terça-feira, 30 de maio de 2017

Quando Ele Acordou





Mais uma noite horrível. Sonhos tão reais que Pedro acordava totalmente desnorteado. Já era normal tomar um comprimido de paracetamol ao acordar, para ter forças suficientes pra levantar da cama. Após conseguir se levantar, foi para o banho, deixou a água cair sobre os cabelos na altura dos ombros, sentindo escorrer pelo corpo, quente e reconfortante, como um abraço. Riu ao pensar nisso. "Parece frase de comercial de amaciante."

Se lavou, trocou de roupa, fazendo careta para o corpo magrelo. A calça jeans justa, com a camisa preta, de manga longa, e o tênis preto, ele saiu arrumando o coque, com a bolsa carteiro batendo na perna direita. Shape of you, do Ed Sheeran começou a tocar na playlist, e ele logo trocou, não aguentando mais ouvir essa música em tudo que era lista do Spotify. Colocou How Deep Is Your Love, do Bee Gees, e saiu em sua bicicleta, se sentindo na cena de algum filme antigo sobre um jovem perturbado e confuso. Fazia o caminho casa-trabalho observando os mesmos detalhes de todos os dias, sentindo a brisa fria de inverno na pele, o aroma das árvores em determinada parte do caminho, que lhe causava um espontâneo sorriso. Arriscou cantarolar um pedaço do refrão, desviou de uma poça, acenou para alguém que não conseguiu reconhecer, mas que acenava alegremente.

Pedro reparou que, na traseira do ônibus que estava logo a sua frente, havia o nome 'Bom Pastor Papelaria', o que lhe trouxa memórias extremamente vivas dele usando uniforme branco com as mangas azuis, e o nome 'Escola Estadual Bom Pastor' bordado no lado direito do peito. Sentiu o cheiro da sala de aula, do tempero forte que exalava da cozinha, ouviu vozes de alunos, de professores, um torneio de queimada surgiu, com a platéia ovacionando cada jogada de seu time. O que aconteceu a seguir foi Pedro indo ao chão, após perder o equilíbrio. Rolou, uma, duas, três vezes, até parar no meio-fio. Felizmente não quebrou nada, só alguns arranhões, mas bateu as mãos nas roupas, montou na bicicleta e seguiu caminho, dessa vez mais atento.

Subiu no elevador, apertou o botão dez e ficou pensando no que havia acontecido. Nunca tinha acontecido isso quando acordado, apenas quando dormia. Foi tão real, tão... Por alguns segundos, ele sentiu que aquela bicicleta, o cheiro das árvores, o vento na pele, nada daquilo era real, de fato, mas afastou logo esse pensamento, porque a queda havia sido bem real. Antes de o elevador se abrir, Pedro viu seu reflexo na porta tremeluzir, como uma televisão tentando sintonizar o canal correto. Sacudiu a cabeça, esfregou os olhos e atravessou o corredor, direto para o escritório. "Com certeza é a mudança, a ficha deve estar caindo agora."

Ele havia se mudado para o Rio e tanta coisa havia acontecido, que não pareciam dois anos, mas dez! Término, começo, desemprego, novo emprego, amigos, brigas, bebedeiras, ameaça de despejo, mas finalmente sua vida parecia ter entrado no trilho certo e ele agora trabalhava numa empresa focada em gestão de crises, e gerenciando o bar de um amigo à noite. O segundo emprego ele fazia por camaradagem, embora uma graninha extra fosse sempre bem vinda. Mas esses episódios vinham se tornando mais e mais frequentes. Às vezes, estava num bar com amigos, e o cenário todo mudava, por segundos, mas mudava. Nomes, lugares, situações, e outras coisas surgiam em sua mente, como se tivessem acontecido. Tinha vislumbres de outros lugares, de pessoas, mas nada tão real e vívido como o que acontecera no trajeto para o trabalho. Geralmente, ele sonhava com sua mãe, com seu pai, ela morta, ele em depressão por causa da morte, sendo internado numa clínica. O problema era que os sonhos sempre mostravam os dois vivos e bem, felizes, e algumas vezes mostravam ele deitado e os pais o observando. Havia se consultado com uma cartomante, uma vidente, e até uma cigana, pra saber o que podia ser, mas ninguém lhe dava respostas claras sobre o que estava acontecendo com ele.

Enquanto lia alguns documentos a respeito do novo cliente, um advogado famoso que tinha sido pego com duas menores de idade, bebia seu café lentamente, absorvendo cada informação, até que Ana, a recepcionista que arrastava não só uma, mas as duas asas pra cima dele, se aproximou.

- E aí, Zé Mané. - O sorriso largo entre uma mascada e outra no chiclete rosa.
- Do que você me chamou? - Piscou os olhos, confuso.
- De Pedrinho, ué. O que você entendeu?
- Ah... nada... - O apelido 'Zé Mané', de alguma forma, significava muito, mas muito pra ele, mas não sabia dizer o motivo. - O que foi, meu bem?
- Queria saber se você tem planos pra hoje, depois do trabalho.
- Ih, não tenho nada não, o que você sugere?
- Podíamos tomar um chopp, ou cinco, e comer alguma coisa, o que acha?
- Bem, por mim, tudo bem. Naquele bar da esquina?
- Sim, pode ser. Até mais ver. - A garota girou sem sair do lugar, indo em direção à cozinha.

Acontece que Pedro também tinha uma baita queda por Ana, mas era aquela coisa não dita que pairava constantemente entre os dois, desde o primeiro dia em que se viram. Decidiu que hoje se declararia pra ela, não de uma forma dramática, mas diria o que sentia toda vez que a via, que sempre reparava nos cortes de cabelo, na roupa que usava e nas cores, nos laços, nos acessórios, no hálito de morango proveniente da pasta de dentes para crianças, e também no azul de seus olhos, tão profundos quanto uma safira azul, e que a pele bronzeada lhe fazia lembrar do mar, da areia, do sol, das aves marítimas, e de quando ele e seu tio foram pescar em alto mar e tiveram que fugir da tempestade que se aproximava velozmente. 

"O que?!", pensou. Ele não tinha tio, muito menos tinha ido pescar em alto mar, sempre teve muito medo. Então, por que o sabor da água salgada era tão forte? E o som das ondas contra o casco do barco? Pedro quis gritar quando a embarcação foi jogada pra direita e ele não conseguiu agarrar o leme, batendo as costas na lateral. O golpe o fez acordar do transe, confuso, com seu chefe, Hector, o encarando.

- Pedro? Tá aí?
- Oi, sim, desculpe.
- Tá tudo bem? Tenho te achado meio distante por esses dias...
- Não, tudo bem, chefe, eu... Sabe como é, três casos ao mesmo tempo, tenho tido pouco tempo pra dormir, mas eu dou conta, não se preocupe.
- Que você dá conta, eu sei, mas não quero que se sacrifique tanto assim, você é valioso. - Os dentes extremamente brancos do chefe brilharam, dando-lhe mais jovialidade do que aparentava. - Como está com o advogado?
- Nada bem, nada bem. Quem quis ferrar ele, conseguiu fazer com maestria. Não tem nem como dizer que foi montagem. O casamento já era, a carreira já era... O jeito vai ser mandar ele assumir, ir pra cadeia, e tentarmos reduzir a pena do cafajeste.
- Pedro...
- Eu sei, eu sei, não se envolver emocionalmente, mas cara...
- Acredite, também me revolta, mas ele é o cliente, então...
- Então... vamos ajudar o filho da mãe a ter a pena reduzida.

O dia passou devagar, como uma tartaruga. Foi quando o relógio marcou 18:00h, que Pedro guardou seus documentos na gaveta, trancou, pegou suas coisas e desceu com Ana. A conversa fluía naturalmente, sobre o jogo da semana passada, os últimos filmes que tinham visto, e volta e meia, Ana tremeluzia diante dos olhos dele, como se a televisão estivesse tentando sintonizar o canal correto, e cada vez que isso acontecia, ele via o teto, via luzes, via rostos com máscaras, que logo desapareciam .

Chopp ia, chopp vinha, e Pedro ia tomando mais e mais coragem para pegar nas mãos de Ana, de forma gentil, e dizer-lhe o que sentia. Até que, finalmente, aconteceu, ele pegou nas mãos dela, sorriu da forma mais gentil que conseguia, olhando-a nos olhos, que sorriam, junto com os lábios.

- Ana, eu preciso te falar que...

Preto. Escuridão. Tudo sumiu. Pedro se viu envolto em total escuridão. Até que abriu os olhos, devagar, sentindo a luz encontrar suas pupilas. Engasgou com o tubo em sua garganta, que foi tirado gentilmente, lhe causando enjoo e dor.

- Ana... - Disse com dificuldade. - Ana... onde... onde ela... onde eu... - Seus olhos corriam pela sala branca, encarando a mulher no vestido vermelho, de cabelos cacheados e lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto sorria, as mãos juntas junto à boca.
- Meu filho, graças a Deus... pensei que...
- Mãe...? Mas... mas... a senhora não... havia... morrido...? O que houve?
- Pedro, meu filho... você esteve em coma por cinco anos...

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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