terça-feira, 2 de maio de 2017

Gênesis





No princípio havia a batida. Às vezes, forte, às vezes, suave, mas ela estava lá. Eu não sabia muito bem o que era. Quer dizer, eu sabia o que era, mas não sabia o que ela significava pra mim, nem porque significava tanto. Mas, de certa forma, aquela batida falava comigo. Independente do ritmo, ela estava lá, batendo. Ora tuntz, ora tum, ora bump, ora

Com o tempo, a batida começou a fazer mais do que falar comigo. Ela me abraçava, me envolvia e, no meu interior, independente do ritmo dela, eu me sentia parte daquilo. Parte daquele tuntz, tum, bump, pá, e tantas outras formas. No meio desse processo, a batida ganhou outras companhias na minha mente e no meu corpo: melodia, harmonia e tons. Eu sabia o que cada um fazia, mas não sabia explicar. Eles entravam no meu ouvido, abraçavam a minha alma e eu não conseguia me render. Não conseguia e não queria, afinal, tudo aquilo fazia a minha cabeça entrar em ordem e, ao mesmo tempo, me tiravam o controle dos meus próprios pensamentos e sentimentos. Determinado acorde ou melodia podia me dar uma incontrolável vontade de chorar, ou me fazer sorrir feito besta, e até mesmo me deixar pensativo, acalmando minha mente e me ajudando a encontrar a resposta dentre os milhões de pensamentos que corriam pela minha mente.

Tudo isso aconteceu muito rápido, meu corpo e minha mente foram abraçados pela Música desde muito cedo, lá pelos sete anos de idade, e ainda muito cedo, com doze, treze anos, sei lá, eu estava tão cheio de Música, com tantas notas, sons, batidas, harmonias, tocando dentro da minha cabeça, que não conseguia mais contê-las dentro de mim, e meu corpo, numa reação natural, começou a colocar tudo pra fora e, quando vi, eu cantava. Grave ou agudo, eu cantava, e meu corpo vibrava, literalmente, ao fazer isso. Meu coração acelerava, minha respiração saía do controle, o som saía alto, potente, certeiro. E cada vez mais eu me sentia abraçado por ela, minha amiga, parte de mim. 

Todo dia, o tempo todo, eu estava cantando algo. Meu cérebro ia a mil quando meu pai colocava os LPs pra tocar. Aaaah, aquilo tinha um som totalmente diferente, me tocava de uma maneira completamente nova, e eu aumentava o som, claro. E, claro também, minha mãe me mandava abaixar. Mas eu não queria abaixar, eu queria aumentar, queria mais daquilo, queria me misturar com todos aqueles sons, ritmos, tons, notas, vozes, instrumentos... Eu queria ser a Música.

Mais tarde eu resolvi que precisava saber o que estava fazendo, afinal, só sentir, não estava mais sendo suficiente pra mim. Eu precisava saber mais, mais, mais, entender a Música, pra, talvez, conseguir me entender, afinal, ela e eu éramos quase um só. E então a batida, os sons, ritmos, tons, harmonias, melodias, ganharam novos amigos: linhas, espaços, figuras, claves, armaduras, sinais de alteração, andamentos, compassos. Mas isso não era o suficiente, então eu fui atrás de mais. Precisava entender o que acontecia por trás de tudo isso. Na Regência eu descobri que Música é algo muito, muito maior, mas ao mesmo tempo, bastante complexo, assim como eu era. Assim como eu continuo sendo.

Minha mãe, quando eu tinha nove anos, me disse que o pastor que casou ela e meu pai, disse que ela daria à luz a um menino, e que ele seria músico. Com um tataravô regente de banda, um avô cantor e violinista, com uma mãe cantora de coral e um tio violonista, as chances de nascer um músico eram boas, e então eu nasci. A Música tem sido minha companheira desde pequeno, e toda vez que eu estou estudando ou apenas lendo algo sobre, eu percebo que nunca vai dar pra parar de estudar Música, porque toda vez aparece algo novo, algo que ninguém sabia sobre ela, seus compositores, os estilos, as eras... Nunca vão poder entender totalmente o que é a Música, porque ela não é só teoria, e não é só prática. Não é só saber, não é só fazer. Ninguém nunca vai poder dizer que entender cem por cento dela, porque musicistas estão sempre estudando, seja para darem aula, seja para ensaiar, e toda vez vão encontrar algo novo, uma forma de chegar até determinada nota que até então não se sabia, ou uma maneira de misturar estilos de forma a criar um estilo totalmente novo. 

É assim também comigo, porque eu aprendi com a Música que sempre que a batida não tá legal, é só colocar duas barras, mudar a armadura, o compasso, o tom, e ir ajustando com alguns sinais de alteração e regulando o andamento da melodia da forma que eu quero. Não dá pra entender totalmente Música, disso eu já sei, assim como eu jamais vou me entender totalmente. E tá tudo bem, afinal, sempre vai haver uma batida dentro de mim.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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