sexta-feira, 26 de maio de 2017

Férias em Natal - Uma Odisséia de Aventuras - Parte 1





Após um prólogo, que publiquei aqui na semana retrasada, finalmente chegou a hora de relembrar como foram as minhas pequenas férias deste ano. Como havia dito, sempre procuro tentar vincular os passeios à trilhas sonoras. Acho que isso é uma forma de fazermos as lembranças se prolongarem, pois música, cheiros e sabores sempre são formas bastante eficazes de estimular a lembrança.

Este ano, lá fomos eu, o fiel escudeiro Julio; sua mãe Nanci, e a mascote Adélia, que mês que vem completa 15 aninhos. As duas estavam fazendo sua primeira viagem de avião. Portanto, foi uma viagem-família-comemoração. Eu amo viajar; mas também tem uma coisa que todos que me conhecem, já sabem: o terror em ter que entrar em um avião. É uma tortura contínua, não tem jeito. Ninguém me convence de que aquela geringonça de toneladas e toneladas é para estar no ar. Não entra na minha cabeça.

E logo naquele estresse de entrar na aeronave, mais um problema: Adélia (que nunca tinha viajado) estava com uma cópia da carteira de identidade. Logo, ela foi impedida de viajar. E isso, com o vôo só esperando o nosso embarque. Eu, já sob o efeito do calmante que sempre tomo, nem conseguia raciocinar. “Chama a polícia federal!”, bradava o Julio. “Mas que cópia tão perfeita era essa que ninguém (nem eu que fiz o check in) viu?” pensei...
Se não fosse pela boa vontade de um outro funcionário da empresa, que correu atrás e resolveu uma parte do problema, não embarcaríamos. Depois de muito blá-blá-blá, eu e Julio embarcamos. Nanci e Adélia viriam em um outro vôo depois que o pobre do irmão Pedro saísse de Campo Grande, pegasse um 397 que acabou quebrando no meio do caminho e entregasse a identidade original para que as duas entrassem em um vôo que ainda fez conexão no Brasil inteiro antes de chegar em Natal.

Enquanto isso, eu me borrando com as turbulências para chegar até o destino, só pensava na música do Belchior “foi com medo de avião” (ouça aqui) misturado com aquela do Biafra “voar, voar, subir, subir” (ouça aqui)... Não tem jeito: o medo de viajar de avião se mistura com a breguice. Sempre. 

No dia da viagem eu tinha feito um exame oftalmológico chamado retinografia e estava ainda vendo tudo laranja-estroboscópica. Então, imagine o estado do ceguinho aqui. Pra piorar, Julio estava sem seus óculos. Portanto; dois cegos em uma cidade desconhecida. 

Conhecer Natal (RN) foi uma bela maneira de poder encontrar minhas raízes. Meu pai e meu avô nasceram lá e, apesar de conhecer quase todos os Estados, ainda não tinha tido a oportunidade de visitar a cidade sobre a qual passei a infância e adolescência ouvindo todos aqueles “causos” sertanejos de Mangabeira, um pequeno distrito de Macaíba, próximo à capital. Confesso que, ao chegar lá, mesmo com minha cegueira, me surpreendi quando cheguei na estrada que dava acesso ao local onde meu avô foi criado. Esperava algo que nem o filme Central do Brasil, com aquela aura de caatinga, vegetação rasteira, cactos e muita poeira. Talvez, pelo crescimento populacional e pela modernidade, encontrei uma Natal totalmente diferente de meu imaginário.

Enquanto aguardávamos as duas, colocamos as malas no hotel e já fomos nos deliciar com os sabores da Casa de Taipa, realmente um local maravilhoso que serve tapiocas num estilão gourmet. Ficamos hospedados na Praia de Ponta Negra, um dos cartões postais por causa do Morro do Careca, uma duna fixa de mais de 100 metros de altura e que está fechado para visitação desde o fim da década de 1990 por causa da preservação da mata de restinga e devido ao desgaste natural da faixa de areia, já que antigamente os turistas e moradores locais faziam o caminho desmatado como um grande escorregador ao estilo skibunda.

O problema é que por causa de minha cegueira temporária e da proposital do Julio, já nos perdemos na volta para o hotel. Ele jurava de pés juntos que o Morro do Careca estava pertinho. E eu nem estava vendo sinal de morro algum. Andamos tanto que parecíamos os seguidores de Moisés. O tal morro era, na verdade, um hotel (que não era o nosso - para vocês terem ideia do tamanho da nossa miopia). 

Passamos por uma feirinha de artesanato bacaninha e comecei a captar minhas anteninhas para a elaboração da trilha sonora da viagem. “Bem-te-vi... bem-te-vi, bem-te-vi como o verão / voa livre por entre os jasmins e pousa no meu coração” (ouça aqui) . Oi? Parecia que estava tendo um deja-vu dentro de um deja-vu no meio da rua. Eita! Eu escutava essa canção do Renato Terra em 1981 por causa do programa Qual é a Música?, do Silvio Santos... A canção me remeteu diretamente aos meus 12 anos de idade. Mas porque diachos tiraram essa música do baú para me deixar com essa melodia na cabeça a noite inteira? 

“Eu preciso ouvir algo novo! Não to acreditando que só tô com música estranha na mente!” indagava a mim mesmo quando o dial soltou “Aaaaai, abre coração! Vem me fazeeeer feliiiiz” do Marcelo (ouça aqui). Socorro! Será que eu tinha entrado em uma espécie de portal? Algo como um novo Caverna do Dragão? Eu tinha saído do Rio de Janeiro e retornado para a década de 1980?

Preocupado, devorava todas as amostras de castanhas de caju de uma loja quando Adélia e Nanci mandavam mensagens pelo WhatsApp dizendo que já estavam no hotel. “meninos, kd vcs???? Estamos com fome!”.

(continua...)

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Aguardando ansiosa a segunda parte...rindo até 2050!