domingo, 28 de maio de 2017

O Crítico de Cinema




Meu nome é Lara, tenho 39 anos e tem uma coisa que eu detesto nessa vida, mais do que tudo: a onda de casal que invade seu grupo de amigos como uma praga devastando uma plantação inteira. Não, não é (só) amargura. Há muito tempo desencanei desse estigma de ser “vela” de casal. Pra ser sincera, eu até gosto. Eles ficam com pena por você estar sozinha, fazem suas vontades e até pagam a conta. “Imagina, você já teve que sair com o casal, essa é por nossa conta! A próxima você paga!”. A próxima nunca chega. Quem é vela nunca paga a conta. 

O grande problema, talvez o sintoma mais grave da praga, é quando os casais resolvem bancar o cupido. Instantaneamente a lista de contatos aparece diante de seus olhos, como uma realidade aumentada, e como num passe de mágica, rapazes que estiveram ali o tempo todo tornam-se perfeitos pra você. Numa dessa me armaram um blind date com Rodrigo. 

“Amiga, ele é mais novo que você, mas é muito culto e maduro, vai parecer que você está conversando com um cara de 50 anos!”

Isso não me soou bem, e provavelmente foi um aviso divino: é furada. 

Rodrigo me mandou uma mensagem no celular dizendo que adorou a descrição que minhas amigas fizeram de mim, e que ele gostaria de me chamar para jantar.

“Opa, comida de graça!”, pensei. 

Marcamos de nos encontrar na saída do metrô do Largo do Machado às 20h. Eu tenho um problema com hora marcada que se chama pânico. Tenho pânico de me atrasar desde que recebi minha primeira suspensão aos seis anos na escola, pelo décimo atraso seguido. Minha mãe não conseguia acordar na hora para me levar ao colégio. Desde que me tornei adulta, eu tenho toda uma programação mental e biológica para que meu organismo cumpra todas as tarefas que lhes são devidas a tempo de eu estar no local marcado cinco minutos antes. 

As pessoas se atrasam normalmente, então os cinco minutos antecessores eu aguento numa boa. Finjo que sou cool ouvindo uma banda hipster no fone de ouvido, balançando a cabeça como se fosse um daqueles cachorrinhos de brinquedo que ficam no táxi, e aproveito aqueles minutos como um momento eu e eu. Quando os cinco minutos terminam, eu começo a olhar constantemente para o relógio e contar os segundos de atraso das pessoas. 

Rodrigo chegou 20:20h. OITO E VINTE. 

- Vim de bike, não esperava essa chuva!

Chovia torrencialmente e ele estava ensopado, lógico. O desconforto parecia aumentar. Ele me deu um beijo ligeiro na bochecha direita (um só, São Paulo style), e logo apontou para frente, indicando a direção que deveríamos seguir. O restaurante não era longe e parecia mais um boteco. Mas eu até que gosto. Menos pressão sobre como me portar. 

- Mas me conta, você conhece a Maria há quanto tempo?
- Ah, estudamos juntas na escola, desde os cinco anos. 
- Uau! São irmãs, praticamente. Amor fraternal. 

Seja lá o que diabos ele estava dizendo, prossegui com nosso diálogo:

- E você, de onde conhece ela?
- Sou amigo do Fernando, noivo dela.
- Trabalham juntos na redação do jornal?
- Não, não. Eu sou crítico de cinema.

“Crítico de cinema?”. Quem você pensa que é? Quem é crítico de cinema com essa idade? Seu primeiro filme no cinema foi o que, Tartarugas Ninjas? Se juntar todos os filmes que você viu, não dá a trilogia do Poderoso Chefão. Crítico de cinema, vê se pode. Com essa idade você poderia ser crítico de Danoninho! Qual é o seu herói do cinema? Algum dos Vingadores? Querido, quero ver você se manter de olhos abertos enquanto Mola Ram, o Marajá, arrancava o coração do moço em Indiana Jones e o Templo da Perdição. Que tipo de pessoa se auto intitula crítico de cinema com essa idade? O mais primórdio que você conhece de fotografia é o que? Uma Cyber Shot? Bem típico dessa garotada zona sul que acha meia dúzia de filme argentino te transforma num crítico de cinema. 

- E você, o que faz?
- Sou produtora.
- De quê?
- Cinema.
- Olha, temos algo em comum! E você mora aqui perto?
- Sim, no Flamengo.

Ok, ok. Eu também sou da zona sul. E gosto do cinema argentino. Mas não sou nenhuma crítica de cinema. Por isso me sinto no direito de reclamar. 

Rodrigo era prepotente como eu imaginei que ele seria. Descobrimos que ele escreveu uma crítica para o último filme que produzi. Ele pediu desculpas antes de me mostrá-la, pois disse que pegou pesado. Que tipo de crítico se desculpa pelo que escreveu? Críticos são críticos, vocês ganham pra expressar suas opiniões (enquanto tem gente que morre só por lutar pelo direito de tê-las). Eu respondi que não me importava e que leria mais tarde. Na verdade eu estava me roendo por dentro e não conseguiria fingir que estava tudo bem se eu lesse a crítica ali durante o encontro. Em partes porque sabia que o filme não era bom, mesmo. Mas quem ele pensa que é para falar mal do MEU filme?

- Qual foi o último filme que você chorou?

Eu não queria confessar que tinha sido Procurando Dory. Sorte minha ser rápida para pensar em boas saídas. 

- Bom, não foi um filme inédito, tem problema?
- Claro que não!
- O Impossível. Aquele do tsunami, sabe? 

Eu realmente tinha revisto esse filme há poucos dias e chorei o equivalente de água usada naquele filme. Não era, tecnicamente, uma mentira. Passamos os minutos seguintes debatendo sobre os prós e contras do filme, o que faríamos se fôssemos os personagens e qual fim teria sido mais apropriado. Quando me dei conta, eu estava rindo. “Se controla, mulher! Ele vai achar que você está se divertindo.”

- Eu vou viajar para Cannes semana que vem, temos que marcar outro encontro quando eu voltar.
- Ah, claro. Eu meio que vou pra Cannes também.
- Meio que? 

“Meio que?”. De onde eu tirei isso? Eu vou, inteira, para Cannes. Não quis dizer antes para não parecer arrogante. 

- Desculpa, eu vou para Cannes também. A produtora onde eu trabalho está concorrendo com um curta. 
- Que legal! Foi produção sua?
- Co-produção.
- Bom, vamos nos esbarrar por lá, então.

Não se eu puder evitar. 

Eu sou meio fraca para bebida, confesso que o terceiro chope já agia sobre mim de forma covarde. As pessoas pareciam mais barulhentas, porém, mais bonitas também. Até aquele cabelo desgrenhado de chuva do Rodrigo parecia interessante. Não era cacheado, nem liso. E a barba dele era mais clara que o cabelo. Ele não tinha muita barba, só uma penugem – que eu, particularmente, prefiro. Ele tinha olhos profundos. Não esbugalhados, mas com uma mistura de cores que pareciam não terminar. E uma boca desenhada. Adoro quando homens possuem lábios bonitos, delineados, sabe? Sou uma grande admiradora de lábios em geral. 

Outra coisa que me chamava atenção em Rodrigo eram as mãos. Ele tinha mãos delicadas. Firmes, mas delicadas, sem calo nos dedos e unhas limpas. 

- Você está calada há um tempo. Tá tudo bem?

Eu sei que parece que eu estava ficando interessada nele, mas não é verdade. Eu só estava admirando qualidades que ele tem. E que a cerveja tem, também. 

Finalmente chegou um petisco que ele havia pedido: bolinhos de arroz. Eu tenho certeza que a Maria contou pra ele que amo bolinho de arroz, porque ele sequer perguntou o que eu queria, só disse “pode ser bolinho de arroz?”. Até parece que ele ia me ganhar pelo estômago. Quer dizer, até poderia. Inclusive seria mais fácil do que pelo coração, mas deu para entender, né? Tudo armado. 

Devoramos os bolinhos como dois selvagens despudorados e pedimos a saideira. A chuva não cessava e eu comecei a ficar com pena dele pedalando até o Jardim Botânico. 

- Você volta de bicicleta mesmo com esse temporal?
- Geralmente eu tenho uma capa de chuva ou toalha na mochila, mas hoje eu vim despreparado. Mas posso fazer hora e esperar diminuir. 

Morando no Rio de Janeiro ele devia imaginar que os temporais acontecem. Ou podia ter marcado no meio do caminho pros dois. Ou ser abusado e pedir para fazer hora na minha casa, o que graças a Deus ele não fez.

- Bom, foi um prazer te conhecer Rodrigo. Espero que a chuva diminua logo. 
- O prazer foi todo meu! E acho que logo ela vai passar. 
- Ou, você pode fazer hora na minha casa, eu te empresto uma toalha. Caso a chuva não passe. Logo. 

Foi educação, óbvio. Não era para ele aceitar. Qualquer pessoa teria oferecido. Continuo não interessada nele, mas sou uma cidadã e acho que não posso recusar ajuda às pessoas. Em casos assim, com chuva e bicicleta envolvidas. 

De alguma forma, o álcool bateu mais forte em mim e acabei sendo convencida a ir com ele de bicicleta até a minha casa. De fato, era bem perto, coisa de dez minutos. Mas chovia. Éramos dois adultos numa bicicleta só. Eu estabanada e medrosa, ele rindo e dizendo que não me deixaria cair. 

Chegamos encharcados no meu apartamento. Eu nem pedi, mas ele de pronto tirou os sapatos sujos e deixou no canto da sala. Fui até o banheiro com a desculpa de que pegaria uma toalha, mas na verdade eu precisava muito fazer xixi – depois de cinco chopes e uma água. Tirei minha roupa molhada e deixei em cima do cesto de roupa. Vesti meu roupão felpudo e quente, e levei umas toalhas para Rodrigo, que continuava em pé em frente à porta de entrada.

- Você não precisa ficar parado aí na porta. Pode entrar.
- Não quero molhar sua casa. 

Fiquei tentando pensar em alternativas de vestimentas para emprestar a ele e nada parecia muito tentador. O roupão ficaria curto e apertado. Minhas blusas não passariam do umbigo dele e com certeza nenhum short meu serviria. Rodrigo era meio magrelo, mas alto. Era um magrelo bonito, tudo no lugar, sabe?

- Tem uma calça do meu irmão aqui. Quer ver se serve em você?

Lembrei que meu irmão vinha lavar roupas na minha casa, já que ele não tinha espaço para uma máquina de lavar. Rodrigo era maior que meu irmão, mas era a única saída. 

- Ficou ótima, obrigada! 

A calça ficava meio apertada nele, mas era melhor do que aquele jeans molhado grudando. Ele ficou sem camisa e parecia ter bagunçado ainda mais o cabelo. Ele agora se mostrava bem mais interessante do que há três horas atrás, quando chegou esbaforido na estação do metrô. Elogiou meu apartamento algumas vezes e parecia extasiado com minha coleção de vinis de rock dos anos 70. Coincidentemente, tínhamos gostos parecidos. 

Sem que eu me desse conta, ele me beijou. Definitivamente, ele poderia ser um crítico de beijo. Rodrigo tinha segurança no que estava fazendo. A mão por entre meus cabelos molhados, a outra que apertava minha cintura, os lábios que faziam força contra os meus sem se prolongar muito, nem ser ligeiro demais. Não tinha mais saliva envolvida do que o suficiente e a língua fazia todos os movimentos como se fosse integrante do Cirque du Soleil (é um elogio). 

Eu não queria dar o braço a torcer da primeira impressão que tive dele. Prepotente, arrogante, desleixado. “Deve ser ruim de cama”. Só podia ser. O beijo era bom – era ótimo, na verdade – mas até aí, nada que eu não encontrasse no jornaleiro da esquina*. 

Resolvi sugerir meu quarto para comprovar minha teoria de que críticos de cinema precoces são ruins de cama. Ele, é claro, topou na hora. 

Rodrigo não tinha pressa de nada. Não tirava meu roupão com uma mão enquanto desabotoava a calça com a outra, como um adolescente. Ele fazia uma coisa de cada vez e não parava de me beijar. Convencido, né? 

Enquanto a coisa toda ia acontecendo, eu fiquei pensando no pior. “E se ele resolver escrever uma crítica do meu desempenho sexual?”. Vai saber, né? Crítico que é crítico adora criticar. Imaginei meu pai abrindo o jornal pela manhã e lendo que sua filha não tem tanta flexibilidade para transar em pé apoiada na escrivaninha, que inclusive eu herdei dele. Ou meu irmão lendo que a calça dele ficou jogada no chão, naquele quarto zoneado pós-apocalíptico que eu teria arrumado, se soubesse que eu iria transar naquela noite. Ou meus avós lendo que aquele encontro era uma mistura de Ninfomaníaca com A Escolha de Sofia**, nas piores características dos dois filmes. 

Todos os cenários eram assustadores e eu queria voltar no tempo e não ter sugerido o quarto. Ou dele trocar de roupa. Ou de ir até minha casa. Mas, de repente, eu parei de pensar nisso. Rodrigo era ótimo na cama, talvez até melhor do que no beijo. E até o sexo na escrivaninha que era do meu pai foi bom. 

- Eu tinha certeza que você não ia gostar de mim. 
- Por que você me chamou pra sair, então?
- A Maria disse que você valia o risco. 
- Risco?
- É. De ir até você, mesmo à toa. 
- Foi à toa? 
- Foi ótimo. 
- Por que você achou que eu não gostaria de você?
- Acho que porque sou novo demais para ser crítico de cinema, você podia me achar arrogante. 
- Eu achei, na verdade.
- Sério? E por que me convidou pra sua casa? 
- A Maria disse que você valia o risco.
- Que risco?
- De me apaixonar de novo. 

*eu tinha, de fato, beijado o jornaleiro da esquina. Ele fez figuração num dos filmes que trabalhei e a gente acabou ficando na festa de encerramento. Sim, eu já sabia que ele era o jornaleiro da esquina da minha rua. Não, eu nunca ganhei jornal de graça, mas ele me deixou levar uma Vogue com desconto de cinco reais, porque eu não tinha dinheiro suficiente na hora. 

**meus avós realmente assistiram Ninfomaníaca 1 e 2. E comentaram sobre isso no almoço de Páscoa. Eles têm 89 anos.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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