quarta-feira, 17 de maio de 2017

Questão De Gosto





Essa semana, Taís Araújo fez o que muita gente às vezes tem vontade, mas fica sem graça: recusou a comida que sua anfitriã ofereceu. E olha que a anfitriã era a Ana Maria Braga e a transmissão do episódio foi em rede nacional. Alguns atribuíram a decisão a um preceito religioso (a conhecida “quizila” do Candomblé e vertentes afins), fato que teria já sido negado pela própria Taís. Ela tem aversão mesmo e ponto, segundo ela.

Mas quem nunca passou por uma situação dessas?

Eu sou o que muita gente considera “fresco” com comida. Já fui chamado assim diversas vezes, por ter meus gostos, minhas restrições e meus métodos. Uma das maiores crises quando eu era criança era acordar e sentir aquele cheiro de dobradinha sendo cozida exalando pela casa (sim, porque dobradinha empesteia qualquer ambiente, não importa o tamanho ou se há paredes no caminho...). Ou quando a minha mãe anunciava que ia fazer bife de fígado. Ou galinha ao molho pardo (eufemismo para “cozida no sangue”).

Lá pelos meus 11 anos, me lembro também de ir à casa dos meus vizinhos e, após jogar algum videogame ou jogo de tabuleiro, a mãe deles nos chamou para saborear um doce chamado “mil-folhas de pobre”. Àquela época, não tinha ideia do que era mil-folhas, mas de ser pobre eu entendia. Fui provar... Trava-se de um bando de cream cracker recheado com creme de confeiteiro disposto uma travessa. Empurrei goela abaixo com muita água... Fiz vômito, quase recusei no meio. Mas consegui. Ela perguntou se eu gostei; disse que sim. “Então, come mais!”. Consegui convencê-la de que estava satisfeito...

Recentemente dormi na casa de uns amigos e, quando acordei, eles haviam feito omelete para mim no café da manhã. Eu durante muitos anos não comi ovo (diz minha mãe que eu comia demais quando era criança e, de uma hora pra outra, peguei nojo). Comer ovo no café da manhã, que é quando estou mais sensível a paladares fortes, não deu. Pior foi saber que só fizeram porque a pessoa que está comigo há 12 anos disse que eu comia, sim. Sobrou pra ele comer, claro. Fiquei no suco com castanhas e corri pra pegar um pão de queijo com Toddynho na padaria da esquina, quando saí.

Falando em ovo, um dos causos inesquecíveis da minha época de jornalista de redação era quando estava trabalhando no jornal O Fluminense e fui chamado a cobrir uma pauta sobre curiosidades dos candidatos a prefeito de Niterói. O ano era 2004 e o prefeitável chamava-se Zeca Mocarzel. Depois de ter que fazer um cooper matinal na orla da praia de Camboinhas (de roupa de trabalho e caderninho em mãos, claro), fomos conversar sobre o fato de ele criar avestruzes. Qual foi o almoço? Risoto de ovo de avestruz. Naquela época, eu não era fã de risoto. Até hoje não sai da minha mente ele abrindo aquele ovo gigantesco (curiosidade: é a maior célula do mundo), cozido na panela de pressão devido ao seu tamanho e espessura, e aquela gema mole vazar e se misturar com o arroz, fazendo uma maçaroca amarela com cheiro de ovo cru. O dever me chamava e eu provei. Disse que estava uma delícia. O anfitrião se levantou e foi conversar com uma assessora. O fotógrafo comentou: “Poxa, ‘sangue’, tá uma delícia mesmo, né?”. “Você realmente gostou?”, indaguei. “Muito!”. “Então come o meu também!”, e entreguei o prato sorrateiramente a ele. Na mochila, um leite condensado caramelizado com flocos crocantes cobertos com o delicioso chocolate Nestlé (vulgo Chokito) me esperava para saciar a minha fome.

Sem contar que tenho minhas manias. Não gosto de nada com milho, exceto o milho em si e pipoca (canjica, polenta, angu, creme, cuscuz, pamonha, curau e afins não têm vez). Amendoim só curto salgado; no máximo uma paçoca ou um pé de moleque caseiro – não suporto cajuzinho, por exemplo. Queijo com doce, nem pensar! Sem espaço para cheese cakes, romeus e julietas e beijinhos de queijo (quem inventou aquela maldição nos anos 1980 nas festas de criança? Achava que era beijinho de coco e botava na boca e era feito com queijo). Suco de laranja não serve pra almoço (nada melhor para um lanchinho, mas com comida, não), mas de tangerina pode! Amo tapioca, mas só doce – essas coisas com queijo, presunto, carne e tal, tô fora!

No geral, ultimamente tenho me permitido provar coisas novas. Passei a comer comida japonesa depois dos 31 anos de idade, por exemplo – hoje em dia adoro. Voltei a ter ovo na minha dieta – com algumas restrições, mas voltei. Provei chuchu e não achei ruim. Passei a comer tomate cru em algumas situações, algo que sempre desgostei. Ah, mas tem uma coisa que não muda e nunca mudará: tenho aversão completa e irrestrita a salsinha crua. Tinha um professor de biologia meu que dizia que isso era culpa de um gene específico e, portanto, hereditário. Faz certo sentido, levando em conta a minha família. Uma vez li um texto do Veríssimo em que ele dizia que aprendia sempre a falar “salsinha” na língua do país que ele visitava, justamente para se certificar se vinha sem. Eu passei a fazer o mesmo...

Revendo tantas saias justas pelas quais passei e tantos desgostos que poderia ter evitado com o meu paladar tão restritivo, creio que bem fez a Taís Araújo. Ao menos foi autêntica e não fez nada para agradar. Ainda mandou na lata: “nunca imaginei que iria ter abóbora às 8 da manhã”. Faz sentido (embora na minha família paraibana, às vezes tivesse abóbora no café da manhã, junto com aipim, inhame, carne de sol, carne seca, cuscuz de milho...). Ela ainda mandou um pedido de desculpas fofo no dia seguinte e uma caixa de brigadeiros pra Ana Maria Braga. Quer amor maior que brigadeiro?

Aliás, tô aceitando pedido de desculpas assim... Alguém aí já me fez alguma desfeita? Brigadeiros, por favor!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Marco disse...

Cara, eu sou chato pra comer, mas você é campeão, heim? Hehehe!

Olha, achei autêntica a atitude da Taís Araújo, que conseguiu lidar com a situação delicada com a elegância possível. E tratou de minimizar o mal estar depois com gentileza e bom humor.

Mas o que mais me impressionou foi como um assunto tão banal ganhou tamanha relevância nacional. Retrato do nosso tempo.

Abs.