sábado, 6 de maio de 2017

O Amor Devagar





Encontraram-se num charmoso café. Herbert pediu chá de jasmim imperial com um pedaço de bolo de doce de leite; Armando preferiu chocolate quente e uma fatia de torta de palmito. Era um agradável dia frio de outono. Enquanto comiam e se aqueciam com suas bebidas, a conversa fluía. Esperaram quase três anos por aquele reencontro desde que se viram pela última vez no casamento de algum parente de Herbert. Armando era namorado de uma prima sua, que o levou como acompanhante e poucos meses depois terminou o namoro.

Antes do segundo e último encontro no casamento, conheceram-se quatro meses antes, quando empolgada com a nova conquista, a prima apresentou Armando a Herbert em uma sessão de cinema. Herbert e Sophia eram confidentes, e ele sabia que a prima não era de namoros duradouros. Encarou Armando despretensiosamente, sem muitas expectativas por Sophia, que nunca havia ficado com ninguém por mais de três meses. Mas Armando era diferente dos outros, um cara encantador com quem descobriu inúmeras afinidades. Ficou feliz pela prima ao mesmo tempo em que sentiu uma pontada de inveja, era romântico e não tinha a sorte de encontrar um cara especial como ele. Também teve raiva, por acreditar que Sophia faria com Armando o mesmo que fez com todos os ex. Armando era alguém por quem Herbert se apaixonaria facilmente, por isso a inveja e a raiva da prima logo viraram tristeza.

Dias depois de conhecer Armando, Herbert não pensava em outra coisa, o garoto não saía de sua cabeça. Procurou-o nas redes sociais, passava horas stalkeando-o e sempre tentava inventar programas para fazer com a prima e seu namorado. Mas Sophia não dava confiança, estava no auge da paixão e queria ficar só com o namorado o máximo possível. Sentindo-se insistente e um pouco inconveniente, Herbert parou de tentar encontrar Armando através da prima. Os meses passaram e ele começou a acreditar que o namoro era realmente sério, estava na hora de interromper seus devaneios românticos e aceitar a realidade. Definitivamente, Armando não seria abandonado por Sophia, que magoado e arrasado iria correndo ao seu encontro em busca de consolo.

No casamento, já há algum tempo recuperado do torpor das primeiras semanas pós Armando, Herbert foi surpreendido pela esfuziante reação do primo postiço ao vê-lo. Disse estar cheio de saudade, revelando o desejo de conhecê-lo melhor e conversar mais. Trocaram telefones e ficaram próximos durante quase toda a festa. Sophia permaneceu um pouco afastada, curtia a festa em outras companhias. Parecia-lhe uma situação atípica, a prima dançando, gargalhando, bebendo e interagindo com todos na festa, enquanto ele e o namorado dela falavam sobre cinema, música, poesia, viagens e planos para o futuro como se estivessem absolutamente sozinhos.

Dias após o casamento, trocaram várias mensagens que foram diminuindo até silenciarem por completo. Três meses depois, Sophia anunciou o término do namoro. Não quis dizer o motivo. Herbert estava mais preocupado com Armando. Já não se falavam mais com tanta frequência, mas Herbert enviou-lhe uma mensagem interessado em saber de seu estado. Armando foi econômico ao dizer que passava por uma fase de descobertas e precisava de um tempo longe de Sophia e de tudo que a lembrasse. Herbert entendeu o recado e afastou-se daquele que seria seu namorado perfeito.

No Natal daquele ano, um bom tempo depois da última mensagem que trocaram, Armando ressurgiu com uma mensagem fofa de felicitação natalina para Herbert, dizendo estar morrendo de saudades e querendo muito revê-lo. Foi o melhor presente de Natal que Herbert poderia esperar, e daquele Natal em diante não pararam mais de trocar mensagens. E, finalmente, naquela tarde de domingo, após inúmeras tentativas frustradas de reencontro, eles estavam frente a frente. 

Dentre tantas mensagens trocadas durante tanto tempo, Herbert já tinha revelado num ato de coragem, sua paixão por Armando, que foi evasivo ao dizer que pessoalmente conversariam melhor sobre os sentimentos de ambos. A espera havia sido longa, e embora quisesse muito rever Armando, tudo o que Herbert desejava eram respostas, então conversaram muito naquele café, mas o ápice do encontro foi quando Armando disse com todas as letras que era um homem bissexual absolutamente bem resolvido. Herbert precisava dessa confirmação com todas as letras para ter sua segunda resposta. Necessitava saber o que Armando sentia por ele de fato. Era um puro e simples afeto de amigo/irmão ou existia atração recíproca entre eles?

Com muito cuidado, Armando foi revelando tudo o que Herbert queria saber. 

Você é especial demais. Te quero pra sempre na minha vida. Não quero mais ficar afastado de você. Você tem tantas qualidades que eu queria ter. Eu queria ser você, sabia? Ter a tua inteligência, teu talento, tua percepção das coisas. Você me faz muito bem. Mas pra sexo e namoro, eu curto caras menos afeminados.

Herbert engoliu a seco, tomando em seguida um gole de seu chá. O que Armando tinha acabado de dizer era bem escroto, ele já havia ouvido antes de outros caras. Mas dessa vez foi dito de maneira tão natural e sincera, que o primeiro baque logo foi entorpecido pelo sorriso encantador de Armando. Não doeu tanto quanto ele imaginava. E como num passe de mágica toda aquela paixonite guardada por tanto tempo se desfez, e a conversa continuou mais solta e leve entre dois velhos amigos com muito papo pra colocar em dia.

Despediram-se com a promessa de um novo encontro para breve, mas Herbert, embora não estivesse magoado ou frustrado nem nada do tipo, não sentia nenhuma vontade de ver Armando novamente. O príncipe criado em sua imaginação tinha sido desmistificado naquele encontro, e foi bom, foi uma libertação.

Dias depois, Herbert quase não lembrava mais de Armando, quando recebeu uma mensagem dele: 

- Esqueceu de mim?
Oi querido, tudo bem?
- Perdeu o encanto depois do reencontro?
- Bobo!
- Adorei nossa tarde regada a chá e chocolate!
- Eu também!
- Vamos repetir mais vezes!
- Claro!
- Bjo. Se cuida!
- Você tbm.

Manteve certa frieza na conversa porque não via sentido em derreter-se para alguém que havia sido claro sobre a (im)possibilidade de rolar qualquer coisa além de amizade entre eles. Estava bem com esta constatação, não queria dar chance para que virasse uma dolorosa ferida aberta. Mas os dias seguiram-se com mensagens de "bom dia", "ouvi essa música e lembrei de você", "tenha um lindo fim de semana", "como foi seu dia?", "hoje eu tô carente e só vc vai me entender". Não, ele não estava entendendo. Armando estava fazendo um jogo com ele, era isso?

Ao invés de se atormentar, deixou fluir e entrou no clima daquelas mensagens. 

Armando: O que tá fazendo?
Herbert: Escrevendo. E vc?
A: Tentando estudar violão.
H: Vc toca violão? Não creio! Eu aaaaamoooooo violão! Já me apaixonei por dois caras que tocavam.
A: Tô aprendendo ainda.
H: Aprende Legião.
A: Com certeza, eles são demais! Como está a casa nova?
H: Ótima! Vou marcar um almoço pra gente. Vc vem, trás o violão, a gente come, depois passamos a tarde tocando e cantando. Que tal?
A: Perfeito!
H: Vou dormir. Ouve essa música que te mandei e vai treinando no violão.
A: "Eu Preciso Dizer Que Te Amo", é linda!
H: Muito, adoro ela!
A: Tem um pouco a ver com a gente.
H: Eu acho que sim.
A: Tô ouvindo.
H: Ouve e aprende. Vou dormir. Boa noite!
A: Boa noite!

O teor das conversas entre os dois, após aquela tarde no café, era sempre assim, um jogo de sedução quase velado. Palavras soltas, pedaços de poesia, músicas. As declarações se revelavam nos detalhes. A diferença era que Herbert já se declarara uma vez e estava livre desse fardo. Se algo havia mudado nos sentimentos de Armando, era a vez dele expor o que sentia.

Depois daquela tarde no café, houve um segundo encontro no parque, onde caminharam, tomaram sorvete, riram de bobagens e dos tombos que levaram quando Armando tentou ensinar Herbert a andar de patins. Quando estavam juntos, Herbert sentia que tudo era tão perfeito, questionava-se se Armando sentia o mesmo. Tinham uma conexão única. A vontade de segurar-lhe firme pela mão enquanto passeavam entre as árvores, os gramados verdejantes, as fontes de águas cristalinas, o ruído dos pássaros e o voo colorido das borboletas, era forte, mas Herbert controlava-se. Eram apenas dois bons amigos, e aceitaria com resiliência aquele status.

Semanas mais tarde, Armando cobrou o almoço que Herbert havia lhe prometido em meio as muitas mensagens que trocaram. Herbert então, marcou o almoço numa sexta de feriado. Escolheu um cardápio com todo o cuidado. Serviria risoto de camarão com champanhe, queijo gorgonzola e pera e de sobremesa, petit gateau de chocolate branco com sorvete de morango. Queria algo especial, a ocasião merecia.

Armando apareceu com seu violão, como haviam combinado. A mesa posta com requinte e o aroma inebriante da comida acompanhado de sua aparência impecável, encheram os olhos de Armando de fascínio, e sua boca de água.

Armando: Uau, quanta sofisticação!
Herbert: Tudo especialmente pra você, meu convidado de honra!
A: Eu sou um cara tão simples. Mas confesso que amei tudo isso. O visual tá incrível. Você arrasou e me surpreendeu mais uma vez!
H: Muito obrigado, moço simples! É que um pouco de frescura faz um bem danado de vez em quando. E eu adoro fazer algo mais elaborado quando tenho oportunidade. Tá com fome?
A: Com certeza, e mesmo que não estivesse, é impossível não salivar diante desse risoto maravilhoso!
H: Gostou do risoto? Então espera pra ver a sobremesa!
A: Ai, meu Deus, é hoje que saio daqui com 10 quilos a mais!
H: Relaxa, você tá super em forma. Quem precisa eliminar vários quilos aqui sou eu. Mas hoje eu quero é ser feliz. Senta, vamos comer.

Armando saboreou com imenso deleite cada explosão de prazer que inundava suas papilas gustativas. Cozinhar era mais um dom de Herbert que ele descobria com admiração.

A tarde se estendeu ao som do violão de Armando, cada acorde tirado do instrumento por ele, fazia Herbert estremecer. O som de um violão o enchia de uma emoção inexplicável. Herbert cantarolava suas canções preferidas e Armando o acompanhava tocando, sentados no tapete da sala, embalados por algumas taças de vinho, as horas passaram e eles nem perceberam.

Armando pediu que Herbert cantasse Segredos, do Frejat, que ele adorava. Enquanto o ouvia, Armando tirava as notas com perfeição. Herbert cantava de olhos fechados, cheio de sentimento. Armando o observava.

Eu procuro um amor que ainda não encontrei
Diferente de todos que amei
Nos seus olhos quero descobrir uma razão para viver
E as feridas dessa vida eu quero esquecer...

Os lábios de Herbert foram silenciados pela boca com gosto de Merlot de Armando. Num impulso irresistível, o beijo deu-se incontrolável e cheio de paixão. Herbert entregou-se. Foi um beijo longo. Quando separaram-se os lábios, os olhos falaram e ambos sorriram, um sorriso cúmplice que compreende um amor que se estabelece sem pressa, devagar.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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