segunda-feira, 15 de maio de 2017

O Rastro: Uma Tentativa de Terror Nacional




Apesar do sucesso de público que alguns filmes nacionais vem conquistando de alguns anos para cá, ainda é impossível dizer que o Brasil possui um cinema com produção em larga escala. Vivemos ondas de produções de nicho, com um ou outro exemplar que foge à essa regra surgindo eventualmente e, quando faz sucesso, dando vazão a um novo nicho de sucesso. Foi assim com os favela movies e, como vemos agora, com as comédias besteirol nacionais que chegam em profusão aos cinemas. Assim, ver um filme como O Rastro, que se vende como um terror genuinamente nacional, ganhar espaço nas telas pode significar que o gênero tem uma chance de arrebatar o nosso público. Mas, será?

O Barba Feita foi convidado para uma exibição especial do filme para veículos de mídia e eu conferi o longa antes da estreia, que acontece nessa quinta-feira, 18/05, em todo território nacional. E a sinopse de O Rastro é bastante empolgante para os fãs de terror que tem aqui a chance de acompanhar um exemplar do gênero feito para o público brasileiro: João Rocha (Rafael Cardoso) é um jovem e talentoso médico que, ao largar a prática da medicina, trabalha para o governo do Estado do Rio de Janeiro na supervisão da área de saúde. Uma de suas tarefas é fechar um hospital público decadente do estado, devido à falta de verba e por não ter condições de atender devidamente a população. Entretanto, durante a ação de fechamento do hospital, que é o local onde João fez residência, uma paciente criança desaparece no meio da noite, passando a assombrar João que embarca em uma jornada obscura e perigosa, que o levará ao limite da loucura e de seus próprios fantasmas.

Lida dessa forma, a sinopse nos apresenta um filme assustador, disposto a provocar o seu espectador, correto? E sim, com um grande potencial, O Rastro apresenta logo a sua história, para em seguida se perder em um roteiro que tenta ser espertinho mas que é apenas mediano em sua execução. E o grande problema do filme é não se decidir se é um terror de verdade ou um suspense investigativo, tornando-se uma mistura fraca dos dois, que decide mudar de foco de uma hora pra outra, sem se aprofundar em nenhum dos gêneros.

Apesar do ótimo elenco, encabeçado por Rafael Cardoso e uma Leandra Leal inspirada, sem contar as participações de Jonas Bloch e Claudia Abreu, O Rastro demora a engrenar, preso demais na cabeça do protagonista João ao invés de apresentar a sua verdadeira história. E quando apela para uma trilha sonora forçada para provocar sustos ou uma câmera que tenta ser espertinha e granulada, o efeito é exatamente o contrário, provocando no espectador a sensação de que o filme apenas tenta, mas não consegue o seu objetivo real. 

Entretanto, o maior problema do longa está em seu roteiro. Apesar de merecer destaque o esforço de manter questões atuais em sua execução, como a corrupção e os problemas da saúde nacionais, ele se arrasta em alguns momentos, avança em outros e, no que imagino ter sido uma ideia brilhante durante a sua concepção, muda completamente o rumo da narrativa em seu terço final. Não é brilhante, é fraco.

Mas, apesar dos poréns, o filme não é de todo ruim. Leandra Leal brilha como Leila, Rafael Cardoso surpreende na pele de João, e temos a oportunidade de ver mais uma vez Domingos Montagner atuando, o que é sempre bem vindo depois da morte precoce do ator. Além disso, apesar do resultado final não se decidir entre o terror e o suspense, é louvável a tentativa da produção de um autêntico terror nacional em terras tupiniquins, pegando assuntos do nosso cotidiano e que poderiam ter rendido um filme realmente assustador. Faltou a coragem de assumir um terror sobrenatural daqueles, mas vale a intenção, não é mesmo?

Assim, apesar de O Rastro não entrar para a história como um filmaço brasileiro, vale a pena conferir, ciente que o filme não é tão assustador como se vende, mas também não é um exemplar a ser descartado de cara. É diversão descompromissada, mas que pode ser apreciada por parte do público.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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