ano que você se foi, e de tudo o que passamos nos seus últimos seis meses, eu só quero me lembrar dos seus sorrisos. Dos sorrisos que você deu em vida. Das gargalhadas. Das caretas. Dos ensinamentos. Do perdão.

Não vou negar que estou aqui, me debulhando em lágrimas enquanto escrevo e, embora sejam lágrimas de saudade, eu sei que, como você mesma dizia sobre quem morria, você está bem melhor que a gente aqui.

Obrigado por me ensinar, por me mostrar como agir quando tudo ao seu redor está desmoronando. Obrigado ter sido a minha mãe. Obrigado.

Te amo.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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