terça-feira, 9 de maio de 2017

Logavulin 16 Years Old e o Hotel no Fim do Mundo





Menina do céu, eu consegui errar dois bolos, um atrás do outro... Mamãe deve estar tããããão "orgulhosa"... Foi mal, mãe, é que o fogão é novo, sabe como é... 

Enfim, e aí, gente! Hoje tem um conto escrito por, nada mais, nada menos, que Rafael, que, após muita encheção de saco minha, deixou eu postar, porque é um dos meus preferidos, justamente por ter me identificado com o protagonista, agora não me perguntem o motivo. Espero que vocês gostem, porque eu sou suspeito pra falar. 

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O que tem de bom em estar vivo? Todos os dias a mesma coisa, o mesmo teatro, a mesma rotina, os mesmos problemas, e eu continuo sem conseguir tomar uma decisão acertada, continuo sem fazer nada. Quando finalmente acontece alguma coisa, é pra me fazer sentir ainda pior, é pra mostrar que eu posso me tornar ainda mais patético com a minha covardia. 

Agora, preso nessa porcaria de estrada, com essa chuva irritante que não me deixa respirar direito, a única coisa que eu posso pensar é em como eu gostaria de ter morrido no lugar do meu pai, pelo menos eu não estaria enojado da minha própria atitude, desejando ser outra pessoa. Preciso sair desse carro, isso parece um caixão, eu queria estar morto, mas isso aqui é o mesmo que ser enterrado vivo, o que definitivamente não é meu objetivo. 

Voltei com o carro pelo mesmo percurso que tinha feito até o ponto interditado da estrada. Uma maldita árvore caíra impedindo-me de continuar meu caminho até minha cidade, minha casa, onde eu poderia encontrar meu velho amigo Lagavulin 16 Year Old que ia me ajudar esquecer tudo até a manhã seguinte, quando eu acordaria com uma ressaca dos infernos que não me deixaria pensar na minha inutilidade. Enquanto eu ia amaldiçoando o dia que nasci e essa chuva que não me deixa enxergar um metro à frente dos faróis, me fazendo dirigir como uma velha senhora levando seu netinho à escola, imerso nos meus pensamentos dignos de uma sarjeta, virei à esquerda numa ruazinha medíocre e esburacada, sem perceber que eu poderia me perder e continuei avançando a 10 km/h. 
“Tsc! Desse jeito nem um acidente que preste eu consigo!” 
Vi um ponto de luz muito fraco, o único num mundo imerso em trevas que ocasionalmente era iluminado por um relâmpago ou chacoalhado por um trovão ensurdecedor, um ponto de luz. Desliguei o carro e fiquei uns bons cinco minutos olhando para aquela luz que parecia um vaga-lume a brincar solitário, até que um rangido me fez voltar à tona. O ponto de luz era uma lamparina, e o rangido trouxe outra luzinha tremulante e uma voz que vinha de muito longe abafada pela chuva. 
“Eu realmente preciso respirar.” 
Puxei meu casaco acima da cabeça e saí correndo do carro até o ponto seco onde os dois vaga-lumes descansavam, e quando eu parei, uma voz rouca, porém firme, me perguntou se eu estava perdido: 

- Hmpf, antes fosse! Na verdade eu estava indo pra casa, mas uma árvore caiu no meio da estrada e não há Cristo que consiga passar pra frente hoje. 

O dono da voz, um velho curvado e marcado pela idade, deu-me um sorriso amarelado pelo fumo, mas um tanto quanto simpático e disse: 

- Pois bem, homem, veio ao lugar certo, não é à toa que colocamos uma luz aqui fora, se não tivesse caindo o céu agora, você ia enxergar a placa malfeita que meu neto colocou, onde tá escrito que isso aqui é um hotel. Mas venha pra dentro homem! Minha velha vai te servir um prato de sopa, não é nenhum manjar dos deuses, mas está quente e forra o estômago. 

Se fosse um dia normal, eu nunca estaria num lugar daquele, tomando uma sopa rala, numa louça barata, enquanto um casal idoso me encara abertamente. Mas não estou em condições de reclamar, o lugar na verdade não passa de uma adaptação mal feita, uma casa grande demais pra duas pessoas idosas, que foi dividida de modo a oferecer acomodação a qualquer pessoa azarada o bastante pra entrar numa situação como a que estou agora. Os móveis são gastos, mas no passado foram bonitos e são de boa qualidade, não tem nenhum aparelho eletrônico à vista, e acredito que em outros lugares também não, o estado de conservação da estrutura em si pode não ser dos melhores, mas é tudo muito limpo e esse casal estranho parece mesmo muito simpático. 

A velha senhora levantou-se quando viu que eu já tinha engolido toda a sopa do prato e perguntou-me se eu queria mais, achei melhor dizer que não, até agora eles não tinham falado em cobrar nada, mas como eu estou acostumado com pessoas tentando enfiar as mãos nos meus bolsos sem nenhum dó. 

- Não, obrigado, estou satisfeito. Acho que não vou conseguir ir pra casa mesmo, quanto vai me custar o prato de sopa, o aluguel de um quarto por uma noite e um banho quente, se possível? - falei olhando pro senhor corcunda à minha frente, mas quem me respondeu foi sua esposa, que parece um pouco com aquelas avós que gostam de mimar os netos: 

- Não se preocupe, meu filho, venha cá que vou te levar pro melhor quarto e já te mostro onde você pode tomar banho. 

Mais tarde, deitado na cama de casal, de colchão macio envolto num lençol velho perfeitamente limpo e cheirando a amaciante, olhando para o forro irregular e com a tinta descascada, a tinta palha das paredes, os móveis rústicos, o guarda-roupa de duas portas que mais parecia a minha sapateira, as cerâmicas de esmalte apagado e desbotado, ouvindo o som da chuva caindo no telhado e batendo contra a janela simples, atrás das cortinas finas e igualmente antigas, eu me lembrei da minha infância na casa dos meus avós, enquanto meus pais fingiam ser um casal e ainda tentavam não brigar na minha frente. 

Com aquela simplicidade, num improviso que chamam de hotel, imerso em pensamentos do passado, perdido num vilarejo esquecido por Deus, o sono e o cansaço me abraçaram e não me deixaram até o amanhecer. 

Acordei assustado com o barulho de algo que havia caído. Meu cérebro demorou um tempo considerável pra reconhecer aquele quarto. Levantei, fiz minha toalete matutina e saí para acertar a conta das despesas com o casal. 

- Não se preocupe meu filho, considere isso um presente, vai com Deus e não se preocupe você não precisa pagar por nada. 

Fiquei chocado com aquilo, tirei uma quantia da carteira e entreguei ao velhinho que sorriu envergonhado, mas não recusou. Agradeci a acolhida, e antes de entrar no carro, olhei em volta. Nenhuma viva alma podia ser avistada, os vestígios da chuva ainda estavam por todos os lados, o dia estava triste. As casas não fugiam do estilo do hotel, tudo ali era velho, desbotado e triste, menos o sorriso do casal que acenava em despedida e pediam que eu voltasse a qualquer hora. 

-Talvez eu volte. Até a próxima! 

Enquanto me afastava no meu carro, olhando pelo retrovisor enquanto os dois entravam no hotel, eu já sabia que não voltaria àquele lugar, e pelo olhar que tinham quando se despediram eles estavam tão cientes disso quanto eu. Se fosse uma pessoa sentimental, eu poderia dizer que aquele hotel, escondido num fim de mundo, tinha um ar acolhedor que me faria voltar. No entanto, eu sei que é uma mentira que tento contar a mim mesmo por estar me sentindo deprimido. Conheço-me a tempo suficiente pra saber que sou um bastardo arrogante e presunçoso que não faz nada de útil e ainda assim insiste em manter a pose de pessoa importante, ostentando uma fortuna considerável à qual não empreguei nenhum esforço para acumular e que custou a vida e o casamento dos meus pais. 

À medida que aquele lugar antigo e simples ia sumindo pelos retrovisores, para se tornar apenas uma memória nublada ou uma anedota pra contar à mesa de um bar qualquer para hipócritas embriagados como eu, por tais instalações serem chamadas de hotel, aumentava minha expectativa de reencontrar meu velho e fiel amigo whisky no meio do caos que é a minha vida.

Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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